
A Pegadinha Que a Destruiu
Capítulo 3
Meu último resquício de esperança se voltou para Caio. Ele tinha que ver. Ele tinha que entender.
"Caio, olhe para ele", implorei, minha voz tremendo. "Ela o torturou. Ele é nosso cachorro. Nosso... nosso bebê."
A voz gentil de Caio cortou minhas palavras frenéticas como um caco de vidro. "Alice, se acalme. Foi para o seu próprio bem."
Eu o encarei, sem compreender. "Para o meu bem?"
"A Kaila precisa praticar", disse ele, como se fosse a coisa mais razoável do mundo. "Além disso, ele é só um cachorro. A vida dele não é tão importante quanto a de uma pessoa."
Eu o olhei boquiaberta, as palavras me atingindo com a força de um golpe físico. Só um cachorro.
"Você costumava chamá-lo de nosso filho", sussurrei, a memória uma ferida fresca. "Você disse que ele era da família."
Minha voz se elevou, aguda e estridente com incredulidade e dor. "Ele era da família!"
Kaila bufou atrás de Caio. "Patético. Ficar tão alterada por causa de um animal estúpido."
Caio deu um passo à frente, sua mão se estendendo para o corpo sem vida de Sol. "Vamos tirar isso daqui. Está fazendo uma bagunça."
"Não toque nele!", gritei, protegendo Sol com meu próprio corpo.
"Alice, seja razoável", disse ele, sua paciência claramente se esgotando. "É só um cachorro. Eu te compro um novo. Um melhor."
Eu o encarei, vendo-o de verdade pela primeira vez. A fachada encantadora havia se dissolvido completamente, revelando o vazio frio e oco por baixo. Ele não sentia nada. Nem por Sol, e nem por mim.
A luta se esvaiu de mim, substituída por um vazio arrepiante. Sentei-me no chão, embalando o corpo de Sol, e não me movi pelo resto da noite. Minhas lágrimas finalmente secaram, deixando meus olhos inchados e irritados.
Pouco antes do amanhecer, enrolei Sol em seu cobertor favorito. Peguei todo o dinheiro que tinha, cada centavo, e encontrei um serviço de cremação de animais 24 horas. Levei suas cinzas ao cemitério e as enterrei ao lado dos túmulos de meus pais.
Fiquei sentada ali no chão frio por horas, a dor na minha perna uma pontada surda em comparação com o buraco aberto no meu coração. Sol era inocente. Ele não merecia morrer de uma forma tão horrível.
Meu celular tocou, me assustando. Era o Professor Almeida. Ele parecia preocupado. "Alice, você está bem? Tem algo que você precisa ver. Pode vir ao meu escritório?"
Uma sensação de pavor me invadiu enquanto eu atravessava o campus. Os alunos me encaravam e sussurravam, seus olhos se desviando quando eu olhava para eles. Algo estava errado.
Em seu escritório, o Professor Almeida virou seu laptop para mim. Ele não disse uma palavra.
Na tela havia um vídeo. Era eu. No meu quarto. O vídeo era granulado, filmado por uma câmera escondida, e o conteúdo era privado, íntimo. Algo que Caio me convenceu a fazer, prometendo que era só para ele.
Meu rosto ficou branco. Senti-me enjoada, exposta, violada mais uma vez. Fechei o laptop com força.
"De onde veio isso?", perguntei, minha voz mal um sussurro.
Os olhos do Professor Almeida estavam cheios de compaixão. "Está em todos os fóruns da faculdade, Alice. Alguém vazou ontem à noite."
Eu sabia, com uma certeza que me gelou até os ossos, quem era o responsável. "Nunca deveria ter saído do celular dele."
"Precisamos ir à polícia", disse ele com firmeza. "Isso é um crime. Eles te identificaram no vídeo, e há rumores horríveis se espalhando. Algumas pessoas estão até sugerindo que você está envolvida em... vender esse tipo de conteúdo."
O mundo girou diante dos meus olhos. Minha reputação, meu futuro, tudo isso estava sendo destruído.
"Preciso encontrá-lo", eu disse, minha voz entorpecida. Recusei a oferta do professor de me acompanhar à delegacia. Eu tinha que enfrentar Caio sozinha.
Denunciei o incidente e depois voltei para o apartamento. Caio e Kaila tinham sumido. Seus celulares iam direto para a caixa postal. Uma parte de mim, a parte estúpida e esperançosa, se preocupou que algo tivesse acontecido com eles.
Eu estava andando de um lado para o outro na sala, minha mente a mil, quando a porta da frente se abriu. Não era Caio. Eram dois homens grandes e ameaçadores que eu nunca tinha visto antes.
"Estávamos esperando por você, Alice", disse um deles com um sorriso malicioso.
"Quem são vocês? Como entraram aqui?", exigi, recuando.
Eles trocaram um olhar. "Você nos deu a chave, lembra?", o outro riu.
Meu sangue gelou. Era outra mentira, outra armadilha. "Eu não conheço vocês."
"Não importa", disse um deles, avançando sobre mim. "Nossa chefe está muito infeliz com você."
Tateei em busca do meu celular, meus dedos tremendo enquanto eu discava 190.
"Vadia!", o homem praguejou, avançando para cima de mim. Eles viram o celular e fugiram, batendo a porta atrás de si. Fiquei ali, tremendo, meu corpo coberto de um suor frio.
A porta se abriu novamente. Desta vez, era Caio.
"Alice!", ele parecia frenético.
Por uma fração de segundo, o alívio me invadiu. O velho instinto de correr para ele, de buscar sua proteção, ainda estava lá.
"Caio, onde você esteve?", perguntei, um soluço preso na garganta. Eu queria perguntar sobre o vídeo, sobre os homens, sobre tudo.
Mas antes que eu pudesse, Kaila apareceu atrás dele. Seu rosto era uma máscara de fúria. Ela deu um passo à frente e me deu um tapa forte no rosto.
A força do golpe me fez cambalear para trás.
"Sua vadia estúpida!", ela gritou. "Você chamou a polícia para os meus amigos? Você vai comigo para a delegacia agora mesmo para limpar o nome deles!"
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