
A Maldição da Imortalidade
Capítulo 2
Esta foi a minha nonagésima nona morte.
Meu noivo, Pedro, me empurrou para a frente de um carro em alta velocidade.
Tudo para proteger a mulher em seus braços, Luana, minha melhor amiga.
O carro me atingiu com um baque surdo, e meu corpo voou pelo ar antes de cair pesadamente no asfalto. A dor aguda foi a última coisa que senti antes que a escuridão tomasse conta de tudo.
Pedro nem sequer olhou para o meu corpo quebrado no chão, seus olhos estavam fixos em Luana, que tremia em seus braços.
"Você está bem? Se machucou?"
A voz dele, normalmente fria e distante para mim, estava cheia de uma ternura que cortava mais fundo do que qualquer ferida física.
Luana, com o rosto pálido, balançou a cabeça, agarrando-se a ele como se fosse sua única salvação.
"Estou bem, Pedro. Mas a Camila..."
Pedro finalmente olhou na minha direção, mas não havia preocupação em seu rosto, apenas uma frieza calculada. Ele caminhou até mim, verificou minha respiração e, confirmando que eu estava morta, pegou meu corpo flácido e me jogou sem cerimônia no porta-malas do carro.
"Ela vai ficar bem", ele disse para Luana, com uma naturalidade assustadora. "Você sabe que ela sempre volta."
Vários de seus amigos, que haviam testemunhado tudo, não mostraram nenhum pânico. Em vez disso, formaram um círculo casual, e um deles tirou uma nota da carteira.
"Aposto cinquenta que ela volta em menos de dez minutos."
Outro riu.
"Você é muito otimista. Com o impacto que foi, eu diria pelo menos quinze. Aposto cem."
Eles riam e faziam suas apostas sobre o meu corpo ainda quente, como se eu fosse um espetáculo de circo, uma diversão para passar o tempo.
Para eles, minhas mortes eram apenas um jogo.
Mas para mim, era o fim de um ciclo.
Ninguém sabia do segredo ancestral da minha família. Eu possuía o dom da ressurreição, mas ele estava ligado a um ciclo de noventa e nove mortes. A cada vez que eu voltava, uma parte das minhas memórias e dos meus sentimentos se apagava, me tornando cada vez mais vazia, mais indiferente.
Esta era a nonagésima nona vez.
Só mais uma.
Só mais uma morte e eu estaria livre. Livre de Pedro, de Luana, dessa dor sem fim. Minha provação estaria completa, e eu ascenderia a um plano superior, deixando para trás toda essa sujeira terrena.
Eles achavam que me controlavam, que meu poder era um recurso inesgotável para seu benefício. Mal sabiam eles que estavam apenas me ajudando a cumprir meu destino.
A sensação de vida voltou lentamente, formigando em meus membros. Abri os olhos para a escuridão abafada do porta-malas. O cheiro de sangue e metal enchia minhas narinas. O carro parou, e logo em seguida, a tampa do porta-malas se abriu, inundando o espaço com a luz fria de uma garagem.
Pedro olhou para mim, seu rosto uma máscara de impaciência.
"Já que acordou, saia. Você está sujando o meu carro todo."
Não havia uma única pergunta sobre como eu estava, se sentia dor. Apenas a reclamação sobre a mancha de sangue que meu corpo havia deixado no carpete.
Levantei-me com dificuldade, meu corpo todo doía. Saí do porta-malas e fiquei de pé, o sangue escorrendo pela minha perna e formando uma pequena poça no chão de cimento polido.
Pedro me entregou um pano.
"Limpe isso."
Obedeci em silêncio. Ajoelhei-me e comecei a limpar meu próprio sangue do porta-malas e do chão. A humilhação era um gosto amargo e familiar na minha boca.
Isso não era nada.
Uma vez, no auge do inverno, Luana reclamou que não queria sujar seus sapatos de grife na neve lamacenta. Pedro, sem hesitar, me fez tirar o casaco, depois o vestido, até que eu estivesse completamente nua, e me mandou deitar na neve para que Luana pudesse usar meu corpo como um tapete para chegar até o carro.
O frio cortante daquela noite ainda arrepiava minha pele só de lembrar.
Naquela época, eu chorei. Eu implorei.
Agora, eu apenas limpava o sangue, meu coração um deserto vazio. Só mais uma vez, eu repetia para mim mesma. Só mais uma.
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