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Capa do romance A Maldição da Imortalidade

A Maldição da Imortalidade

Após morrer noventa e nove vezes, percebo que Pedro, meu noivo, me trata como um escudo descartável para proteger Luana. Ele me jogou sob um carro e agora seus amigos debocham da minha ressurreição, ignorando que cada retorno apaga minhas memórias. Ao lembrar do aborto forçado causado por eles, entendo a crueldade desse ciclo. Minha imortalidade virou diversão para suas vaidades, mas a centésima morte se aproxima, sendo a minha única chance de liberdade real.
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Capítulo 3

Enquanto eu terminava de limpar, Pedro se aproximou. Por um instante, sua voz suavizou um pouco, um eco fantasmagórico do homem que ele já foi.

"Camila, eu..."

Ele não terminou a frase. Luana, que estava observando tudo da porta da casa, soltou um pequeno gemido.

"Pedro, meu tornozelo dói um pouco."

Imediatamente, toda a atenção de Pedro se voltou para ela. Ele correu para o seu lado, agachando-se para examinar seu tornozelo com uma preocupação que ele nunca mais demonstrou por mim.

"Onde dói? Deixe-me ver. Deveríamos ir ao hospital?"

Ele a pegou no colo com cuidado, como se ela fosse feita de vidro, e a levou para dentro de casa, me deixando sozinha na garagem fria com o cheiro do meu próprio sangue.

Houve um tempo em que essa preocupação era toda para mim.

Lembro-me de uma vez, anos atrás, quando eu cortei o dedo com uma folha de papel. Pedro entrou em pânico. Ele limpou o pequeno corte com um cuidado exagerado, colocou um curativo e ficou me observando por uma hora, com medo de que eu pegasse uma infecção. Seus olhos, naquela época, transbordavam de amor e medo de me perder.

Quando foi que tudo mudou?

Acho que foi na terceira vez que morri. Ou talvez na décima.

Ele passou do pânico à preocupação, da preocupação à irritação, e da irritação à completa e total indiferença. Minha capacidade de voltar da morte se tornou uma conveniência para ele, uma rede de segurança que lhe permitia ser imprudente, cruel.

E, eventualmente, se tornou uma ferramenta para agradar Luana.

Ele me usava como um escudo humano, um brinquedo para o entretenimento dela, um objeto descartável que sempre voltaria para mais abusos. As noventa e nove mortes que sofri foram, em sua maioria, por causa dela. Afogada porque Luana queria ver o pôr do sol de um barco e eu "atrapalhei a vista". Envenenada porque Luana não gostou da comida que eu preparei. Atropelada para que ela não se assustasse.

A lista era longa e sangrenta.

"Camila!" A voz de Pedro ecoou da casa. "Venha aqui."

Respirei fundo e entrei. Luana estava sentada no sofá, com o pé apoiado em uma almofada, enquanto Pedro a servia com um copo de água.

"Peça desculpas a Luana", ele ordenou, sem me olhar. "Você a assustou."

Essa era outra parte do ritual. Toda vez que eu ressuscitava, eu tinha que pedir desculpas. Desculpas por ter morrido. Desculpas por ter causado um incômodo.

Olhei para Luana, seu rosto uma máscara de falsa fragilidade.

"Desculpe, Luana. Eu não farei isso de novo."

Minha voz saiu monótona, sem emoção. Eu já tinha dito aquelas palavras tantas vezes que elas perderam todo o significado.

Minha resposta calma pareceu surpreender Pedro. Geralmente, eu chorava ou protestava, o que só o irritava mais. Desta vez, minha submissão o deixou sem saber como reagir.

"Bom", ele disse, com a voz um pouco instável. "Agora, volte e termine de limpar o carro. E lave-o. Está imundo."

Assenti e me virei para sair.

Mas antes que eu pudesse dar um passo, uma lembrança me atingiu com a força de um soco no estômago. Uma lembrança que eu havia perdido em alguma das minhas mortes anteriores, mas que agora voltava com uma clareza terrível.

Eu estava grávida. Uma vez.

Apenas algumas semanas, mas a alegria que senti foi a coisa mais real da minha vida. Eu ia contar a Pedro, mas Luana descobriu primeiro.

Ela ficou furiosa, com ciúmes. Disse a Pedro que não suportava a ideia de me ver com um filho dele.

Naquele dia, Pedro soltou seu cão de caça, um Doberman enorme e agressivo que ele mantinha para segurança, no jardim onde eu estava. Ele sabia que eu tinha pavor do animal.

O cão me atacou. Ele me mordeu, rasgou minha pele. Uma das mordidas foi no meu abdômen.

Eu gritei por Pedro, implorei para que ele chamasse o cachorro de volta. Ele apenas ficou parado na varanda, com Luana ao seu lado, observando.

"A Luana não está se sentindo bem por sua causa, Camila", ele disse, sua voz desprovida de qualquer emoção. "É melhor que isso acabe logo."

Perdi o bebê ali mesmo, no gramado ensanguentado.

Quando mais tarde, em um raro momento de lucidez, ele me viu chorando pela perda, ele simplesmente deu de ombros.

"Não se preocupe", ele disse. "Crianças, nós podemos ter outras. Você é a única que pode morrer e voltar."

Naquele momento, eu entendi. Meu dom não era uma bênção. Era minha maldição. E meu filho, meu bebê que nunca nasceu, foi sacrificado por causa disso.

A lembrança me encheu com uma onda de náusea. O vazio dentro de mim, que eu pensei que não poderia ficar maior, se aprofundou, tornando-se um abismo.

Só mais uma vez.

A promessa de liberdade era a única coisa que me mantinha de pé.

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