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Capa do romance A esposa que ele tentou apagar

A esposa que ele tentou apagar

Com um hematoma cerebral fatal, Helena buscou Arthur, mas ele a humilhou publicamente para agradar sua amante, Beatriz. Após ser forçada a abortar e jogada de um penhasco pelo marido cruel, ela sobreviveu sem memórias em Lisboa. Dois anos depois, Helena retorna a São Paulo noiva do gentil Caio. Ao reencontrar Arthur em sua festa, ele entra em choque. Agora, o homem que tentou apagá-la encara o fantasma de seu passado sob o peso da culpa e do horror.
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Capítulo 2

Ponto de Vista de Helena:

As luzes da cidade se borraram através da janela do táxi enquanto eu guiava o motorista para o nosso apartamento. Eu estava com frio, por dentro e por fora. A chuva começou, uma batida constante contra o vidro, espelhando a dor surda na minha cabeça. Cada gota parecia um pequeno golpe de martelo contra meu crânio. Eu não me importava. Só queria estar em casa, se aquele lugar ainda pudesse ser chamado de casa.

Arthur não estava lá. O apartamento estava escuro, silencioso e vazio. Um espaço oco que ecoava o vazio em meu peito. Vaguei pelos cômodos, o lugar que antes fora nosso santuário agora parecia uma gaiola dourada. O trauma emocional e físico da noite finalmente me alcançou. Meu corpo latejava de febre, um fogo violento sob minha pele. Desabei no chão frio da cozinha, o mundo girando em uma escuridão nebulosa.

Os sonhos vieram, fragmentados e cruéis. Eu tinha dez anos de novo, perdida e sozinha no sistema de lares adotivos. Então Arthur apareceu, um farol de luz. Ele era jovem, seus olhos cheios de promessas. "Eu nunca vou te deixar, Helena", ele sussurrou, segurando minha mão com força. "Vamos construir nossa própria família. Um lar onde você sempre estará segura." Suas palavras, antes um conforto, agora pareciam veneno. O sonho mudou. Eu estava no pedestal novamente, nua, exposta, e ele estava rindo, com o braço em volta de Beatriz. A memória de sua traição era um peso físico, pressionando meu peito, roubando meu fôlego.

Acordei com um suspiro, encharcada de suor, minha garganta arranhada. A febre ainda queimava, mas as memórias de sua promessa, justapostas com a realidade brutal, eram muito mais dolorosas. O quarto ainda estava vazio. Ele não tinha voltado para casa. Não que eu esperasse que voltasse.

A campainha tocou, um som estridente no apartamento silencioso. Meu estômago se contraiu. Quem poderia ser? Arrastei-me até a porta, minhas pernas bambas. Pelo olho mágico, eu a vi. Beatriz. Vestida com um casaco vermelho vibrante, um sorriso largo e predatório no rosto. Meu sangue gelou.

Eu não abri a porta. Mas ela entrou por conta própria, com uma chave presumivelmente dada a ela por Arthur. Seus olhos percorreram o apartamento, um olhar de satisfação possessiva em seu rosto. "Olá, querida", disse ela, sua voz pingando falsa doçura. "Espero que não se importe. Arthur me deu uma chave. Disse que eu poderia precisar dela para buscar alguma... inspiração."

Ela passou por mim, como se eu fosse invisível, e foi direto para a sala de estar. Ela pegou o celular, tocando na tela. "Ah, e falando em inspiração", disse ela, virando a tela para mim.

Era meu corpo nu. Meu momento de humilhação suprema. Publicado. Nas redes sociais.

Um grito sufocado escapou dos meus lábios. Meu estômago revirou. A vergonha da galeria voltou com tudo, uma onda nauseante. Como ele pôde? Como eles puderam?

Beatriz riu, um som malicioso. "Você causou um belo alvoroço, minha querida. 'Realidade Pós-Parto' está nos trending topics. E você, Helena, é a musa relutante. Arthur está tão orgulhoso."

Senti uma onda de raiva pura e inalterada. Minhas mãos tremeram, minha visão embaçou. "Ele... ele deixou você fazer isso?", minha voz estava rouca, desconhecida.

"Oh, muito mais do que isso", disse Beatriz, seu sorriso se alargando. Ela rolou a tela do celular novamente. "Ele forneceu o material original."

Ela levantou o celular. Fotos íntimas. Fotos minhas, em nosso quarto, em momentos privados. Aquelas que eu pensei que eram apenas para Arthur. Aquelas que eu pensei que estavam seguras com ele. Minha respiração ficou presa na garganta. Isso era um novo nível de baixeza. Uma ferida nova. Ele havia exposto meu eu mais vulnerável para o mundo.

"Não!", gritei, avançando para o celular. "Me dê isso!"

Beatriz, surpreendentemente ágil, me desviou. Ela tropeçou, uma queda teatral, deixando o celular cair no chão. Naquele exato momento, a porta da frente se abriu. Arthur estava lá, seu rosto uma máscara de preocupação. Ele correu para o lado de Beatriz, ajudando-a a se levantar.

"Beatriz, meu amor! Você está bem?", ele perguntou, sua voz cheia de ternura. Então ele se virou para mim, seus olhos ardendo de fúria. "Helena! O que você fez?!"

"O que eu fiz?", minha voz falhou. "E o que você fez? Essas fotos, Arthur! Como você pôde?!"

Ele olhou para o celular no chão, depois de volta para mim. Sua expressão endureceu. "É arte, Helena. Alta arte. Você não entenderia. E Beatriz estava apenas me mostrando o quanto está repercutindo. Você a atacou."

Meu estômago se contraiu novamente. "Arte?", cuspi a palavra como veneno. "Você deu a ela minhas fotos privadas? Para me humilhar? Para me expor para a internet inteira?"

"Não seja tão dramática", disse ele, revirando os olhos. "É tudo parte da performance. Um pouco de publicidade nunca fez mal a ninguém."

Minha mão voou, impulsionada por uma raiva ardente e cega. O tapa ecoou pelo apartamento silencioso. A cabeça dele virou para o lado, uma marca vermelha florescendo em sua bochecha.

"Como você ousa?!", gritei, as lágrimas finalmente vindo, quentes e furiosas. "Você é um monstro, Arthur Wyatt! Um monstro desprezível e sem coração! Você não merece a arte dela! Você não merece nada!"

Seus olhos, antes cheios de um amor que agora eu sabia ser falso, tornaram-se frios. Mortalmente frios. Ele agarrou meu braço, seus dedos cravando em minha carne. "Você ousa insultar Beatriz?", ele rosnou. "Você ousa levantar a mão para mim?"

Ele me empurrou, com força. Cambaleei para trás, batendo na parede. A dor atravessou minhas costas. Antes que eu pudesse me recuperar, ele agarrou meu braço novamente, me arrastando em direção a um pequeno e escuro armário no corredor. Meu trauma de infância, meu medo de espaços fechados, passou pela minha mente. Não. Lá não. Em qualquer lugar, menos lá.

"Arthur, não! Por favor! O armário não! Você sabe que eu não consigo... eu não consigo respirar lá dentro!", minha voz era um apelo desesperado.

Ele me ignorou, seu rosto desprovido de emoção. "Você precisa aprender a ter algum respeito, Helena. Isso vai te ensinar a controlar seus surtos de 'ralé'." Ele me empurrou para dentro, a escuridão me engolindo instantaneamente.

A porta bateu, me mergulhando na escuridão absoluta. O ar ficou denso, sufocante. O pânico me dominou. Meu coração martelava contra minhas costelas, um pássaro preso desesperado para escapar. Arranhei a porta, gritando, implorando. "Arthur! Por favor! Me deixe sair! Não consigo respirar! Estou com medo!"

Nenhuma resposta. Apenas o silêncio ecoante do meu próprio terror. Bati com os punhos na porta de madeira até meus nós dos dedos sangrarem. A escuridão pressionava, um peso físico. Meu medo de infância, há muito adormecido, rugiu de volta à vida. Eu tinha dez anos de novo, presa, sozinha. Arthur. Ele sabia. Ele sabia da minha claustrofobia. Ele estava fazendo isso de propósito. O homem que prometeu me manter segura era agora meu algoz.

Uma imagem nebulosa piscou em minha mente. O jovem Arthur, segurando minha mão, acalmando meus medos infantis. "Eu sempre estarei aqui, Helena. Nunca deixarei nada te machucar." A memória se transformou em uma zombaria cruel.

Pouco antes de a consciência se esvair, uma onda de náusea me atingiu. Então, nada.

Acordei com o cheiro de antisséptico. Um hospital. Minha cabeça latejava. Arthur estava ao lado da minha cama, seu rosto pálido. Mas seus olhos não estavam em mim. Estavam em Beatriz, que estava sentada graciosamente em uma cadeira perto da janela.

"Você está bem, Beatriz?", ele perguntou, sua voz suave.

Beatriz sorriu fracamente. "Apenas um pouco abalada, querido. A histeria dela foi bastante... intensa."

Ele finalmente olhou para mim, seus olhos desprovidos de calor. "Helena, você realmente precisa se controlar. Atacar Beatriz daquele jeito? O que você estava pensando?"

"Atacá-la?", sussurrei, minha garganta seca. "Ela exibiu minhas fotos nua. Você me trancou naquele armário."

Ele zombou. "Você estava sendo irracional. E as fotos são arte. Supere isso."

Eu olhei para ele, realmente olhei para ele. O homem que eu amava se foi. Substituído por este estranho cruel. Uma calma profunda se instalou sobre mim. Meu amor por ele, antes um fogo crepitante, era agora uma cinza fria e morta. Eu nunca mais o amaria.

Ele pegou o celular, seu rosto se iluminando. "Boas notícias, no entanto! A 'Realidade Pós-Parto' de Beatriz foi um sucesso massivo. A galeria está estendendo a exposição. E olhe isso." Ele me mostrou a tela. Meu corpo nu, em um outdoor gigante. Público. Para sempre.

Fechei os olhos. Não conseguia suportar olhar. Virei a cabeça, recusando-me a reconhecê-lo, recusando-me a reconhecer a vergonha que ele havia infligido.

"Helena, olhe para mim!", ele exigiu.

Mantive meus olhos fechados. Ele soltou um suspiro exasperado. "Tudo bem. Seja teimosa. Mas não pense que isso muda alguma coisa." Ele saiu furioso, presumivelmente para Beatriz.

Abri os olhos, lágrimas silenciosamente traçando caminhos pelas minhas têmporas. Eu estava sozinha. Totalmente, completamente sozinha.

Meu corpo estava fraco, mas minha resolução era firme. Eu precisava sair. Meus pés tocaram o chão frio do hospital. Eu precisava ir a algum lugar onde me sentisse segura. Um lugar que eu já chamei de lar. O orfanato. Eles entenderiam. Eles me ajudariam.

As velhas portas de madeira do orfanato estavam diante de mim, familiares e reconfortantes. Lembrei-me de correr por esses corredores, encontrando consolo nos braços gentis de Dona Lúcia, a diretora. Ela era como uma mãe para mim. Bati, meu coração cheio de uma esperança frágil.

Dona Lúcia abriu a porta, seu sorriso caloroso até seus olhos encontrarem os meus. Seu sorriso vacilou. Então, seu olhar caiu para minha barriga, depois de volta para o meu rosto. Seus olhos endureceram. "Helena Figueroa", disse ela, sua voz severa. "Não acredito que é você. Eu vi as notícias."

"Dona Lúcia, eu posso explicar", implorei, minha voz falhando. "Não foi o que pareceu. Eu fui-"

Ela me interrompeu, seu rosto uma máscara de decepção. "Explicar? Não há nada a explicar. Suas imagens lascivas estão espalhadas por toda a internet. Você trouxe vergonha para si mesma e vergonha para esta instituição. Nossos doadores estão horrorizados. Como você pôde, Helena? Depois de tudo que te ensinamos sobre dignidade e auto-respeito."

"Mas eu não-"

"Não", disse ela, sua voz fria. "Não posso ter alguém como você contaminando as crianças aqui. Você é uma desgraça. Uma vergonha." Ela bateu a porta na minha cara.

Meu "lar". Meu último refúgio. Perdido. Assim como o amor de Arthur. Assim como minha dignidade. Tudo se foi. E tudo por causa dele. O homem que me prometeu uma família me despojou de tudo, até mesmo da memória de um lar. Meu coração endureceu ainda mais. Não havia mais nada a perder.

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