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Capa do romance A esposa que ele tentou apagar

A esposa que ele tentou apagar

Com um hematoma cerebral fatal, Helena buscou Arthur, mas ele a humilhou publicamente para agradar sua amante, Beatriz. Após ser forçada a abortar e jogada de um penhasco pelo marido cruel, ela sobreviveu sem memórias em Lisboa. Dois anos depois, Helena retorna a São Paulo noiva do gentil Caio. Ao reencontrar Arthur em sua festa, ele entra em choque. Agora, o homem que tentou apagá-la encara o fantasma de seu passado sob o peso da culpa e do horror.
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Capítulo 3

Ponto de Vista de Helena:

O frio da noite de São Paulo penetrou em meus ossos enquanto eu voltava para o apartamento vazio. A porta da frente, antes um símbolo de refúgio, agora parecia a entrada de uma tumba. Peguei a passagem para Lisboa, sua superfície lisa uma promessa tangível de fuga. Minha mala estava aberta na cama, meio feita. Eu precisava ir embora. Agora. Antes que eu me despedaçasse completamente.

Enquanto começava a dobrar um suéter, uma onda súbita de náusea me atingiu. Meu estômago revirou, uma sensação familiar nas últimas semanas que eu havia descartado como estresse. Cambaleei até o banheiro, vomitando no vaso sanitário. Quando o espasmo passou, peguei um frasco de enxaguante bucal e minha mão roçou em algo pequeno e branco escondido atrás do espelho. Um papel.

A curiosidade, uma coisa frágil em meu estado quebrado, me fez pegá-lo. Era um ultrassom. Meu nome, Helena Figueroa, estava impresso no topo. E então, uma data. Semanas atrás. Antes da galeria. Antes do armário. Antes de tudo. Meu coração martelava contra minhas costelas. Eu estava grávida.

E então eu vi. A caligrafia familiar de Arthur na parte inferior. "Futuro herdeiro. Guardar." Ele sabia. Ele sabia o tempo todo. Ele escondeu de mim. O homem que me mostrou tanta crueldade, o homem que me abandonou, era o pai do meu filho. Meu bebê. Minha última conexão com uma família, com um futuro.

Uma pequena faísca se acendeu nos recessos escuros da minha alma. Esta criança. Minha criança. Era a única coisa tangível que restava dos destroços da minha vida. A única pessoa que seria verdadeiramente meu sangue. Eu protegeria esta vida. Eu iria embora. E faria uma nova vida para nós, longe dele.

Eu estava arrumando a mala com mais cuidado agora, meus movimentos imbuídos de um novo propósito. A náusea voltou, mas desta vez, eu a acolhi. Era um sinal de vida, uma promessa.

A porta da frente se abriu. Arthur. Minha respiração ficou presa na garganta. Seu rosto era indecifrável, uma estranha mistura de arrependimento e determinação.

"Helena", disse ele, sua voz mais suave do que eu a ouvia há dias.

"Você sabia", afirmei, minha voz plana, desprovida de emoção. Mostrei o ultrassom. "Você sabia que eu estava grávida."

Seus olhos se arregalaram ligeiramente, então ele suspirou. "Sim. Eu sabia."

"E você escondeu de mim?", perguntei, uma risada amarga escapando dos meus lábios. "Enquanto você exibia sua amante, enquanto me humilhava, enquanto me trancava em um armário — você sabia que eu estava carregando seu filho?"

Ele se aproximou, sua expressão mudando para uma de preocupação cuidadosamente construída. "Helena, eu estava tentando te proteger. Há tanto estresse agora. A exposição de Beatriz. A imagem da minha empresa. Um bebê... complicaria as coisas."

"Complicaria as coisas?", rosnei, os últimos resquícios da minha compostura se desfazendo. "Isso não são 'coisas', Arthur! Este é nosso filho! Seu filho!"

Ele deu outro passo, sua mão se estendendo. Eu recuei. "Helena, me escute. Precisamos ser racionais sobre isso." Ele fez uma pausa, então soltou a bomba. "Precisamos... tirá-lo."

Meu mundo parou. O ar saiu dos meus pulmões. "O quê?", sussurrei, com medo de não ter ouvido direito.

"O bebê", ele elaborou, sua voz assustadoramente calma. "Precisamos interromper a gravidez."

Meu sangue gelou. "Você está louco?!", gritei, agarrando minha barriga. "Este é nosso bebê! Eu não vou fazer isso!"

Ele tentou pegar minha mão, seu aperto firme. "Helena, é para o melhor. Sério. Beatriz... ela tem um novo conceito. Uma instalação sobre 'nova vida'. Ela quer usar... o feto. Ela diz que você é sua 'musa da realidade primal', e esta seria a expressão artística suprema. Isso vai elevar a carreira dela e nosso status."

As palavras me atingiram como um golpe físico. Ele queria usar nosso filho. Nosso filho ainda não nascido. Como arte. Para sua amante. Minha visão turvou. Ele não era apenas um monstro. Ele era um demônio.

"Você é nojento!", gritei, lágrimas de puro horror escorrendo pelo meu rosto. "Você quer matar nosso bebê para a 'arte' dela? Você quer colocar o corpo do nosso filho em exibição?!"

Seu rosto endureceu. "Não seja tão dramática. Podemos ter outro mais tarde. Quando as coisas estiverem menos caóticas. Agora, pare de ser difícil. Meus homens estão esperando." Ele sinalizou para a porta. Dois homens corpulentos de terno preto entraram no apartamento.

"Não! Fiquem longe de mim!", recuei, o terror me dominando. "Arthur, por favor! Não faça isso! Não machuque nosso bebê!", implorei, minha voz rouca, desesperada. Minhas mãos instintivamente cobriram minha barriga, um escudo fútil.

Ele assistiu, com o rosto de pedra, enquanto os homens agarravam meus braços, me arrastando em direção à porta. Lutei, chutei, gritei. "Por favor! Meu bebê! Nosso bebê! Arthur, lembre-se da sua promessa! Lembre-se de quando falamos sobre nomes! Por favor, não deixe que eles façam isso!"

Seu rosto permaneceu impassível. "É para o melhor, Helena. Para todos. Você vai me agradecer mais tarde."

Fui arrastada para fora do apartamento, pelo corredor silencioso, e para um carro que esperava. O hospital novamente. O cheiro estéril, a eficiência fria e clínica. Eu estava em uma maca, amarrada. Luz branca. Instrumentos. Mãos frias. Lutei, mas minha força se foi. As drogas da galeria ainda permaneciam em meu sistema, me deixando fraca.

O rosto de um médico, impassível. Uma enfermeira, evitando meus olhos. Minha visão embaçou. Lembrei-me da mão de Arthur na minha barriga, meses atrás, sussurrando sobre um berçário, sobre sapatinhos. Ele me prometeu uma família. Ele me prometeu tudo.

Então, uma dor aguda e penetrante. Um rasgo. Um vazio oco. Tinha acabado. Meu bebê. Minha única esperança. Arrancado. O mundo desapareceu no escuro.

Acordei na minha cama. O apartamento estava silencioso. Minha barriga estava lisa. Vazia. A percepção esmagadora me atingiu como um golpe físico. A criança se foi. Meu corpo parecia um fantasma, um recipiente oco. Meus olhos estavam secos. Não havia mais lágrimas. Apenas um vazio frio e ardente onde meu coração costumava estar.

Eu tinha que ir embora. Agora. Não havia mais nada aqui. Sem amor, sem lar, sem família. Levantei-me, meus movimentos lentos, deliberados. Peguei meu passaporte, minha carteira. E a passagem para Lisboa.

Saí do apartamento pela última vez, sem me preocupar em trancar a porta. Deixe que ele fique com tudo. Não significava mais nada para mim. Chamei um táxi, a chuva ainda caindo, uma cortina implacável.

Enquanto o táxi acelerava em direção ao aeroporto, liguei as notícias, uma curiosidade mórbida guiando minha mão. A manchete brilhava na tela: "Controversa Instalação 'Nova Vida' de Beatriz Aguirre Gera Debate." Meu estômago se contraiu. Eu sabia. Eu sabia o que veria.

Lá estava. Uma caixa de vidro. Uma forma minúscula e sem vida suspensa dentro dela. Meu filho. Meu bebê. Em exibição. Para a "arte". Uma onda de agonia pura e inalterada me varreu. Eu queria gritar, enfurecer-me, quebrar a tela. Mas não consegui. Só consegui fechar os olhos, desejando, rezando, para que tudo isso fosse um pesadelo. Um pesadelo horrível e distorcido.

O táxi freou bruscamente. Um SUV preto bloqueava nosso caminho. Homens de terno preto. Meu sangue gelou. Isso não podia estar acontecendo. Não de novo. Uma mão tapou minha boca. Um pano, doce e tonto, pressionado contra meu nariz.

Escuridão.

Acordei em um quarto bem iluminado, meus pulsos e tornozelos amarrados a uma cadeira. O ar estava denso com o cheiro de desinfetante barato. Um único holofote brilhava sobre mim, me fazendo apertar os olhos. E lá estava ele. Arthur. Parado nas sombras, seu rosto sombrio.

"Helena", disse ele, sua voz desprovida de emoção. "Você causou uma bela bagunça."

"Uma bagunça?", minha voz estava fraca, mas meu desafio era forte. "Você assassinou nosso filho, Arthur! Você exibiu o corpo dele! E você me chama de bagunça?"

Ele entrou na luz, seu rosto pálido. "A mídia está em frenesi. A 'Nova Vida' de Beatriz está sendo chamada de bárbara. Até a família dela está se distanciando. Precisamos de controle de danos. Você vai aparecer na televisão ao vivo. Você vai dizer a eles que foi um natimorto. Um acidente trágico. Você vai elogiar a coragem de Beatriz por imortalizar sua 'perda' através da arte."

Meu queixo caiu. "Você quer que eu minta? Você quer que eu diga que nosso bebê nasceu morto? Para acobertar você e sua amante psicótica?"

"É pela carreira de Beatriz", disse ele, como se isso explicasse tudo. "E nossa reputação. Apenas faça o que lhe foi dito."

"Nunca", cuspi, minha voz tremendo de fúria. "Você é um assassino, Arthur Wyatt! Vocês dois! Vocês mataram meu filho!"

Seus olhos endureceram. "Não seja tola, Helena. Estou tentando proteger o que resta. Se você não cooperar... aquele orfanato que você tanto ama? Aquele com o qual você sempre finge se importar? Seria uma pena se de repente perdesse todo o seu financiamento. Ou talvez, sofresse um 'acidente trágico' por conta própria."

Minha respiração ficou presa na garganta. Ele não faria isso. Ele não podia. Mas seus olhos, frios e calculistas, me disseram que ele faria. Ele destruiria tudo o que eu prezava. Por Beatriz. Por sua imagem.

"Não", sussurrei. Minha voz estava quebrada. "Por favor... não machuque as crianças."

"Então você vai cooperar?", ele perguntou, um brilho triunfante em seus olhos.

Fechei os olhos, uma única lágrima escapando. "Sim", engasguei. "Eu farei isso. Apenas deixe o orfanato em paz."

As luzes da câmera eram ofuscantes. O microfone parecia uma serpente enrolada em minha garganta. Sentei-me, meu rosto uma máscara de luto e compostura forçada, recitando as mentiras que Arthur me alimentou. Um natimorto trágico. Uma artista corajosa honrando minha dor. Minha escolha. Meu sacrifício.

Os comentários rolavam em um monitor, um fluxo implacável de ódio. "Que psicopata!" "Usando seu bebê morto para a fama!" "Nojenta! Ela merece apodrecer!" Cada palavra era uma nova ferida, mas eu não sentia nada. Eu estava entorpecida.

Uma onda de náusea, mais forte desta vez, me fez balançar. Senti-me fraca. "Preciso ir embora", sussurrei, minha voz mal audível.

Um dos homens de Arthur, parado rigidamente atrás de mim, colocou a mão no meu ombro. "Apenas mais alguns minutos, Sra. Wyatt."

Minha cabeça girou. Eu tinha perdido meu voo. Minha fuga. Forcei uma risada amarga e sem humor. Claro que sim. Ele sempre encontrava uma maneira de me manter amarrada ao seu inferno.

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