
A Cunhada, Meu Inferno
Capítulo 2
O telefone tocou apenas uma vez antes que ele atendesse.
— Alícia.
Sua voz era profunda, calma e exatamente como ela se lembrava. Havia uma nota de surpresa, mas nenhuma confusão.
Ela engoliu em seco, tentando impedir que sua própria voz tremesse. — Bruno. Preciso da sua ajuda.
Houve uma pausa do outro lado. Quando ele falou novamente, sua voz havia perdido o calor. Estava fria, cortante.
— Você está me ligando? Depois de me dizer para nunca mais entrar em contato? Depois de escolher ele?
A acusação era justa. Ela merecia.
— Sim — disse ela simplesmente. Não havia mais nada a dizer. Ela não conseguia explicar os anos de esperança e as semanas de inferno que levaram a essa ligação.
O silêncio que se seguiu se estendeu por uma eternidade. Ela podia ouvir o som fraco do trânsito do lado dele, a um mundo de distância. Pensou que ele poderia desligar.
— Onde você está? — ele perguntou finalmente.
A pergunta não era uma oferta de ajuda. Era uma exigência.
— No Hospital das Clínicas.
— Chego aí em vinte minutos — disse ele, sem um pingo de dúvida em seu tom.
O alívio a inundou, tão potente que quase a deixou tonta. Mas então, um lampejo de seu antigo eu quebrado emergiu. Ela não merecia isso. Não dele.
— Não, espere — disse ela rapidamente. — Eu... eu tenho algumas coisas para fazer primeiro. Podemos nos encontrar amanhã?
— Alícia — disse ele, e sua voz era baixa, perigosa e absolutamente intransigente. — Estou a caminho. Não ouse se mover.
A linha ficou muda.
Em seu escritório de cobertura com vista para o Parque Ibirapuera, Bruno Sampaio encarou o telefone. Ele havia interrompido uma negociação de milhões de reais no meio da frase para atender a ligação dela. Ele jogou o telefone em sua mesa de mogno. Um sorriso lento e satisfeito tocou seus lábios.
Finalmente.
Alícia forçou seu corpo dolorido a se mover. Ela deu alta a si mesma do hospital contra o conselho médico, os papéis da alta um testemunho de sua rebelião silenciosa. A dor em seu abdômen era uma pontada surda e constante, um eco físico do buraco em seu coração.
Ela pegou um táxi para um pequeno cartório no centro da cidade. Ela precisava saber.
— Gostaria de informações sobre como dar entrada no divórcio — disse ela ao funcionário, sua voz não traindo nenhum do tumulto interior.
O funcionário, um homem de aparência entediada com olhos cansados, digitou o nome dela no sistema. Ele franziu a testa. Digitou novamente.
— Alícia Dantas?
— Sim. E Caio Sampaio.
O homem balançou a cabeça. — Senhora, não há nenhum casamento registrado para você.
Alícia o encarou. — Isso não é possível. Nós nos casamos na Igreja Nossa Senhora do Brasil há seis meses.
— Tenho certeza que sim, querida — disse o funcionário, seu tom tingido de uma pena que fez a pele de Alícia arrepiar. — Mas a certidão nunca foi registrada. De acordo com o estado, vocês não são casados.
Os olhos do homem se suavizaram. — Mas posso te dizer quem é. — Ele virou o monitor ligeiramente. — Caio Sampaio é legalmente casado. A certidão foi registrada há cinco meses e meio.
Ele apontou para um nome na tela.
— Com uma Camila Viana.
O mundo girou. As luzes fluorescentes do cartório pareceram escurecer. O ar engrossou, pressionando-a até que ela não conseguia mais respirar. Não era um casamento de fachada. Era um casamento inexistente. Toda a sua vida nos últimos seis meses, a humilhação, a dor, o filho perdido — tudo foi construído sobre uma mentira tão fundamental que ela nunca sequer pensou em questionar.
Ela cambaleou para fora do prédio, sua mente um vácuo gritante. Os sons da cidade — o trânsito, as sirenes, a conversa das pessoas — desapareceram em um rugido surdo. O céu cinzento chorava uma chuva fria e fina que combinava com a desolação em sua alma.
Seu telefone vibrou no bolso. Uma mensagem de Caio.
*Oi. A Camila está descansando. Sinto muito pela nossa briga. Estou indo para casa agora. Vamos conversar. Eu te amo.*
As palavras eram uma piada cruel. Ele estava voltando para "casa". Para a casa falsa deles, vindo do lado de sua esposa de verdade.
Outra mensagem vibrou.
*Lembra daquela cantina italiana do nosso primeiro encontro no Bixiga? Vou pegar um pouco. Podemos ter uma noite tranquila em casa.*
A memória daquela noite — da mão dele sobre a dela, seus olhos cheios de promessas — foi uma nova facada de dor. Ela sentiu uma sensação de rasgo no peito, tão aguda e real que ela ofegou, pressionando a mão no coração.
Ela tinha que vê-lo uma última vez. Tinha que voltar.
Ela chegou em casa e a encontrou calorosamente iluminada contra o crepúsculo sombrio. Lá dentro, Caio tentara criar uma cena de felicidade doméstica. Velas estavam acesas. Sua Bossa Nova favorita tocava suavemente. Na mesa de jantar, havia uma sacola de comida para viagem da cantina italiana.
— Alícia, você está aqui — disse ele, a voz suave de alívio. Ele se adiantou para abraçá-la, mas ela recuou.
Ele ergueu uma pequena boneca, uma pequena figura de porcelana de uma bailarina. — Comprei algo para você. Para dizer que sinto muito. Sei que você queria esta para sua coleção.
Ela olhou para a boneca, depois para o espaço vazio na lareira onde sua companheira costumava ficar. O espaço estava vazio porque Camila havia "acidentalmente" derrubado a outra uma semana atrás.
— E a outra? — ela perguntou, a voz oca.
— Ah — disse Caio, seu sorriso vacilando. — A Camila se sentiu tão mal com isso. Ela está tão desajeitada com a gravidez. Você sabe como é.
Ele pousou a boneca e pegou as mãos dela. As dele estavam quentes. As dela eram gelo.
— Alícia, eu sei que tem sido difícil. Mas temos que ser pacientes com ela. Ela passou por tanta coisa. Ela é a esposa do meu irmão.
*Sua esposa de verdade*, sua mente gritou.
— Eu sei — disse ela, sua voz não traindo nada. A dor dentro dela era tão imensa que se tornara uma calma estranha e silenciosa. Ela estava assistindo a um filme de sua própria vida.
— Estou cansada — disse ela, afastando as mãos. — Acho que vou para a cama.
Ela caminhou em direção ao quarto, seus movimentos rígidos. Caio a observou, um lampejo de inquietação em seus olhos. Ele sentia que ela estava escapando dele, mas não conseguia entender por quê.
— Alícia, espere.
Ele a alcançou, mas sua mão roçou na caixa de presente que ela ainda carregava em sua bolsa. Ela caiu no chão, a tampa se abrindo.
A foto da ultrassonografia deslizou para fora, pousando com a face para cima no piso de madeira polida.
Ela se abaixou para pegá-la, mas ele foi mais rápido.
— O que é isso? — ele perguntou, pegando-a. Ele segurou a pequena imagem em preto e branco, uma carranca confusa no rosto. — Isso é... uma ultrassonografia?
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