
A Cunhada, Meu Inferno
Capítulo 3
Alícia levantou-se lentamente, um sorriso amargo tocando seus lábios. Ela pegou a foto da mão dele e a ergueu para que ele visse claramente.
— Você é arquiteto, Caio. Você é bom com plantas e projetos. O que isso parece para você?
Seus olhos se arregalaram quando ele finalmente processou a imagem. Ele viu a pequena forma enrolada. O vislumbre de uma vida. Ele olhou da foto para ela, sua boca abrindo e fechando, mas nenhuma palavra saiu. Ele parecia completamente perdido.
Ela não esperou por sua resposta. Passou por ele para a sala de estar e sentou-se no sofá, de costas para ele. O couro frio parecia aterrador.
Ele a seguiu, seus passos hesitantes. Podia sentir uma parede entre eles, espessa e fria. Isso o aterrorizava.
— Alícia — disse ele, a voz mal um sussurro. Ele se ajoelhou ao lado do sofá, tentando encontrar o olhar dela. — Me desculpe. Sinto muito, muito mesmo. Por favor, não seja assim. Fale comigo.
Ele alcançou a mão dela, seu toque um apelo desesperado.
Nesse exato momento, a porta da frente se abriu.
Camila entrou, envolta em um dos caros casacos de caxemira de Caio. Ela estava sorrindo, as bochechas coradas.
— Caio, querido, esqueci minha bolsa — ela cantarolou. Parou quando os viu, seus olhos captando a cena. Seu sorriso vacilou para um olhar de preocupação. — Oh. Estou interrompendo alguma coisa?
Sua pergunta foi uma performance perfeita de inocência.
Caio parecia encurralado, dividido entre a mulher que amava e a mulher a quem estava ligado pela culpa.
Os olhos de Camila se encheram de lágrimas. — Sinto muito. Sei que sou um fardo. É que... se meu marido ainda estivesse aqui... — Ela deixou a frase no ar, uma obra-prima de chantagem emocional.
O rosto de Caio se contraiu de dor. Ele olhou para Alícia, sua expressão uma mistura de desculpa e desamparo.
— Alícia — ele começou, a voz tensa. — Você pode... esperar aqui por mim? Vou levá-la para casa e volto logo.
Alícia olhou para ele, o rosto uma máscara em branco. — Tudo bem — disse ela. Sua voz estava calma, tão calma que era arrepiante.
A calma dela o perturbou mais do que qualquer gritaria poderia. Ele hesitou, sentindo um profundo pressentimento.
— Volto em uma hora. Prometo — disse ele, como se isso pudesse consertar alguma coisa.
— Tudo bem — ela repetiu. Ela virou a cabeça e puxou um cobertor sobre si, escondendo o rosto dele.
Ele saiu. Ela ouviu seus passos, depois os de Camila, se afastando. A porta da frente se fechou com um clique. A casa ficou em silêncio.
No momento em que o silêncio se instalou, a calma se quebrou. Uma onda de agonia, aguda e feroz, rasgou seu abdômen. A dor de sua queda, do aborto espontâneo, voltou com força total.
Ela ofegou, encolhendo-se em uma bola no sofá. Tentou pedir ajuda, mas sua garganta estava apertada. O único nome que veio a seus lábios foi um sussurro quebrado.
— Caio.
Lá fora, ela ouviu a risada leve e feliz de Camila enquanto entravam no carro. O som foi uma reviravolta final e cruel.
Ela se lembrou de uma vez em que Caio cuidou dela assim. Quando ela teve um simples resfriado, ele ficou acordado a noite toda, abraçando-a, fazendo chá para ela. Aquele homem se fora. Seu amor, seu cuidado, tudo pertencia a outra pessoa agora. Pertencia à sua esposa. Sua esposa de verdade.
A percepção foi o golpe final. A dor, tanto física quanto emocional, era demais. Seu corpo cedeu, e ela mergulhou na inconsciência.
Ela sonhou que estava flutuando em um espaço escuro e frio.
Quando acordou, Caio estava sentado ao lado de sua cama, o rosto gravado de preocupação. Ele a havia carregado até ali.
— Alícia, você acordou — disse ele, o alívio inundando sua voz. — Você me assustou. Deve ter pegado um resfriado. Você está um pouco quente.
Ela quase riu. Um resfriado. Ele achava que ela tinha um resfriado.
— Você terá um grande futuro com ela — disse Alícia, a voz vazia. — Ela é muito boa em cuidar das pessoas.
Ele não percebeu o sarcasmo. Sorriu, aliviado por ela estar falando com ele. — Ela é. É uma boa pessoa. — Ele apertou a mão dela. — Mas é com você que eu quero construir um futuro. Deveríamos começar a tentar ter um bebê em breve. Um menininho ou uma menininha para encher esta casa grande.
Seu corpo ficou rígido. O ar em seus pulmões se transformou em ácido. Um bebê. Ele queria um bebê com ela, depois de ter acabado de matar o deles.
— Estou cansada — disse ela, afastando a mão. — Quero descansar.
Ele pareceu magoado, mas assentiu. — Tudo bem. Vou deixar você dormir. — Ele se inclinou e beijou sua testa. O toque de seus lábios em sua pele parecia uma marca de ferro. Então ele saiu, fechando a porta suavemente atrás de si.
Ela não dormiu. Ficou ali, olhando para o teto, repassando cada mentira, cada traição. Pensou em seu filho perdido, um fantasma que ela carregaria para sempre.
Mais tarde, incapaz de suportar o confinamento do quarto, ela se levantou e saiu para o ar frio da noite no quintal. Precisava respirar.
Ela encontrou Camila perto da piscina, uma silhueta ao luar.
Alícia se virou para voltar para dentro, mas a voz de Camila a deteve.
— Espere.
Camila caminhou em sua direção, seus passos surpreendentemente rápidos para uma mulher grávida. — Alícia. Precisamos conversar.
— Não temos nada para conversar — disse Alícia, a voz fria.
— Ah, mas temos sim — disse Camila, sua voz baixando para um sussurro conspiratório. — Caio te ama. Eu sei disso. Mas ele tem um dever para comigo e para com este bebê. O bebê do irmão dele.
Seus olhos brilharam no escuro. — Não estou pedindo para você ir embora. Estou apenas pedindo para você aceitar o seu lugar. Seja a amante dele. Eu serei a esposa dele. Todos nós podemos conseguir o que queremos.
A mente de Alícia girou. A audácia daquilo. A pura crueldade sociopata. Ela pensou em seu próprio bebê, aquele que nunca nasceria. Pensou neste bebê, aquele que Camila estava usando como escudo e espada.
Uma estranha sensação de paz se instalou sobre ela. Era a paz de uma decisão final.
— Você está certa — disse Alícia, a voz uniforme. — O bebê é a coisa mais importante.
Camila olhou para ela, um lampejo de suspeita em seus olhos. Ela não confiava nesse acordo fácil.
— Fico feliz que você veja as coisas dessa forma — disse Camila lentamente.
Para selar sua vitória, para provar seu poder, Camila deu um passo mais perto. Ela agarrou o braço de Alícia, seu aperto surpreendentemente forte.
— Então você vai entender por que não posso mais ter você chateando o Caio.
E então, em um movimento tão rápido e calculado que foi aterrorizante, Camila deixou seu corpo amolecer, puxando Alícia para fora do equilíbrio. Ela tropeçou para a frente, sua outra mão se agitando, e soltou um grito agudo enquanto caía para trás na piscina.
— Socorro! Caio, me ajude! Ela me empurrou!
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