
A babá do CEO - A filha perdida
Capítulo 2
O calor daquela cidade era sufocante. O ar condicionado do quarto só ventilava. Naquele dia, segundo o recepcionista, não tinha outro quarto disponível.
Depois de passar dias procurando, ela encontrou uma casa para alugar na Zona Oeste do Rio de Janeiro. Os aluguéis eram bem mais baratos que na Zona Sul.
A casa não era muito grande, mas parecia bastante confortável. A residência tinha apenas um quarto, cozinha americana e um banheiro. Do lado de fora, havia uma pequena varanda com telhas resinadas marrons e uma estrada de pedrinhas estreitas que levavam até o pequeno portão de madeira no meio do muro baixo.
Naquela mesma semana, Vivian recebeu os móveis que comprou pela internet. Não tinha muito luxo, mas era o suficiente para reconstruir a sua vida.
…
Ao longo dos meses, Viviane caminhava pelas manhãs e algumas vezes, saía para se socializar com a vizinhança. Em pouco tempo, todos já a conheciam como a professora paulista. Isso a ajudou a conseguir alguns serviços como professora particular.
Para explicar a gestação sem o pai, ela dizia para todos que o marido faleceu num acidente e que por isso, ela se mudou para o Rio de Janeiro, na esperança de recomeçar.
Tudo funcionava como o esperado, durante o exame, Viviane recebeu a notícia de que estava esperando uma menina. A médica lhe informou que dentro de três semanas, sua filha nasceria.
Durante a tarde, ela lia um romance enquanto estava em sua cadeira de balanço. A brisa aliviava o calor de sua pele. Ela sorriu quando encerrou mais um capítulo e entrou para atender o celular. Era a terceira vez que o número estranho ligava.
— Alô!
— Onde você está, amorzinho?
Vivian deixou o celular cair quando reconheceu a voz. Não tinha a mínima ideia de como Pietro conseguiu seu número. Com dificuldade, ela se agachou para pegar o aparelho telefônico com a tela rachada.
— O que você quer? — Tentou mostrar superioridade.
— Só quero conversar…
— Sua amante não está te dando atenção? — indagou a voz irônica.
— Não seja estúpida! — vociferou.
— Quero o divórcio!
— Eu vou te encontrar, amorzinho.
Encerrando a ligação, Vivian controlou a respiração. Estava suando frio e com o coração agitado. Ainda tinha pesadelos com a noite em que Pietro a violentou.
— O monstro não vai nos encontrar, — ela olhou para a barriga, — amanhã, a mamãe vai à delegacia e tudo vai ficar bem, — alisou o ventre redondo.
…
Mesmo depois de abrir um Boletim de Ocorrência, ela ainda não se sentia insegura. Pietro era um advogado esperto e saberia como escapar de qualquer situação.
Se convencendo de que ele nunca descobriria o seu paradeiro, Viviane continuou com sua rotina. Caminhava pela manhã e dava as aulas durante a tarde.
No final de semana, ela decidiu fazer compras. Viviane queria deixar a geladeira cheia para descansar nas primeiras semanas de seu resguardo.
Durante o percurso, ela vislumbrou o veículo preto através do espelho do retrovisor.
Negando com a cabeça, ela abandonou aqueles pensamentos sombrios e deixou o carro no estacionamento do supermercado.
Dentro do estabelecimento, ela fazia suas compras tranquilamente. Aproveitou para pegar mais fraldas descartáveis, lenços umedecidos, alcool e algodão. Logo teria sua nenê nos braços e curtiria a dádiva de ser mãe.
Com o auxílio do empacotador, Vivia foi até o local onde o carro estava. Desativou o alarme e abriu o porta-malas para organizar as bolsas de compras.
— Acho que esqueci meu celular no balcão do caixa.
— Eu pego para a senhora!
O rapaz correu e atravessou a porta automática. Distraída, Viviane não viu a pessoa encapuzada que estendeu a mão.
— Não faz nenhuma gracinha. — Deu um tapa em sua orelha deixando-a tonta. — Passa logo as chaves do carro, vadia!
As chaves e a carteira caíram de sua mão.
— Calma, — pediu, exasperada.
— Passa logo essa merda, — o assaltante exigiu.
Vivian abaixou-se para pegar os seus pertences quando ouviu o grito desesperado do empacotador. Ela tentou correr do assaltante, mas o estampido foi a última coisa que ouviu antes de mergulhar na escuridão e bater a barriga contra o chão do estacionamento.
…
Através das nuvens densas, ela tentou alcançar o berço da filha. Por mais que corresse, ela não alcançava.
A certa distância, ela viu a mãe pegando a bebê e sorrindo enquanto a embrulhava em seu colo. Em certo momento, Otávia entregou a neta para o homem comprido com um rosto sombrio.
— Não deixe ela com Pietro, mamãe! — Embora falasse em alto e bom som, ninguém a ouvia.
Vivian se esforçou para impedir a proximidade do ex-marido com a sua filha. Neste instante, o nevoeiro tomou conta do enorme corredor impedindo que ela avançasse.
— Eu disse que te encontraria, — a voz de Pietro ecoou. — Descanse em paz, amorzinho — ele sorriu e olhou para a mulher que não conseguia se mexer.
No fim daquele túnel, havia um uma luz forte acima do berço onde a criança chorava. Lutando contra o medo que a paralisia lhe causava, Viviane finalmente encontrou forças para sair do lugar. Correu desesperadamente até alcançar o berço vazio, a pequena Sofia não estava lá.
— NÃO! — Gritou.
Suas pálpebras moveram com dificuldade, forçando Viviane a abrir os olhos. O som dos aparelhos e vozes dos médicos entravam em seus ouvidos.
— Ela está se mexendo, doutor! — falou uma voz feminina. — Veja!
— Avise a mãe dela! — respondeu o tom másculo.
A têmpora de Vivian latejava, com os olhos semicerrados, ela observava as silhuetas embaçadas em torno da cama.
— Quero ver minha filha — falou pausadamente e tentou se sentar. — Eu preciso cuidar da minha bebê.
Era como se ela estivesse falando com fantasmas, pois ninguém respondia.
Em algum momento, a calma forçada se apossou de seu corpo após a picada da agulha. Vivian adormeceu e descansou por mais algumas horas enquanto os médicos a examinaram.
…
Na manhã seguinte, Viviane saiu da cama com ajuda da enfermeira que a levou numa cadeira de rodas até o banheiro. Depois da assepsia, ela tentou colocar os pés nos chão, mas teve dificuldades para caminhar. Ela continuou perguntando pela filha, mas a mulher pedia que aguardasse.
Depois do café da manhã, ela olhou para o noticiário que falava sobre o carnaval de 2022 e a pandemia que assolou o mundo.
As mãos trêmulas estavam perto de sua boca, não acreditava que dormiu por mais de dois anos longe da filha.
— Estou tão feliz, — disse Otávia ao cruzar a porta.
— Isso é verdade, mamãe? — Vivian acenou para a TV pendurada na parede.
— Infelizmente, esse doença ceifou milhões de vidas. — Otávia sentou-se na poltrona de couro ao lado da cama. — O seu pai morreu na primeira onda. Foi muito difícil lidar com tudo isso sozinha
Contendo o choro, Vivian olhou para a imagem das pessoas fantasiadas curtindo o carnaval como se nada tivesse acontecido. Embora não fosse próxima de seu pai, ela sentiu a dor da perda.
— Estamos em 2022? — Olhou para a Otávia.
— Sim, querida! Você ficou em coma por dois anos. O neurologista me disse que você é um milagre da ciência. Dr. Javier falou que se você fizer o tratamento corretamente e continuar com a fisioterapia, logo voltará a caminhar.
— Onde está a minha filha?
A senhora acariciou o dorso da mão com manchas senis, ponderando o que falaria.
— Onde está a Sofia?
— Não sei se esse é o nome dela, — sua voz perdeu-se num murmúrio.
— Pare de fazer rodeios, mamãe… — Vivian aumentou a voz, — Onde está a minha filha?
— Seu ex-marido a levou.
— Não, não, não!
Os braços agitaram na cama, Vivian arrancou os acessos dos braços e tentou pisar no chão. Sem forças para se manter em pé, seu corpo caiu no piso vinílico enquanto ela chorava, desesperada.
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