
A babá do CEO - A filha perdida
Capítulo 3
Nada foi tão fácil como Viviane esperava.
Nos primeiros dias, Vivian participava da fisioterapia e se esforçava para ir atrás de sua filha. Assim que recebeu alta do hospital, retornou a São Paulo e esperou uma semana antes de insistir para que sua mãe a levasse para sua antiga casa.
— Pietro não mora aqui! — revelou Otávia — Seu ex-marido vendeu a casa e assinou os papéis do divórcio pouco antes de ser transferido para a sede da empresa em Los Angeles.
As coisas ficaram mais complicadas. Vivian ainda estava abatida e bem mais magra. Seu corpo emaciado mal lembrava o da mulher saudável.
— Ele se casou de novo! — falou suavemente.
— Por favor, não diga mais nada.
— A culpa foi sua! — Otávia cuspiu as palavras. — Você deixou o seu marido para trás. Se tivesse ficado e lutado, poderia estar bem, cuidando da sua família.
— Que família?
Pela primeira vez, Vivian respondeu sua mãe a altura.
— Na última noite que eu passei naquela casa, ele me agrediu e me estuprou. Quase perdi a minha filha! Foi por isso que fugi daquele desgraçado.
Virando-se de costas, Otávia escondeu os olhos marejados. Se recusou a acreditar nas palavras de Vivian.
— Vou tomar um banho!
— A verdade dói, não é mamãe? — berrou.
Encarava as costas da mulher de estatura baixa que renunciou a cuidar da neta depois que perdeu o marido. Com apoio da muleta, Vivian parou na janela aberta que revelava o céu estrelado.
Do quarto andar do prédio, observou os carros que passavam pela avenida. Sentiu uma vontade enorme de acabar com a sua dor. Mas se Sofia precisasse dela? Pietro rejeitou a criança desde a gestação, então por que levou a menina? Fechando os olhos, ela começou a pensar em meios de encontrar a sua filha perdida.
…
Um ano depois, Viviane ia para a fisioterapia e as consultas com o neuro, sem a companhia da mãe.
Certo dia, ela aproveitou para ir até o prédio da Weslch Corporation, mas a recepcionista negou-lhe o acesso. Ela até tentou driblar o segurança, mas foi pega antes de chegar no andar da administração.
Dois anos após acordar do coma, ela tinha perdido as esperanças. Passava os dias reclusa em seu quarto, estava deprimida. Um dia, ela abriu os olhos e fitou o teto. Naquela mesma data, sua filha estava completando quatro anos. Vivian ficou pensando sobre o Pietro faria para o aniversário da filha. De repente, ele a levaria para a Disney ou faria uma festa com direito bolo com chantilly e balões de unicórnio.
Vivian cobriu a cabeça e suspirou. Estava enganando a si mesma. Pietro sempre odiou comemorar aniversários. Raramente, ele comemorava as datas festivas com ela, imagine com a filha indesejada.
— Levanta, Vivian! — Otávia acendeu a luz. — Saía dessa cama, agora!
— Sabe que dia hoje?
— Pare de se martirizar com isso, logo você terá outros filhos.
Viviane descobriu a cabeça ao ouvir aquele absurdo.
— A senhora pensou nisso quando o meu irmão morreu?
Otávia engoliu em seco. Aquele assunto ainda era doloroso. O irmão de Vivian teve uma overdose em uma festa enquanto comemorava o resultado do vestibular.
— Desculpa, mamãe!
Vivian saiu da cama e tentou abraçá-la, mas Otávia recuou.
— Eu fui muito paciente com você, mas isso já passou dos limites, — reclamou Otávia. — Tome um banho e vá atrás de um emprego. Você precisa sair da minha casa.
Viviane passou a mão em seu rosto. Não devia ter tocado naquele assunto. Falar sobre a perda do irmão, era como tocar numa ferida não cicatriza.
...
Duas semanas se passaram, Viviane foi até a antiga escola onde conversou com a diretora, que se sensibilizou com o seu caso, mas disse que não havia vagas.
Ela passou a manhã procurando emprego e entregando currículos nas escolas privadas da cidade. Ao passar pelo prédio da Welsch Corportation, ela estacionou o carro, mas a frente e andou até o local onde o ex-marido trabalhava.
Tombou com o mesmo homem que viu no restaurante há mais de quatro anos. Apesar de sua feição inescrutável, ele era formoso. Viviane tinha a vaga lembrança daquele homem com cabelos castanhos e um queixo marcado.
— I’m sorry! — disse a voz rouca. — Desculpe-me, — Desta vez, ele pediu em português.
— Você não olha para onde anda? — Ela perguntou grosseiramente. — Saía da minha frente, estou com pressa.
Os executivos paravam para ver a mulher exaltada que ainda caminhava com auxílio de uma muleta. Ela mancou pelo piso cerâmico branco até a recepção.
— Quero falar com o senhor Welsh?
— Lamento, ele só atende com hora marcada.
— Meu ex-marido faz parte do conselho. Pietro Müller!
— Só um momento!
A mulher esguia teclou rapidamente e verificou as informações na tela do computador pouco antes de tirar o telefone do gancho.
— Bom dia, o senhor Müller está? — A recepcionista franziu o cenho. — Muito obrigada e desculpe o incômodo.
A funcionária que usava um terninho preto olhou para a mulher ansiosa.
— Doutor Müller foi transferido para fora do país.
— Pode me dar o telefone dele?
— Lamento, mas isso está fora da minha alçada, — falou e se virou para atender outra pessoa.
Sem saber o que fazer, Vivian esfregou as mãos nos olhos. Ela escutou a mulher que se aproximou do balcão e murmurou algo sobre mandar as candidatas para o cargo de babá até o escritório dela.
— O senhor Welsh quer que eu encontre uma babá até o fim da tarde de hoje.
— Oi! — Vivian insistiu.
— Já disse que não posso ajudá-la, — replicou a recepcionista.
— Sou uma das candidatas a vaga de babá…
A gerente do departamento pessoal a olhou com desdém.
— Me acompanhe!
No andar da administração, Vivian aguardava. As garotas jovens e com a constituição delicadas chegavam e sentavam ao seu lado. Havia quatro moças loiras e uma com o cabelo castanho.
— Ela não será contratada! — Uma das candidatas cochichou e ergueu o queixo mostrando a muleta de Vivian. — Uma criança corre muito e apronta, precisa ter saúde e disposição.
Mesmo com toda a carga negativa, a mãe desesperada não se deu por vencida. Estava determinada a se submeter a esse emprego para encontrar sua filha.
— Vivian Bernardi — a gerente a chamou.
Deixando a muleta, ela se esforçou para chegar até a porta sob os olhares condenatórios.
— Não encontrei o seu currículo, — mencionou a mulher do outro lado da mesa.
— Foi meu ex-marido que me indicou para a vaga, — mentiu descaradamente.
— Ele é? — Elevou as sobrancelhas espessas.
— Pietro Müller.
— Ah, Sim! — A mulher robusta franziu o cenho e organizou as folhas na mesa. — Você já trabalhou com crianças?
— Eu sou pedagoga, — Vivian esboçou um sorriso ao lembrar do trabalho. — Amo as crianças, trabalhei por mais dez anos lecionando numa escola.
— Isso é bom! — disse a gerente, animada. — Do you speak english?
— Yes, I do! — confirmou rapidamente.
— Great! — Correspondeu ao sorriso de Vivian.
— Seu currículo é maravilhoso, mas gostaria de saber como daria conta de uma criança correndo pelo parque?
Meio sem graça, Vivian olhou para uma de suas pernas e suspirou profundamente. Sua limitação poderia ser um empecilho para a tão almejada vaga de babá do CEO.
— Compreendo. — Levantou. — Muito obrigada!
Ao sair da sala, Vivian nem mesmo teve coragem de pegar sua muleta. A próxima candidata foi chamada enquanto ela esperava pelo elevador. Estava tão desanimada, que entrou no e parou ao lado do mesmo homem com quem esbarrou no saguão do hotel.
— Onde você está indo? — Gabriel indagou.
Os olhos verdes mediram o homem comprido de cima a abaixo.
— Não te interessa!
A porta do elevador privativo abriu no espaço com cores brancas, decoradas com quadros e espelhos que deixavam o ambiente mais sofisticado. Naquele instante, as bochechas de Vivian ardiam, sua pele enrubesceu ao ver o homem que sentava atrás da enorme mesa.
— Me desculpe, — ela continuou parada, tentando lidar com a vergonha. — Como faz para sair daqui?
— Com isso! — Gabriel exibiu o cartão de acesso que jogou na mesa. — O que faz na minha empresa?
— Eu vim para a entrevista de babá, mas… — depois desse fiasco, ela parou de falar.
Não era só o fato de estar na sala da presidência, estava sem graça por lembrar da forma que tratou Gabriel pouco antes da entrevista.
— Qual seu nome? — A expressão impassível a esquadrinhou.
— Viviane Bernardi, — respondeu em voz baixa.
Gabriel rabiscou numa folha. Naquele momento, ela viu que sua chance estava perdida.
— Poderia abrir por gentileza, senhor Welsh?
Ela deu um passo para o lado quando ele respirou pesadamente e foi até a porta branca.
— Saia da minha sala! — Ele ordenou enquanto acenava para o elevador.
Resignada, ela mancou até entrar na caixa de metal.
No espelho do elevador privativo, ela notou a blusa branca amarrotada e os cabelos sem corte. Os fios opacos e com frizz estavam presos num coque mal feito. Nem mesmo o bom currículo a ajudaria a preencher essa vaga.
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