
A Aposta do Tigre - A ômega oculta do Alfa
Capítulo 2
POV LUCAS
A porta dupla do laboratório mal bateu atrás de mim e meu corpo inteiro tencionou. Eu não conseguia respirar direito.
Manter a fachada de capitão do time enquanto caminhava pelo corredor exigia um esforço físico real; minha visão ameaçava mudar para o dourado a cada passo e meus músculos pediam o peso da transformação, tornando meus passos pesados e instintivos. Minhas mãos, ainda segurando as folhas amassadas do relatório de anatomia, estavam tremendo de leve, e a pele sob as mangas da minha jaqueta ardia.
Por dentro, o tigre arranhava a minha consciência, rugindo, desesperado para dar a volta e estraçalhar aquela porta de madeira. Volta. Reivindica. Minha.
- Fica quieto - rosnei baixinho, apertando os dentes enquanto caminhava a passos rápidos pelo corredor deserto do bloco C.
Eu olhei para a minha palma direita. A sensação da cintura fina daquela garota, a Bia, parecia gravada a fogo na minha pele. Mas não era o toque que estava enlouquecendo a minha fera. Era o cheiro.
Puxei o ar com força e o aroma dela ainda estava impregnado nos meus dedos. Flores silvestres, chuva fresca e algo profundamente doce, visceral. Ômega.
Era mais do que um perfume de Ômega legítima; era uma assinatura genética que agia como uma âncora para o meu tigre, reconhecendo instantaneamente a peça que faltava na minha própria natureza e fazendo meu sangue de Alfa ferver de uma forma que eu nunca havia sentido antes.
Há séculos o meu clã procurava por uma linhagem assim, e eu a encontrei em uma garota magricela de jaleco que achava que eu estava tendo um "ataque de asma". Ela estava usando algum tipo de bloqueador químico no pescoço, mas bastou um segundo de contato elétrico entre os nossos corpos para o disfarce dela desmoronar para o meu olfato.
Eu precisava me acalmar. Se eu agisse como um animal selvagem e a atacasse ali, quebraria o sigilo do clã na universidade e a assustaria para sempre. Eu precisava de uma estratégia.
Quando entrei no vestiário masculino do ginásio, o calor e o barulho me atingiram. O som de bolas quicando, risadas altas e chuveiros ligados costumava ser o meu ambiente de conforto, mas hoje tudo parecia irritante.
- Olha quem voltou do reino dos mortos - gritou Gustavo, o ala-armador do time e meu segundo em comando no bando, jogando uma toalha no banco de madeira. - Conseguiu o papel com o velho ou vamos ter que jogar a semifinal sem o nosso capitão?
- Consegui - joguei o relatório em cima do armário de metal com mais força do que pretendia. O estrondo fez o vestiário silenciar por um segundo.
Murilo, outro metamorfo do nosso clã que estava calçando os tênis, semcerrou os olhos e farejou o ar discretamente. O maxilar dele travou.
- Cara... que porra de cheiro é esse em você? - Murilo deu um passo atrás, as pupilas dele ameaçando dilatar. - É... território? Você cruzou com algum maldito lobo no bloco de biologia?
Instintivamente, meu peito estufou. Um rosnado territorial e abafado vibrou na minha garganta, tão denso que a minha aura de Alfa se expandiu pelo vestiário. Gustavo e Murilo baixaram levemente a cabeça, um reflexo automático de submissão dos metamorfos mais jovens perante o líder do clã.
Eles não conseguiram decifrar o cheiro de Ômega em mim porque eu tinha engolido quase todo o aroma no laboratório, mas eles sentiram a minha possessividade explodindo.
- Não era um lobo - cortei, limpando o suor da testa com as costas da mão, tentando baixar a guarda antes que os humanos do time percebessem a tensão. - Só um esbarrão estúpido no corredor.
Gustavo relaxou a postura e soltou uma risada debochada, sentando-se no banco.
- Esbarrão? Sei. Do jeito que você é, deve ter sido mais uma das suas conquistas. O Lucas não perde tempo. O campus inteiro cai de joelhos para o capitão, até as patricinhas do bloco de artes.
- Menos uma - Murilo provocou, recuperando a audácia e pegando a bola de basquete no chão. - Tem uma fortaleza ali no bloco C que nem o nosso Alfa consegue derrubar. A esquisita da ecologia, aquela Bia. Ela olha para o time como se fôssemos um bando de neandertais. Duvido que você consiga arrancar um sorriso daquela nerd nem se tentasse por um ano inteiro.
Girei o pescoço, ouvindo os ossos estalarem. Meus olhos se fixaram em Murilo.
- Você está me desafiando? - perguntei, a voz saindo mais grave e pausada.
- Estou propondo um jogo, capitão - Murilo sorriu de lado, girando a bola na ponta do dedo. - Uma aposta. Um mês. Se você conseguir colocar aquela garota na sua cama antes do final do campeonato, as chaves do meu Camaro novo são suas. Se falhar e levar um fora histórico, você me passa a liderança do ataque no próximo jogo e paga as bebidas do clã até o fim do ano. E aí? O grande tigre aceita a caçada?
Olhei para a parede de azulejos do vestiário, minha mente trabalhando na velocidade de um raio.
Uma aposta. Uma brincadeira idiota de vestiário humano.
Se eu tentasse cercar a Bia do nada, o campus inteiro suspeitaria. Pior: os clãs rivais que vigiavam a nossa universidade perceberiam que o herdeiro dos Tigres estava interessado em uma humana comum e começariam a farejar em volta dela. Mas se eu usasse a fachada de um atleta arrogante cumprindo uma aposta babaca... eu teria o pretexto perfeito. Ninguém desconfiaria de nada. Eu poderia segui-la, cercá-la e mantê-la debaixo das minhas garras sob o pretexto de ser apenas um atleta arrogante, sem levantar nenhuma suspeita sobrenatural.
O tigre dentro de mim rugiu em aprovação. A armadilha estava montada.
Caminhei até Murilo, estendendo a mão com um sorriso cínico e superior bem ensaiado.
- É melhor você começar a andar de ônibus, Murilo - fechei o aperto de mão, selando o acordo de sangue. - Considere o carro meu.
Os caras do vestiário gritaram e comemoraram, achando que era apenas mais um jogo de ego de faculdade. Eles não tinham a menor ideia. Eu não queria o carro, e isso não era uma brincadeira. O jogo tinha começado, mas a presa já pertencia ao predador. Eu ia caçar a minha Ômega, e ninguém ficaria no meu caminho.
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