Capa do romance Laços de Ferro

Laços de Ferro

9.2 / 10.0
Sob um regime impiedoso, María de las Almas sonha em ser médica para salvar pessoas. Do outro lado do globo, Zahid busca a mesma profissão por razões egoístas. Ambos vivem em prisões distintas, ansiando pela liberdade que lhes é negada. Unidos por um casamento forçado, essas almas exaustas resolvem se rebelar contra o destino. Juntos, eles enfrentarão perigos para conquistar um futuro impossível, em uma jornada de coragem, amor e esperança.

Laços de Ferro Capítulo 1

7 de dezembro de 2004, Cuba

— À sua perfeita admissão! — Rosa ergueu a caneca de rum branco com um largo sorriso. — Eu já sabia, mas você nunca me ouve…

— Obrigada, amiga! — Brindei com ela.

Aquele foi um ano muito corrido. Trabalhei e estudei igual uma louca, nunca me empenhei tanto em meu estágio e frutificou.

Eu iria à mais conceituada faculdade de medicina de Cuba e, melhor, tinha altíssimas recomendações de professores e até médicos.

Não saberia dizer quando a medicina se tornou uma paixão, mas foi avassaladora o suficiente para nunca sair da minha mente.

— Sempre acreditei em você. — Bastou um gole e o olhar de Rosa já ficou todo caidinho.

Ela sempre foi muito fraca para bebida, nem parecia cubana de verdade. Era bem branquinha de cabelo lisinho e olhos claros.

Rosa podia, facilmente, ser modelo. Era magrinha e baixinha, usava óculos redondos, mas não parecia assim tão nerd quanto pensa.

— No meu primeiro salário, eu prometo que faço uma festa! — falei, empolgada. — Sei que o salário é péssimo, mas eu improviso.

— Agora, já pode sair, não? — Ela olhou na direção dos homens do bar. — Vai se tornar médica, não pode ficar bobeando com a saúde.

— Pois, eu me cuido! — retruquei. — Não sei se sairei, se pararei… — Dei de ombros. — O salário de médica não será assim… tanto…

Ela odiava me ver recorrer à prostituição, mas eu não tinha muita escolha. Éramos uma família pequena: apenas o pai, a mãe e eu.

Mas, o pai gastava toda sua aposentadoria com bebida; a mãe vivia mergulhada em seus sonhos e missões contrarrevolucionárias…

No fim, nada sobrava para mim e foi cedo para eu aprender que devia conseguir o meu próprio sustento para ter os meus luxos.

Funcionou… e a prostituição não só me salvou, mas me ensinou o valor do trabalho duro, me ensinou que nada nunca cai do céu.

O bar ficava há dois bairros de onde eu morava, mais perto de Havana. Apesar disso, não vou negar, ele era meio decrépito.

A tinta azul-escura das paredes estava descascando em algumas partes ou desbotando em outras. A portinhola do balcão já rangia demais e ele estava todo marcado por copos.

Eu até tentei cuidar quando comecei a trabalhar, mas o estrago já era grande demais!

Este é um bom resumo: eu era garçonete e prostituta a partir das sete da noite; na manhã, eu estudava e tinha meu estágio no hospital.

Pouco sobrava tempo e, ocasionalmente, o patrão deixava que eu ficasse curtindo minha noite — principalmente em dias calmos.

Tudo apontava para uma noite bem tranquila até um clarão no lado de fora chamar atenção de alguns bebuns, que exclamaram:

— Eita! — Outro perguntou: — O regime?

Minha amiga e eu estávamos conversando, mas silenciamos e olhamos ao redor. Não sabíamos de nenhum foragido entre os clientes.

Claro, isso sempre mudava e muito rápido!

— Vem! — Hernández, o dono do bar, se levantou do balcão e gesticulou para nós. — Não sei quem está devendo, mas podia ter avisado…

Ambas nos levantamos. Levei minha caneca comigo, é claro, mas Rosa deixou a dela.

Passamos para trás do balcão onde uma porta meio caída de ferro levava à cozinha.

Numa troca de olhares nos perguntamos:

— Quem será e por quê? — Essas eram sempre as dúvidas quanto ao próximo conhecido que sumiria na calada da noite.

— Aqui, eles bebem rum! — dizia uma espalhafatosa voz masculina, que eu já conhecia, após os ouvirmos entrarem no bar.

— Conhece? — Rosa olhou com estranheza, provável que eu tenha revirado os olhos.

— É o tal Saif — falei baixo.

Ela já conhecia a história do mais rico amante da minha mãe. Não era ruim, mas algo nele me fazia simplesmente não gostar de vê-lo.

Era arrogante e muito confiante. Para um senhor de idade e estrangeiro, ele até se comportava como se fosse dono de Cuba.

Saif vivia em carros importados, que até pareciam máquinas do futuro; tinha até telefone celular e andava com muitas joias.

Ele parecia acompanhado de mais alguém e outro estrangeiro, dado o sotaque. Tinha voz calma e falava baixo, diferente do próprio.

Hernández foi quem os atendeu e, enquanto servia o rum, Saif decidiu perguntar:

— Cadê a lindinha?

— Na cozinha. Trabalhando! — Hernández falou, infelizmente ele era muito honesto e só mentia caso fôssemos explícitos ao pedi-lo.

— Vou lá! — Desanimada, eu suspirei. — Nem precisa vir ainda, já que ele é bem safadinho para alguém da idade dele — falei.

Rosa odiava homens assim, assentiu bem rápido com a cabeça e já se ajeitou para sentar.

Saindo, Saif estava com outros dois: um era o estrangeiro lindo, residente do hospital; o outro era o seu segurança ou motorista…

— Alminha! — Saif abriu os braços. — Vou te confessar que eu estava com saudades — sorriu largo e eu tentei forçar um sorriso.

Cumprimentei Hernández, meio sem graça, e fui às canecas para pegá-las, falando:

— Pode deixar que eu sirvo.

— Obrigado, Alma! — Hernández falou. — Ultimamente, tem sido difícil levantar desse banco! — Ele brincou, rindo. — Sabe como é…

Na real, nada eu sabia sobre como era ser um velho com sobrepeso, além de tecnicidades médicas, mas apenas assenti com a cabeça.

— Boa noite, senhores! — cumprimentei os outros dois. — Posso servi-los lá fora? É mais fresco e, tenho certeza, a visão vai apaixoná-los.

— Salaam aleikum! — O residente falou com aquele sorriso lindo que só ele tinha. Era impressionante como ele parecia feliz ao sorrir.

Tão feliz que parecia contagiante…

Seu segurança ou motorista nada disse e foi muito sutil com o cumprimento — deixando claro que ainda estava a trabalho… e bem sério!

— Este é meu quase sobrinho, Zahid. — Saif apresentou, sorrindo largo. — Aquele é seu fiel escudeiro, faz-tudo, Kareem…

— Olá! — Eu lhes acenei e segui.

Se ficasse parada por ali, as conversas constrangedoras iniciariam na frente de todos — e eu não tinha motivos para aceitar isso.

— Bella disse ser um dia especial. — Saif falou enquanto andávamos. — Por isso, decidi vir para comemorar com você… ou ajudar — riu.

— Obrigada! — sorri acanhada.

Apesar de tudo, era realmente especial e, naquele momento, eu decidi simplesmente deixar o dia continuar sendo especial.

Se ele foi ajudar a festejar, ótimo! — afinal, não tinha tanto dinheiro e precisaria ficar roxinha para pagar tudo que eu queria beber!

— Pode sentar conosco? — Saif perguntou. — Tire o avental por um instante e seja apenas a belíssima e talentosa futura médica — sugeriu.

— C-claro! — assenti e me preparei para tirar o avental, mas o segurança se aproximou.

— Aposto que foi figurativo, senhorita. — Ele falou. Tinha voz bem grossa e conseguiu parecer ainda mais sério quando abriu a boca.

— Sim, figurativo! — Saif riu. — Devemos seguir às apresentações? — Olhou ao tal Zahid, que me olhou nos olhos, levemente sério.

Iluminado pela luz amarelada, o olhar logo clareou. Era formidável que, mesmo gringo, ele tivesse os melhores atributos tropicais.

A pele era bem bronzeada; os cabelos curtos tinham alguns poucos cachos, mas eram mais crespos — normalmente, ele cobria com uma espécie de turbante… muito charmoso.

Sempre bem escanhoado, com um olhar no formato perfeito para complementar o sorriso — e eu jamais saberia explicar isso.

Havia certa melancolia no fundo daqueles olhos, certo descontentamento, que ele parecia suprimir ao sorrir e foi sorrindo que ele falou:

— Sou Zahid Al-Thani, quinto herdeiro da família Thani; qatari. Tenho vinte e dois anos e, como já sabe, sou residente de medicina.

— S-sim, eu já te vi no hospital. — Sorri. — Sempre elogiam seu trabalho e principalmente o jeito como trata seus pacientes. É fantástico!

— Obrigado! — Pareceu se acanhar.

Nem foi exagero; ele era realmente muito falado no hospital. Extremamente religioso e tão simpático que os pacientes o amavam!

Todo paciente e de qualquer idade… Era um talento inato para a medicina e isso fazia muitos de nós, estagiários, o admirarmos.

As meninas, claro, ficavam loucas!

Tão reservado, calmo e sério, algo devia se esconder por trás daquele rapaz tão exemplar e, honestamente, eu até tinha medo de saber.

— Sou María de las Almas Rodriguez. Garçonete e estudante de medicina em Havana, oficialmente. — Não pude evitar sorrir largo.

— Se unirá a minha turma, então? — riu.

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