
Votos Quebrados, Um Espírito Inquebrável Surge
Capítulo 2
Ponto de Vista de Elisa Ferraz:
O barulho do vidro na lixeira foi a nota final em uma sinfonia de destruição. Caio, seu rosto ainda uma máscara de falsa preocupação, virou-se para Léo.
"Viu, querido? Sem drama", ele arrulhou, acariciando o braço de Léo. Léo apenas sorriu, um sorriso presunçoso e satisfeito direcionado diretamente a mim.
Caio levou Léo embora, suas vozes desaparecendo enquanto subiam as escadas. A casa, geralmente tão cheia do meu trabalho silencioso, agora parecia cavernosa, esvaziada por sua presença. Fiquei ali, parada no mesmo lugar, o vidro quebrado uma acusação brilhante a meus pés.
Meu olhar caiu sobre o pássaro de vidro primorosamente trabalhado que um dia fora a peça central da escultura. Ele jazia no chão, suas asas delicadas quebradas, sua cabeça destacada. Este era o pássaro que eu havia esculpido para representar nosso amor voando alto, livre e belo. Agora eram apenas fragmentos, um símbolo pungente do que nos tornamos. Eu o peguei, sentindo as bordas afiadas cortarem minha pele.
Fui até a cozinha, o pássaro aninhado na palma da minha mão, e abri a lixeira. A escultura quebrada estava lá, em meio aos restos do café da manhã e borra de café. Minha mão tremeu quando deixei o pássaro cair. Um baque surdo.
Acabou. Tudo.
Naquela noite, Caio não voltou para casa. Seu telefone ia direto para a caixa postal. Fiquei olhando para o teto, o silêncio da casa pressionando-me, mais pesado que qualquer peso. Não era a primeira vez que ele passava a noite fora, longe disso, mas desta vez parecia diferente. O ar estava denso com finalidade.
Meu celular vibrou na mesa de cabeceira. Era Sara, minha amiga mais antiga, seu nome um farol na escuridão.
"Elisa, você viu isso?" ela perguntou, sua voz tensa de raiva contida. Antes que eu pudesse responder, uma foto apareceu na minha tela.
Era Caio, em primeiro plano, no tapete vermelho da inauguração de alguma boate exclusiva. Mas não era só ele. Seu braço estava em volta de Léo, seus rostos a centímetros de distância, seus sorrisos deslumbrantes para as câmeras. A legenda dizia: "Caio Dunn e Léo Hoffman: Estreia Pública de um Casal Poderoso."
Respirei fundo, um suspiro trêmulo. Estreia pública. Então, sua "jogada de marketing" não era apenas uma jogada. Era um anúncio. Uma declaração de guerra à minha própria existência.
Suspirei, um som que tinha gosto de cinzas na minha boca. Eu não podia ficar escondida. A mídia seria como abutres pela manhã. Eu tinha que dar as caras, fazer o papel da esposa solidária. Uma última vez.
Peguei o casaco de veludo preto que comprei para Caio no Natal passado. Era caro, luxuoso, um caimento perfeito. Ele o usou uma vez, em um baile de caridade, antes de desaparecer no fundo de seu enorme closet, substituído por algo mais novo, mais chamativo. Eu o segurava agora, o tecido ainda carregando um leve cheiro de sua colônia, um fantasma de conforto familiar.
Dirigi até a boate, as luzes da cidade um borrão através dos meus olhos cheios de lágrimas. Quando saí do carro, os flashes explodiram, um ataque ofuscante. Microfones enfiados na minha cara, perguntas atiradas como pedras.
"Sra. Dunn, a nova parceria do seu marido... seus pensamentos?"
"Elisa, você está ciente da natureza do relacionamento do Sr. Dunn com o Sr. Hoffman?"
Eu sorri, uma máscara frágil e praticada. "Caio é um visionário. Eu apoio totalmente suas decisões de negócios." As palavras tinham gosto de bile.
Nesse momento, Caio saiu da boate, Léo agarrado ao seu braço, um sorriso largo e presunçoso em seu rosto jovem. Caio me viu e seu sorriso vacilou por um microssegundo, depois endureceu. Ele não veio até mim. Ele apertou seu aperto em Léo, puxando-o para mais perto, protegendo-o da enxurrada de perguntas.
Era um padrão familiar. Anos atrás, em um evento corporativo, uma cena semelhante havia se desenrolado. Caio insistiu que eu fizesse um brinde comemorativo, apesar de saber de minhas graves alergias a certos álcoois. "Só um golinho, querida! Para as câmeras!" ele sussurrou, seu sorriso tenso. Eu obedeci, como sempre.
Minha garganta inchou, minha respiração ficou presa no peito. O pânico me dominou. Caio, vendo meu sofrimento, simplesmente franziu a testa. "Elisa, não faça uma cena. Apenas respire."
Eu desmaiei, ofegante, minha visão se afunilando. A última coisa que me lembro foi o rosto irritado de Caio, depois o branco estéril do teto de um hospital. Eu quase morri. Quando acordei, grogue e fraca, suas primeiras palavras foram: "Você realmente me envergonhou, sabia? Léo teve que lidar com toda a imprensa." Léo. Mesmo naquela época.
Tentei me desculpar, explicar, mas ele apenas descartou, irritado e desdenhoso.
Mas essa não foi a pior. A pior traição, o corte mais profundo, veio silenciosamente. Dois anos antes, quando finalmente, depois de anos tentando, concebemos um filho. Eu estava radiante, imaginando uma vida minúscula, um novo começo. Caio, no entanto, estava distante, seu telefone constantemente vibrando com mensagens tarde da noite.
"Péssimo momento, Elisa", ele disse, sua voz fria, desprovida de emoção. "A empresa está em uma fase crítica. Um bebê agora só... complicaria as coisas." Ele arranjou tudo sem meu consentimento, sem sequer uma discussão adequada. Ele interrompeu a gravidez. Nosso bebê.
Lembro-me da dor lancinante, do vazio que se seguiu, um vácuo que nenhuma quantidade de trabalho ou arte poderia preencher. "Como você pôde?" eu soluçava, agarrando meu ventre vazio, meu mundo desmoronando ao meu redor.
Ele não ofereceu conforto, nem desculpas. "Foi para o melhor, Elisa. Para nós." Seus olhos, no entanto, estavam desprovidos de qualquer preocupação genuína, piscando com uma energia estranha, quase nervosa.
Agora, vendo-o com Léo, as peças se encaixaram com uma clareza horrível. O "péssimo momento", as constantes noites fora, o súbito distanciamento. Tudo fazia sentido. Ele já estava com Léo naquela época. Nosso bebê havia sido um obstáculo para seu novo caso.
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