
Vingança em Melodia
Capítulo 2
A escuridão era fria e úmida, um cheiro de mofo e desespero preenchia o ar da masmorra. Maria sentia o frio do chão de pedra através do tecido fino de seu vestido rasgado, seu corpo doía por toda parte. Ela ergueu a cabeça com dificuldade, seus olhos se ajustando à pouca luz que vinha de uma tocha distante.
Lá, do outro lado das grades, estava Joana, sua irmã mais nova. Ela não usava mais os vestidos simples de antes, agora estava vestida com sedas e joias, brilhando como uma estrela. Ao lado dela, com a mão em sua cintura, estava o homem que um dia a chamou de noiva.
"Por quê?" , a voz de Maria saiu como um sussurro rouco, um som que mal era humano.
Joana sorriu, um sorriso que não alcançava seus olhos.
"Porque eu merecia tudo isso, Maria. Você sempre teve tudo, a voz, a fama, o amor do público. Eu sempre estive na sua sombra, esperando por uma chance. E eu a criei."
A lembrança do escândalo a atingiu como um golpe físico. O dia do lançamento do seu álbum, as acusações, as mensagens subliminares que Joana plantou, associando seu nome a rituais obscuros. A gravadora rompendo o contrato, os fãs a chamando de herege, sua carreira e sua vida destruídas em um piscar de olhos.
Ela confiou em Joana, a deixou supervisionar a mixagem final. Uma confiança fatal.
"Você me destruiu" , disse Maria, sentindo as lágrimas quentes finalmente escorrendo por seu rosto sujo.
"Eu construí meu próprio caminho sobre as suas ruínas" , Joana corrigiu, com uma frieza cortante. "Adeus, irmãzinha. Aproveite seus últimos momentos."
Eles se viraram e foram embora, seus passos ecoando no corredor de pedra, deixando Maria na escuridão total. O guarda se aproximou, a porta da cela se abriu com um rangido. A dor final foi rápida, uma lâmina fria que encerrou seu sofrimento.
Seu último pensamento foi um desejo ardente, uma oração desesperada por uma segunda chance. Uma chance de fazer tudo diferente.
De repente, a dor sumiu. O frio desapareceu.
Em seu lugar, havia o calor de centenas de velas e o som suave de uma música clássica. Maria piscou, a luz forte a cegando por um momento. Ela estava de pé, no meio de um salão de festas grandioso, o salão principal da mansão de seus pais.
Ela olhou para suas mãos. Eram as mãos de uma jovem, sem calos ou cicatrizes. Ela tocou seu próprio rosto, sentindo a pele lisa e macia. Ela correu até um grande espelho na parede. A mulher que a encarava de volta era ela mesma, mas anos mais jovem, radiante, com os olhos cheios de uma inocência que ela pensava ter perdido para sempre. Ela usava um vestido branco deslumbrante, uma peça única que sua mãe havia desenhado para uma ocasião especial.
Seu coração batia descontroladamente. Que ocasião era essa?
A música, as decorações, o vestido... tudo se encaixou. Era a festa de lançamento do seu novo álbum. O dia em que tudo começou a ruir. O dia do início do fim.
Um calafrio percorreu sua espinha. Isso não era um sonho. Era real. De alguma forma, seu desejo desesperado foi atendido. Ela havia voltado.
Ela se virou, seus olhos varrendo a multidão de convidados. Produtores, jornalistas, amigos da família, todos sorrindo e conversando. E então, ela a viu.
Joana.
Ela estava perto da mesa de som, conversando animadamente com o técnico. Em suas mãos, ela segurava uma pequena unidade de áudio, idêntica àquela que a polícia encontrou depois, contendo os arquivos adulterados. Aquele era o momento. O momento da sabotagem.
Na sua vida passada, Maria estava muito ocupada recebendo os convidados para perceber. Ela estava cega pela felicidade e pelo orgulho. Desta vez, seus olhos estavam bem abertos.
Uma raiva fria e calculada substituiu o choque. A dor da traição, a agonia de sua morte, tudo estava fresco em sua mente. Não haveria mais ingenuidade. Não haveria mais confiança cega.
Desta vez, a única ruína seria a de Joana.
Sem hesitar, Maria começou a andar em direção a ela. Seus passos eram firmes, seu olhar fixo. As pessoas abriam caminho para ela, surpresas com sua expressão séria. A música parecia diminuir, o barulho do salão se tornando um zumbido distante.
Joana a viu se aproximando e seu sorriso vacilou por um instante, uma sombra de culpa passando por seus olhos antes de ser substituída por uma falsa alegria.
"Maria! Você está deslumbrante! Estão todos esperando por você" , disse Joana, tentando esconder a unidade de áudio atrás das costas.
Maria parou bem na frente dela, ignorando completamente suas palavras. Ela olhou diretamente nos olhos da irmã.
"O que é isso na sua mão, Joana?"
A pergunta foi feita em um tom baixo, mas carregado de uma autoridade que fez Joana estremecer. O técnico de som ao lado dela recuou um passo, sentindo a tensão no ar.
"Isso? N-não é nada. Apenas... ajudando com os preparativos" , gaguejou Joana.
Maria estendeu a mão.
"Me dê."
Não era um pedido. Era uma ordem.
O rosto de Joana ficou pálido. Os convidados mais próximos começaram a notar a cena, suas conversas morrendo. O silêncio começou a se espalhar pelo salão.
"Maria, não vamos fazer uma cena..." , começou Joana, tentando sorrir, mas o sorriso se desfez.
Maria não se moveu, sua mão continuava estendida. Sua paciência era inexistente. Com um movimento rápido, ela agarrou o pulso de Joana e arrancou a unidade de áudio de sua mão.
Ela a ergueu para que todos pudessem ver.
"Esta é a sua grande 'ajuda' , Joana?" , a voz de Maria soou alta e clara no salão agora silencioso. "Trocar as faixas do meu álbum por áudios com mensagens manipuladas para me destruir?"
O queixo de Joana caiu. O choque em seu rosto era genuíno. Como ela poderia saber?
Maria se virou para a multidão chocada.
"Minha querida irmã, Joana, a quem eu confiei meu trabalho e meu coração, tentou sabotar meu novo álbum. Ela planejava inserir mensagens que me ligariam a cultos e rituais, tudo por inveja. Tudo para roubar a minha carreira."
Ela fez uma pausa, deixando o peso de suas palavras assentar. Então, ela se virou para Joana, cujo rosto estava agora contorcido em pânico.
"Sua festa acabou, Joana."
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