
Vingança de Sofia: Um Amor Proibido
Capítulo 2
O som alto da música da festa de casamento parecia um zumbido distante em meus ouvidos. Minhas pálpebras tremeram, pesadas como chumbo. Tentei abrir os olhos, mas uma dor aguda na nuca me paralisou. O cheiro de flores baratas e champanhe azedo enchia o ar.
Lentamente, a consciência retornou. Onde eu estava?
A última coisa de que me lembrava era a escuridão. O rosto da minha mãe, distorcido pela ambição, flutuava na minha memória. A sensação fria do metal da estátua que ela usou para me golpear. O som do meu próprio crânio batendo contra o chão de mármore polido do salão.
E então... nada.
Mas agora, eu estava viva.
Forcei meus olhos a se abrirem. A luz forte do lustre de cristal quase me cegou. Pisquei várias vezes, tentando focar. Eu estava deitada no chão, atrás de uma grande cortina de veludo vermelho. O barulho da festa estava do outro lado.
Reconheci o lugar. Era o salão de festas onde Juliana, minha prima, estava se casando com o meu noivo.
Não, não meu noivo. Ex-noivo.
Meu corpo inteiro doía. Levei a mão à nuca e senti o sangue seco e pegajoso em meu cabelo. A dor era real. Eu não estava morta.
Mas como? Eu tinha certeza de que minha mãe tinha me matado.
Uma voz fria ecoou em minha mente, uma memória do limbo escuro onde eu flutuei após o golpe. "O veneno era falso, Sofia. Um sonífero forte. Seus pais planejaram sua 'morte' para que você pudesse ser levada ao palácio sem escândalo. Você foi escolhida para ser a nova rainha."
A voz não pertencia a ninguém que eu conhecia, mas soava poderosa, inquestionável.
Rainha? Palácio? Que loucura era essa?
E então, outra memória, mais nítida. "Mas sua recusa em beber o sonífero e sua fuga do depósito arruinaram o plano. Sua mãe, desesperada para manter o acordo com o palácio, improvisou. Ela não sabia que o Rei, nosso mestre, já havia previsto sua teimosia e providenciado uma segunda chance. Você está voltando, Sofia. De volta ao momento em que tudo deu errado. Desta vez, não falhe."
Uma segunda chance.
Eu me sentei, ignorando a tontura. Olhei para minhas mãos. Elas tremiam, mas não de medo. De raiva.
Eu me lembrava de tudo.
Dez anos. Dez anos eu passei na fazenda da família, cuidando da nossa avó doente, enquanto meus pais e minha tia me garantiam que estavam cuidando dos negócios da família na cidade grande para mim. Eu era a herdeira, a única neta. Era meu dever cuidar da matriarca. Eu acreditei neles. Fui leal.
Quando a vovó finalmente descansou, voltei para a cidade, sonhando em reencontrar meus pais e meu noivo, Ricardo, com quem eu estava prometida desde a infância.
Mas a recepção foi um pesadelo.
Minha prima, Juliana, a filha da minha tia, me recebeu na porta da minha própria casa com um sorriso vitorioso. Ela usava minhas roupas, minhas joias. Ela agia como a dona de tudo.
"Prima! Que surpresa," ela disse, com a voz pingando falsidade. "Pensei que você nunca mais sairia daquele fim de mundo."
Meus pais estavam ao lado dela, com expressões constrangidas.
"Mãe? Pai? O que está acontecendo?" perguntei.
Minha mãe, Beatriz, forçou um sorriso. "Sofia, querida. Tanta coisa mudou. Juliana tem nos ajudado tanto... Ela é como uma filha para nós."
Naquela noite, descobri a extensão da traição. Juliana, com a ajuda dos meus pais, havia falsificado documentos, transferindo toda a fortuna da família para o nome dela. Ela havia seduzido Ricardo, o filho de um empresário influente, convencendo-o de que ela era a verdadeira herdeira com quem ele deveria se casar para unir as famílias.
Eu fui chamada de louca, de mentirosa. Quando tentei lutar, eles me incriminaram por roubo, usando documentos forjados que me mostravam tentando "roubar" as joias da família. Fui arrastada para fora da minha casa e trancada em um depósito abandonado no porto.
"Você vai ficar aqui até aprender seu lugar," meu pai, Alberto, disse com uma frieza que congelou minha alma. "Juliana vai se casar com Ricardo. É melhor para todos."
Mas eu não aceitei. No dia do casamento, usei um pedaço de metal enferrujado para arrombar a fechadura e escapei. Corri pelas ruas, suja e desesperada, até chegar ao salão de festas.
Eu invadi a cerimônia no momento em que o padre perguntou se alguém tinha algo contra a união.
"Eu tenho!" gritei, minha voz rouca. "Essa mulher é uma ladra! Ela roubou minha identidade, minha casa, meu noivo!"
O silêncio no salão foi total. Todos os olhares se viraram para mim. Vi o choque no rosto de Ricardo, a fúria no de Juliana.
Mas foi o olhar da minha mãe que me quebrou.
"Quem é essa mulher?" Beatriz perguntou ao segurança, com a voz alta e clara. "Eu não a conheço. Deve ser uma parente distante e louca da fazenda. Tirem-na daqui!"
Parente distante.
Aquilo doeu mais do que qualquer golpe físico.
Meu pai se aproximou, seu rosto uma máscara de pragmatismo. Ele segurava uma taça de vinho.
"Beba isso, Sofia," ele ordenou em voz baixa. "Vai te acalmar. Depois conversamos."
Eu senti o cheiro estranho vindo da taça. Veneno. Eles queriam me silenciar para sempre.
Recusei, derrubando a taça no chão. O líquido escuro manchou o tapete branco.
Foi quando minha mãe perdeu o controle. Desesperada, ela agarrou uma pequena estátua de bronze de uma mesa de canto e me atingiu na cabeça. Com toda a sua força.
E agora, eu estava de volta. No mesmo lugar, no mesmo momento. O som da festa continuava. Eu podia ouvir a voz de Juliana, rindo, do outro lado da cortina.
A raiva borbulhou dentro de mim, quente e poderosa. Eles não iriam se safar. Não desta vez.
Levantei-me, meu corpo ainda protestando de dor. Rasguei um pedaço da barra do meu vestido sujo e amarrei-o firmemente na minha cabeça para estancar o sangramento. A dor me mantinha focada.
Abri a cortina de veludo.
A cena era exatamente como eu me lembrava. Juliana, radiante em seu vestido de noiva branco, estava de braços dados com Ricardo. Meus pais estavam ao lado deles, sorrindo para os convidados.
Ninguém havia me notado ainda.
Respirei fundo. A antiga Sofia, a garota leal e ingênua, morreu naquele depósito. A mulher que estava ali agora era outra pessoa. Uma rainha em espera, com uma segunda chance para a vingança.
Caminhei para frente, saindo das sombras. Meus passos eram firmes.
A primeira a me ver foi Juliana. Seu sorriso congelou. O copo de champanhe em sua mão tremeu.
"Você..." ela sussurrou, o pavor em seus olhos.
Todos os olhares se viraram para mim. Um murmúrio percorreu o salão.
Eu não perdi tempo com palavras.
Avancei diretamente para Juliana. Ela recuou, mas eu fui mais rápida. Minha mão agarrou seu cabelo, puxando sua cabeça para trás com força. Com a outra mão, dei-lhe um tapa no rosto. O som ecoou pelo salão silencioso.
"Ah!" Juliana gritou, mais de choque do que de dor.
"Sua ladra," sibilei, minha voz baixa e cheia de veneno.
Ricardo tentou intervir, mas eu o encarei com um olhar tão feroz que ele parou no meio do caminho.
Soltei Juliana, que caiu no chão, choramingando.
Virei-me para a multidão chocada. Minha voz soou alta e clara, sem nenhum traço do desespero de antes.
"Meu nome é Sofia. A verdadeira herdeira da fortuna da família. E eu voltei para pegar o que é meu."
Encarei meus pais, cujos rostos estavam pálidos de horror.
"A festa acabou," anunciei.
Desta vez, a história seria diferente. Eu mesma a escreveria. Com o sangue dos meus inimigos.
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