Capa do romance Uma Noite, Seu Legado Oculto

Uma Noite, Seu Legado Oculto

9.0 / 10.0
Após noventa e nove rejeições do frio Dr. Júlio Brandão, uma noite de paixão forçada me levou ao exílio. Três anos depois, ao voltar para cancelar nosso noivado, ele me traiu. Acusada falsamente, fui presa, perdi um rim e meu pai faleceu. Júlio me usou como vilã para proteger a irmã de seu antigo amor. Ele não sabia, porém, que engravidei naquela noite. Agora livre, desapareci com nosso filho para reconstruir minha vida longe de sua crueldade.

Uma Noite, Seu Legado Oculto Capítulo 1

Depois de noventa e nove tentativas fracassadas de conquistar o coração do brilhante, mas frio, Dr. Júlio Brandão, eu o droguei para uma noite de paixão. Isso não o fez me amar. Fugi para o Rio de Janeiro, coberta de vergonha.

Três anos depois, uma foto apareceu. Era Júlio, sorrindo ternamente para uma mulher mais jovem — a cópia exata de seu primeiro amor falecido.

Voei de volta para São Paulo para terminar nosso noivado de fachada, mas ele me destruiu primeiro.

Ele me acusou publicamente de vazar sua pesquisa, e seu testemunho me mandou para a prisão. Enquanto eu estava lá dentro, fui brutalmente atacada e perdi um rim. Meu pai, arrasado pelo escândalo, morreu de um derrame, e eu não estava lá para dizer adeus.

Eu era apenas um dano colateral em sua redenção distorcida por um fantasma, uma vilã conveniente para proteger a irmã manipuladora dela. Ele me deixou apodrecer, acreditando que eu era um monstro.

Mas ele não sabia o segredo que eu carregava daquela única noite.

Depois da minha libertação, peguei nosso filho e desapareci. Eu construiria uma nova vida, e ele nunca conheceria o filho que abandonou nem a mulher que ele verdadeiramente quebrou.

Capítulo 1

Clara POV:

Eu estava na beira da Ponte Rio-Niterói, o vento frio açoitava meu cabelo em volta do meu rosto. Três anos. Três anos desde a última vez que o vi, três anos desde que o droguei e forcei uma noite de paixão, pensando que isso o faria me amar. Não fez.

Meu celular vibrou na minha mão, o nome de Gabi piscando na tela. Ela era minha melhor amiga, minha confidente e minha única conexão com o mundo que abandonei em São Paulo.

"Oi, sumida", ela disse, sua voz uma mistura familiar de preocupação e exasperação. "Ainda ignorando minhas atualizações sobre o Júlio?"

Eu encarei as águas turvas da Baía de Guanabara abaixo. Ignorar as notícias sobre Júlio Brandão tinha se tornado minha religião. Um voto silencioso contra a dor.

Noventa e nove tentativas. Noventa e nove vezes tentei quebrar o gelo que envolvia o coração do Dr. Júlio Brandão. Ele era brilhante, um neurocientista cuja mente era um universo próprio, mas seu mundo emocional era um deserto congelado. Eu o amava com uma ferocidade que beirava a loucura.

O dinheiro da minha família, a influência do meu irmão Caio – nada disso podia comprar seu afeto. Nosso noivado era um acordo de negócios, uma doação de 25 milhões de reais para o laboratório dele, intermediada por Caio, destinada a garantir minha posição ao seu lado. Eu me convenci de que a proximidade geraria amor, que meu fogo poderia derreter seu gelo. Eu estava errada. Tão desesperadamente, dolorosamente errada.

Aquela última noite. O desespero me arranhava por dentro, um animal selvagem em meu peito. Ele estava partindo para uma conferência, suas malas prontas, sua mente já a quilômetros de distância. Eu vi minha chance, uma aposta distorcida e desesperada. Um sedativo em sua bebida, uma noite roubada, uma memória que eu tanto estimava quanto desprezava. Então, eu fugi. Para o Rio. Para escapar da destruição que eu causei e do homem que não me enxergava.

"Não, Gabi", menti, minha voz fraca contra o vento. "Estou só... ocupada."

"Ocupada ignorando sua própria vida, você quer dizer?", ela retrucou. "Olha, eu sei que você disse sem notícias, mas isso é diferente. Está em todo lugar. Você precisa ver isso."

Meu estômago se contraiu. Gabi nunca insistia a menos que fosse importante. Meus dedos, tremendo levemente, navegaram para o link que ela havia enviado minutos atrás. Carregou lentamente, cada pixel formando uma nova camada de pavor.

E então, lá estava. Uma foto.

Júlio.

Meu Júlio. O homem estoico e brilhante que raramente mostrava emoção, cujo rosto era uma máscara de seriedade acadêmica. Ele estava sorrindo. Um sorriso terno, uma curva suave em seus lábios que eu só sonhara em ver dirigida a mim. Seus olhos, geralmente frios e analíticos, estavam quentes, focados na jovem ao seu lado.

Helena Valença. A legenda a nomeava. Uma estudante de pós-graduação.

Minha respiração falhou. Meu mundo inclinou. Ela era a cópia exata de Catarina. Seu primeiro amor, já falecida. A mulher que assombrava cada momento de sua vigília, o fantasma entre nós.

A imagem me atingiu como um golpe físico. Não era apenas um sorriso; era devoção. Era o amor que eu ansiava, a ternura que eu implorava, o calor que me fora sistematicamente negado. E era tudo para alguém que se parecia exatamente com a mulher que ele nunca conseguiria esquecer.

Ele não tinha superado. Ele tinha encontrado uma substituta. Uma versão mais barata e mais jovem de seu amor perdido. Meu sangue gelou, depois ferveu com um calor furioso.

"Clara? Você está aí?" A voz de Gabi era um eco distante.

"Estou aqui", eu disse, minha voz mal um sussurro, depois endurecendo. "E estou voltando para São Paulo."

"O quê? Por quê? Você viu a foto?" Gabi parecia frenética.

"Eu vi", cuspi, as palavras com gosto de cinzas. "E vou voltar para acabar com essa farsa. Oficialmente."

Desliguei antes que ela pudesse responder, minha decisão firme, fria e afiada como uma navalha. Eu precisava confrontar o passado, cortar os laços que ainda me prendiam a esse fantasma, a ele.

A viagem pareceu interminável. Enquanto o avião cortava as nuvens, minha mente repassava nosso primeiro encontro como um filme quebrado. Foi em um dos bailes de caridade excruciantemente chatos de Caio. Outra noite de sorrisos forçados e conversas vazias. Eu odiava esses eventos. O ar era denso com o cheiro de dinheiro e desespero, um perfume sufocante.

Eu tinha vinte e dois anos, recém-saída de um curso de história da arte que minha família considerava uma indulgência frívola, e estava completamente entediada. Meus olhos varreram o salão, procurando uma fuga, quando pousaram nele. Dr. Júlio Brandão. Ele estava escondido em um canto, longe da multidão brilhante, seu olhar intenso fixo em uma equação complexa rabiscada em um guardanapo. Ele usava um terno perfeitamente cortado, mas sua mente estava claramente em outra dimensão, um contraste gritante com o glamour performático ao redor.

Ele estava alheio ao mundo, totalmente consumido por seus pensamentos. Seu cabelo escuro estava ligeiramente desgrenhado, como se ele tivesse passado as mãos por ele mil vezes em frustração ou triunfo. Havia um fogo intelectual em seus olhos, uma profundidade que me cativou instantaneamente. Ele não era como os outros homens que orbitavam meu mundo, ávidos por minha atenção ou pelas conexões da minha família. Ele era indiferente. E isso o tornava irresistível.

Senti uma atração, uma corrente elétrica estranha me puxando em sua direção. Era diferente de tudo que eu já havia experimentado. Uma obsessão, talvez, nascida da pura novidade de alguém que não se importava com o sobrenome Vasconcelos. Ele era um quebra-cabeça, e eu estava determinada a resolvê-lo.

Caminhei até ele, meu coração batendo um ritmo frenético contra minhas costelas. "Dr. Brandão?"

Ele ergueu o olhar, seus olhos, da cor de um céu de inverno, me perfurando. Não havia reconhecimento, nenhum lampejo de interesse. Apenas um breve, quase irritado, reconhecimento da minha presença.

"Senhorita Vasconcelos", ele disse, sua voz um barítono baixo e ressonante que enviou arrepios pela minha espinha. Ele sabia meu nome – uma pequena vitória.

"Clara", corrigi, oferecendo um sorriso deslumbrante. "E, por favor, me chame de Clara."

Ele assentiu, um gesto curto e dispensável, e seu olhar imediatamente voltou para o guardanapo. Eu estava acostumada a ser o centro das atenções, mas Júlio Brandão me tratou como uma interrupção inconveniente. Isso só me fez querê-lo mais.

Tentei todos os truques do meu arsenal. Flertes, conversas espirituosas, discussões intelectuais sobre arte e filosofia – qualquer coisa para capturar sua atenção. Ele respondia com respostas educadas e distantes, seus olhos sempre se desviando de volta para seu trabalho, sua mente a quilômetros de distância do salão de baile. Ele era uma fortaleza, impenetrável.

"Ele é um gênio, Clara", Caio me disse mais tarde naquela noite, observando-me do outro lado da sala enquanto eu tentava engajar Júlio. "Mas ele é um solitário. Brilhante, mas frio."

"Frio não significa sem sentimentos, Caio", eu retruquei, meu olhar ainda fixo em Júlio. "Significa que ele ainda não encontrou ninguém por quem valha a pena sentir."

Caio, sempre pragmático, viu uma oportunidade. Não para mim, inicialmente, mas para o Grupo Vasconcelos. Ele abordou Júlio sobre um possível financiamento para seu laboratório de neurociência. Júlio, sempre precisando de recursos para sua pesquisa de ponta, concordou em se encontrar. Caio, sendo Caio, então mencionou casualmente o... interesse de sua irmã.

Júlio, claro, permaneceu alheio, ou indiferente. Por meses, eu o persegui. Jantares, visitas ao laboratório, tentativas de entender sua pesquisa complexa – eu me joguei em seu mundo. Ele tolerava minha presença, às vezes até se engajava em discussões, mas sempre havia uma parede entre nós. Uma barreira transparente, mas impenetrável. Minha paixão se transformou em um desejo desesperado.

"Ele nunca vai te amar, Clara", Gabi disse uma noite, me observando folhear fotos de Júlio, um olhar melancólico no rosto. "Ele ainda está apaixonado pela Catarina."

O nome era um punhal. Catarina. O fantasma. O primeiro amor de Júlio, tragicamente morta em um acidente de carro a caminho de vê-lo, anos atrás. Eu sabia sobre ela, claro. Todos em seu pequeno círculo acadêmico sabiam. Ela era a razão de sua melancolia perpétua, a ferida que nunca cicatrizou. Gabi me contou a história em tons baixos, quase reverentemente. Júlio fora consumido pela dor, retirando-se do mundo, enterrando-se em sua pesquisa.

"É apenas uma memória idealizada, Gabi", eu insisti, embora um pavor frio se enroscasse em meu coração. "Ele precisa de alguém real. Alguém aqui, agora."

"Você não pode competir com um fantasma, Clara", ela avisou. "Especialmente um pelo qual ele se culpa."

Suas palavras me feriram, mas minha obsessão não me deixava ir. Eu acreditava que meu amor era poderoso o suficiente para romper sua dor, para trazê-lo de volta à vida.

Caio, vendo minha perseguição inabalável, quase patológica, decidiu formalizar o arranjo não dito. Ele ofereceu a Júlio uma doação substancial para seu laboratório – 25 milhões de reais – em troca de um noivado comigo. Foi um movimento frio e calculado, uma transação de negócios disfarçada de romance. Júlio, desesperado por financiamento para a "Iniciativa C.V." (um projeto que mais tarde descobri ter o nome de Catarina Valença, uma iniciativa de pesquisa dedicada a encontrar curas para doenças neurológicas raras, algo pelo qual Catarina era apaixonada), concordou. Engoli meu orgulho, escolhendo acreditar que era um trampolim, um começo, não um fim humilhante.

O noivado era uma farsa. Júlio era educado, distante, sempre focado em seu trabalho. Nossas conversas eram factuais, desprovidas de emoção. Ele nunca me tocava a menos que fosse absolutamente necessário, e mesmo assim, seu toque era clínico, ausente. A parede de gelo permaneceu.

Eu fiquei cada vez mais desesperada. Noventa e nove tentativas fracassadas em seu coração. Cada uma, uma nova ferida.

E então veio aquela noite. A noite antes de eu partir para o Rio. Um ato desesperado, alimentado por álcool e uma sensação devastadora de perda iminente. Eu o vi fazendo as malas, sua mente já em sua próxima conferência, em sua pesquisa. Ele estava escapando, e eu não podia suportar.

Droguei sua bebida. Apenas o suficiente para deixá-lo sonolento, para baixar sua guarda. Eu queria uma noite. Um momento de intimidade, por mais roubado, por mais errado que fosse. Eu queria sentir sua pele contra a minha, imaginar, apenas por algumas horas, que ele era meu.

A memória era um borrão de vergonha e desejo. Seus olhos, turvos de confusão, enquanto eu o beijava. Seu corpo, cedendo ao meu toque, mas sua mente ausente. Na manhã seguinte, acordei sozinha. Ele tinha ido embora, um bilhete no travesseiro. *Emergência no laboratório. Te vejo quando eu voltar.* Nenhum carinho. Nenhum reconhecimento do que havia acontecido. Apenas uma dispensa fria.

Aquela foi a gota d'água. Meu coração, já machucado e maltratado, finalmente se estilhaçou. Reservei o primeiro voo para o Rio. Eu corri.

Agora, enquanto o avião descia em direção a Guarulhos, as velhas feridas se abriram. A foto de Júlio e Helena, uma infecção fresca e purulenta. Ele havia encontrado sua substituta. Seu coração, que eu sangrei tentando ganhar, agora era dado livremente a um fantasma feito carne.

Um fogo vingativo se acendeu em meu peito, queimando os últimos vestígios do meu desespero anterior. Eu não estava mais correndo. Eu estava voltando para queimar essa ponte, de uma vez por todas. Para acabar com este noivado que se tornou um monumento à minha tolice e à sua crueldade. Ele aprenderia que Clara Vasconcelos não era uma mulher para ser descartada e substituída. Não mais.

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