Capa do romance Foi por contrato

Foi por contrato

9.6 / 10.0
Em Foi por contrato, Isadora e o herdeiro Caio aceitam um casamento estratégico para salvar um império. Entre cláusulas e obrigações, este romance modern explora se a atração supera o dever. Leia livros online grátis e descubra o desfecho deste billionaire romance novels agora.
Resumo de Foi por contrato
Isadora preza por sua liberdade e carreira, mas vê seu mundo ruir ao ser envolvida em um casamento por conveniência entre empresas. O noivo é Caio, um herdeiro pragmático que aceita a união apenas para salvar seu império da falência. Embora o desprezo mútuo dite o início dessa convivência forçada, a hostilidade cede espaço a uma atração genuína. Agora, entre cláusulas e pressões, eles precisam decidir se o amor pode florescer de um pacto meramente estratégico.
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Foi por contrato Capítulo 1

Isadora

O cheiro de tinta e verniz que usei no dia anterior ainda está no ar quando empurro a porta do ateliê. A luz natural entra pelas janelas altas e se espalha pelo chão, iluminando as paredes, os cavaletes, os pincéis mergulhados em potes de vidro e telas inacabadas.

Meu pequeno caos. Meu refúgio.

Pouso minha bolsa sobre uma cadeira no canto do espaço e respiro fundo. É segunda-feira, mas poderia ser qualquer dia. Aqui dentro, o tempo tem outro ritmo.

Tiro os sapatos, prendo o cabelo no alto da cabeça e visto meu avental manchado de cores que nem lembro mais quando usei. À minha frente, uma pintura do século XIX me encara com a paciência de quem espera há muito tempo. Uma fenda na tela exige delicadeza. É um trabalho minucioso, sem pressa, quase meditativo. Restaurar arte antiga tem algo de terapêutico. Corrigir rachaduras, devolver a cor, resgatar histórias escondidas sob o desgaste do tempo. Recontar um fato para outras pessoas em um novo século.

Se ao menos fosse tão fácil fazer isso com a vida da gente.

Coloco os fones de ouvido e deixo a música calma preencher o silêncio. Meu mundo se resume aos detalhes - os contornos, os tons, a textura do tempo passado. Não há pressa aqui. Não há obrigações impostas. Só meu ritmo, minha paixão, minha escolha. O pincelar preciso, mas leve. O olhar atento em cada ação.

O meu amor pela arte, em destaque a pintura, vem graças ao meu contato com o trabalho da minha mãe. Ela era diretora de um museu e como era só nós duas, o museu se tornou minha segunda casa. Eu saía de casa, ia para a escola e quando saia, estava no museu até a hora de irmos embora.

Eu passava horas de olho em cada obra, em seus detalhes. Comecei ficar curiosa para descobrir sobre a história e seus significados, quais materiais usados para casa obra. Minha curiosidade cresceu ao ponto de me fazer pedir infinitas vezes para ter aulas de pintura.

Minha mãe era contra pois achava que seria perda de tempo e dinheiro, mas eu não aceitei uma negativa. Quando ela viu que não conseguiria me fazer mudar de ideia, cedeu. Comecei a estudar, testar, aplicar e me apaixonar em cada processo.

Desde que comecei, não parei. Quando dei por mim, estava trabalhando como restauradora de arte e confesso que amo o que faço.

Eu sou feliz com a vida que tenho, sou completa. Eu sei disso, mas estou reafirmando toda vez que lembro da insinuação da minha mãe. Ela questionou se não quero casar, ter filhos. Do nada. Sendo que nem namorar, eu namoro.

Não entendo por que minha mãe, assim como tanta gente vive com essa pressa para "acontecer". Casar. Ter filhos. Comprar uma casa com jardim e grade branca. Eu não sou contra quem deseja isso, só não estou com pressa e sinceramente, duvido que seja pra mim. Pelo menos, não agora. Não quando estou começando a viver de verdade.

Sonho em abrir meu próprio estúdio. Um espaço maior, com vitrines de vidro, material, obras e cheiro de café. Um lugar onde arte e liberdade possam conviver sem pedir permissão. Talvez até ministrar oficinas, receber artistas locais, organizar eventos e visitas... Meu plano não envolve véus, alianças ou buquês.

Casamento, para mim, sempre foi como uma moldura bonita em volta de um quadro vazio. Parece promissor, mas quando você olha de perto, às vezes falta o mais importante: conteúdo. Ao menos, todos os casamentos que vi seguiram o mesmo caminho, o fim cheio de ressentimento.

Levanto e vou tomar um copo de água. Quando volto, me sento, pego o pincel mais fino e mergulho no líquido, perdida no tempo e na concentração. Cada pequeno retoque exige precisão. Amo a forma como as cores antigas voltam à vida, como a história se reconstrói aos poucos sob as minhas mãos. É como costurar o passado sem apagar suas cicatrizes. E eu me sinto incrivelmente satisfeita quando finalizo e posso observar o bom trabalho.

Como de costume, passo horas ali sem perceber. Só noto o tempo quando meu celular vibra sobre a bancada, interrompendo minha bolha silenciosa. É minha mãe.

Mãe – 3 chamadas perdidas.

Franzo o cenho, estranhando já que ela não me liga muito. Mando um áudio rápido:

- Oi, mãe. Está tudo bem?

A resposta vem quase imediata, como se ela estivesse esperando e seguimos trocando áudios:

- Oi. Você está trabalhando?

- Sim.

- Mais tarde, pode me acompanhar em uma reunião? - Estranho, mas ela continua. - É importante e urgente. Preciso de um apoio.

- Como profissional? - a pergunta sai antes que eu pense direito.

- Como filha e profissional.

Mesmo odiando ter que me deslocar no fim do dia e interagir com pessoas, aceito.

- Tudo bem. Onde?

- Na casa dos Vasques.

A casa dos Vasques?

Sinto o estômago revirar. Conheço o sobrenome. Quem vive em nossa bolha social conhece. Família tradicional, antiga, quase aristocrática. Investem em imóveis, hotéis e eventos luxuosos. Nunca tive motivo pra pisar naquela casa, e agora, de repente, sou convocada para acompanhar minha mãe em uma reunião de última hora? Será que eu vou ser convidada a trabalhar em alguma pintura deles?

Tiro o avental devagar, ainda em choque com a mudança brusca de tom no meu dia. Uma hora estou restaurando uma pintura de dois séculos. Na outra, sou arrastada para uma reunião misteriosa com uma família influente.

Saio da sala e vou até o banheiro. Troco as minhas roupas por peças extras que deixo no ateliê. Sigo até a pia e lavo as mãos, seco na toalha e encarando minha aparência no espelho, passo o pente em meus fios bagunçados e tento domar o cabelo, mas é inútil. Ele sempre faz o que quer, como eu.

A expressão que me encara no reflexo, parece mais séria do que o normal. E por mais que eu queira ignorar, há uma sombra de preocupação crescendo em meus olhos.

Reunião urgente com a família Vasques.

Nada de bom deve sair disso.

E uma parte de mim já sente que, a partir daqui, as coisas vão deixar de estar sob meu controle.

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