
Um Novo Começo Nosso
Capítulo 2
A ideia de um relacionamento aberto partiu de Pedro, soava como uma promessa de modernidade, um hino à liberdade que ele tanto pregava, e eu, Sofia, ingênua e apaixonada, embarquei na sua canção. Ele dizia que nosso amor era forte demais para ser contido por regras antigas, que a gente podia experimentar o mundo sem perder um ao outro. Eu acreditei.
Enquanto Pedro colecionava "aventuras", eu me sentia cada vez mais como uma peça decorativa na sua vida liberal. Ele chegava em casa com cheiros de outros perfumes e sorrisos que não eram para mim, e eu engolia minha insegurança com a desculpa de que estávamos sendo "progressistas".
Hoje, ele saiu para mais um de seus "encontros sem compromisso". Fiquei em seu apartamento, o silêncio ecoando mais alto que qualquer música. O notebook dele estava sobre a mesa de centro, aberto. Normalmente, eu jamais mexeria, nosso pacto de liberdade incluía confiança, ou pelo menos era o que eu pensava.
Mas a tela estava acesa, mostrando um perfil de rede social que eu nunca tinha visto.
Não era o perfil que eu conhecia, o de Pedro, o aventureiro solteiro. Este tinha um nome diferente, algo como "Família Almeida & Martins". A foto de perfil me fez parar de respirar.
Era Pedro.
Ele sorria, um sorriso largo, genuíno, do tipo que ele raramente me dava ultimamente. Ao seu lado, uma mulher bonita, de cabelos escuros, o abraçava com uma familiaridade que me gelou por dentro. E no colo dela, um menino pequeno, de uns cinco anos, com os mesmos olhos de Pedro, ria para a câmera. Uma família de comercial de margarina.
Minha primeira reação foi a negação.
Quem é essa mulher?
E essa criança?
Meu cérebro buscava freneticamente uma explicação lógica. Uma prima distante? Uma irmã que ele nunca mencionou? Impossível. Eu conhecia a família dele, ou achava que conhecia.
Com os dedos trêmulos, cliquei no álbum de fotos. A página rolou, revelando um universo paralelo do qual eu não fazia parte. Havia fotos do Natal, com o menino abrindo presentes ao pé de uma árvore gigantesca. Havia fotos de um aniversário, o menino soprando as velas de um bolo com o número cinco. Havia fotos na praia, Pedro ensinando o garoto a fazer um castelo de areia, a mulher, Laura, sorrindo para os dois.
Laura. O nome dela estava marcado em dezenas de fotos.
Pedro e Laura.
Pedro, Laura e o menino. Lucas. O nome dele aparecia nas legendas.
Cada foto era um soco no meu estômago. O relacionamento aberto que ele me vendeu, a liberdade que ele tanto exaltava, tudo aquilo era uma farsa. Ele não estava tendo encontros casuais. Ele tinha uma vida. Uma vida inteira, secreta, com outra mulher e uma criança.
A raiva começou a borbulhar sob a pele, quente e sufocante.
Como ele pôde?
Como ele ousou me fazer de idiota por tanto tempo?
Em meio ao turbilhão de imagens, eu ainda agarrava um fio de esperança. Tinha que haver um mal-entendido. Tinha que haver. Desesperada, peguei meu celular, a mão tremendo tanto que mal consegui digitar a mensagem.
"Pedro, a gente precisa conversar. Urgente."
Enviei. Nenhuma resposta.
Voltei para a tela do notebook, meus olhos procurando por algo, qualquer coisa que desmentisse o que eu estava vendo. Foi quando vi os comentários em uma foto de Lucas, sorrindo com uma bola de futebol. Um comentário específico se destacou, um nome que eu conhecia bem.
Sônia Almeida. A mãe de Pedro.
A mensagem dela era curta, mas demoliu o que restava do meu mundo.
"Meu neto lindo! Vovó te ama muito!"
Neto.
A palavra ficou pairando na minha frente, em letras digitais cruéis e inegáveis. Neto. Lucas era filho dele. Laura não era uma aventura, era a mãe do filho dele.
O ar sumiu dos meus pulmões. O chão pareceu desaparecer sob meus pés. Eu caí sentada no sofá, o corpo inteiro tremendo, um frio cortante se espalhando por minhas veias.
Era tudo mentira.
As promessas dele ecoaram na minha cabeça, agora soando como o mais cruel dos deboches.
"Sofia, você é o amor da minha vida, a única que importa."
"São só experiências, amor, nada sério. Meu coração é seu."
"Nosso relacionamento é baseado na honestidade total, sem segredos."
Mentiroso. Manipulador. Egoísta.
Senti meu rosto queimar, não de raiva, mas de pura e absoluta humilhação. Eu não era a parceira liberal e moderna. Eu era a outra. A tola que acreditava em um conto de fadas progressista enquanto ele vivia uma vida dupla.
A dor deu lugar a uma fúria gelada. O desespero se transformou em determinação. Eu não ia chorar. Não mais.
Fechei a tela do notebook com um baque seco. O som ecoou no apartamento silencioso.
Eu não ia fugir. Eu não ia me esconder.
Eu ia esperar por ele. E ia obrigá-lo a olhar nos meus olhos e me dizer a verdade.
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