
Um Novo Começo Nosso
Capítulo 3
As horas se arrastaram com uma lentidão torturante. Cada tique-taque do relógio na parede era um martelo batendo na minha ansiedade. Eu andava de um lado para o outro na sala, o celular na mão como uma arma inútil. Liguei para Pedro uma, duas, dez vezes. Caixa postal. A cada chamada não atendida, a raiva se solidificava dentro de mim, transformando-se em uma certeza fria. Ele estava me evitando. Ele sabia.
Finalmente, perto da meia-noite, ouvi o som da chave na porta. Meu coração disparou. Parei no meio da sala, de braços cruzados, esperando.
Pedro entrou, bocejando, com a aparência de quem teve um dia longo e cansativo. Ele jogou as chaves na mesinha e nem olhou para mim direito.
"Nossa, que dia, amor. Tô morto", ele disse, se espreguiçando.
Ele caminhou na minha direção, o sorriso cansado no rosto, e se inclinou para me beijar. Eu virei o rosto. O beijo dele acertou o ar.
Ele parou, a confusão nublando seu rosto. "O que foi?"
A calma forçada que eu mantive por horas se quebrou.
"Quem é Laura?", perguntei, a voz saindo mais trêmula do que eu gostaria.
Pedro franziu a testa, uma atuação perfeita de inocência. "Laura? Que Laura, Sofia? Do que você tá falando?"
"Não se faça de desentendido, Pedro", cuspi as palavras. "Eu vi. Eu vi tudo. As fotos. O menino. Lucas."
A expressão dele mudou. O cansaço deu lugar a um pânico mal disfarçado, que ele rapidamente tentou encobrir com uma indignação forçada.
"Você mexeu no meu computador? Que porra é essa, Sofia? Onde fica a nossa confiança?"
"Confiança?", eu ri, um som amargo e seco. "Você ousa falar de confiança? Você tem uma família secreta, Pedro! Um filho!"
Ele passou as mãos pelo cabelo, parecendo genuinamente desesperado. Por um segundo, uma parte estúpida de mim quase sentiu pena.
"Amor, não é nada disso que você tá pensando! Pelo amor de Deus, senta aqui, me deixa explicar", ele disse, tentando me puxar para o sofá.
Eu me afastei dele. "Explicar o quê? Que a sua mãe chama um menino de 'neto' por engano? Que as fotos de anos de vida em família são uma montagem?"
Ele viu que a negação total não ia funcionar. Então, ele mudou de tática.
"Tá, olha... é complicado", ele começou, a voz agora suave, persuasiva. "A Laura... ela é uma ex. Uma ex completamente maluca e obcecada. Ela não aceita que a gente terminou. Ela pega fotos antigas, fotos minhas com meu sobrinho, e cria essa fantasia na internet. É doentio, Sofia. Eu já tentei de tudo, mas ela não para."
Ele olhou para mim com aqueles olhos que um dia me fizeram acreditar em qualquer coisa.
"Meu sobrinho, amor. O Lucas é meu sobrinho. Filho do meu irmão."
A menção ao irmão dele, que eu sabia que tinha falecido há anos, me desarmou. A história era absurda, mas o desespero nos olhos dele, a forma como ele falava...
Minha mente, exausta, começou a vacilar. Eu me lembrei do início do nosso namoro. Das viagens surpresa que ele planejava. Das flores que ele me mandava sem motivo algum. Das noites em que ficamos acordados até o amanhecer, ele me contando seus sonhos e me dizendo que eu era a única mulher que realmente o entendia. Ele me amava. Ele não podia ser esse monstro.
A raiva dentro de mim diminuiu, dando lugar a uma confusão dolorosa. Eu queria tanto, tanto acreditar nele. A verdade era um abismo escuro, e a mentira dele era uma ponte frágil, mas era a única coisa que me impedia de cair.
"Tem certeza, Pedro?", minha voz era um sussurro. "Ela parece... tão real. A vida de vocês."
"É uma fachada, meu amor. Uma loucura da cabeça dela", ele disse, se aproximando devagar, como se estivesse se aproximando de um animal assustado. Ele segurou meu rosto entre as mãos. "Você é a minha vida real. Você. Sempre foi. Por favor, acredita em mim."
Eu olhei no fundo dos olhos dele, procurando por qualquer sinal de mentira. Não encontrei nada além do reflexo do meu próprio desespero. Eu assenti, devagar, permitindo que ele me abraçasse. O abraço dele era quente, familiar. Por um momento, pareceu seguro.
"Tudo bem, Pedro", eu murmurei contra o peito dele. "Desculpa. Eu só... fiquei assustada."
"Eu sei, meu amor. Eu sei. E eu sinto muito que você teve que ver isso", ele disse, beijando o topo da minha cabeça.
Mas enquanto ele me segurava, a imagem daquele perfil não saía da minha cabeça. O comentário da mãe dele. A felicidade genuína nos olhos dele naquelas fotos. A mentira dele era reconfortante, mas a dúvida era uma semente que já tinha sido plantada.
Eu me afastei do abraço dele, forçando um sorriso cansado.
"Eu preciso de um banho. E de dormir."
Ele concordou, parecendo aliviado.
Enquanto a água quente caía sobre mim no chuveiro, uma nova determinação tomou forma. Eu fingiria acreditar nele. Por enquanto. Mas eu não ia deixar aquilo para lá. A história dele era cheia de furos. E eu ia encontrar a verdade.
Eu ia encontrar Laura. E ia ouvir a versão dela da história.
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