
Um Novo Capítulo: Das Cinzas
Capítulo 2
Quando acordei, a primeira coisa que senti foi o vazio.
A minha mão foi instintivamente para a minha barriga, à procura da curva familiar de nove meses. Não encontrou nada. Apenas o lençol áspero do hospital e uma dor surda que vinha de dentro.
O cheiro a fumo e a desinfetante ainda pairava no ar, uma lembrança do incêndio.
O meu irmão mais novo, o Leo, estava na Unidade de Cuidados Intensivos. O seu ataque de asma, desencadeado pelo fumo denso, quase o matou.
E o meu bebé... o meu bebé tinha-se ido. A inalação de fumo tinha sido demais para ele.
Peguei no telemóvel com os dedos a tremer. Precisava de ligar ao meu marido, Marcos. Ele era bombeiro. Ele devia estar aqui.
A chamada demorou a ser atendida. Quando ele finalmente falou, a sua voz estava tensa, mas não era de preocupação por mim.
"Clara? O que foi? Estou ocupado."
"Ocupado?", a minha voz saiu como um sussurro rouco. "Marcos, o nosso bebé..."
"Eu sei, eu sei, o incêndio foi terrível", interrompeu ele, impaciente. "A Sofia está em choque. O gato dela, o Miau, mal consegue respirar. Estamos no veterinário de emergência agora mesmo."
Sofia. A sua amiga de infância que vivia dois andares abaixo de nós. A mulher que ele sempre protegia.
"O veterinário?", repeti, incrédula. "O meu irmão está nos Cuidados Intensivos. O nosso filho... morreu, Marcos."
Silêncio do outro lado da linha. Um silêncio pesado, culpado.
"Eu salvei a Sofia primeiro", admitiu ele finalmente, a voz baixa. "O andar dela era mais fácil de alcançar. Era uma decisão tática."
Uma decisão tática. Ele salvou uma mulher e o seu gato enquanto o seu filho por nascer e o seu cunhado asmático sufocavam dois andares acima.
"Quero o divórcio", disse eu, com uma clareza que me surpreendeu. A dor era tão imensa que se transformou em gelo.
"O quê? Não sejas dramática!", a sua voz subiu de tom, irritada. "Estás a passar por um trauma. Não estás a pensar com clareza. A Sofia precisa de mim agora. Falamos mais tarde."
Ele desligou.
Tentei ligar de volta. O número estava bloqueado.
As lágrimas que eu pensei que tinham secado começaram a escorrer pelo meu rosto. Ele tinha razão numa coisa. Eu não estava a pensar com clareza. Se o meu bebé ainda estivesse aqui, eu talvez o perdoasse. Eu iria querer uma família completa para o meu filho.
Mas agora, não havia mais nada que me prendesse a ele. O divórcio não era uma ameaça. Era uma promessa.
O telemóvel do hospital tocou na mesinha de cabeceira. Uma enfermeira atendeu e passou-mo. Era o meu sogro, Ricardo, o chefe dos bombeiros reformado.
"Clara", a sua voz era dura como pedra. "O Marcos disse-me que estás a ter um ataque. Ameaçá-lo com o divórcio numa altura como esta? Não tens vergonha? Ele é um herói. Ele fez o que tinha de fazer. A Sofia é como uma filha para mim. Deves estar grata por ele a ter salvado."
Gélida, desliguei-lhe o telemóvel na cara.
Herói. Ele deixou a sua família para morrer e era um herói.
Nesse momento, eu soube que não estava apenas a lutar contra o Marcos. Estava a lutar contra toda a sua família.
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