
Um Novo Capítulo: Das Cinzas
Capítulo 3
Contra o conselho dos médicos, tive alta do hospital no dia seguinte. A dor física era nada comparada à necessidade de ver o Leo.
Passei pela UCI. Ele estava entubado, pálido, mas os seus sinais vitais estavam estáveis. Os médicos disseram que ele ia recuperar. Respirei fundo pela primeira vez desde o incêndio.
Antes de ir para casa dos meus pais, precisava de passar no nosso apartamento. Ou no que restava dele. Precisava de ir buscar a caixa com as coisas do bebé. As roupinhas que tricotei, os sapatinhos minúsculos. Não podia deixar aquilo para trás.
O prédio estava isolado, mas o porteiro, o Sr. Valdir, deixou-me entrar quando viu o meu rosto. O cheiro a queimado era avassalador.
Quando cheguei ao nosso andar, a porta estava entreaberta. E lá dentro, estavam eles.
O Marcos estava a segurar a Sofia, que chorava histericamente nos seus braços.
"O meu Miau, o meu pobre Miau", soluçava ela. "Ele está tão traumatizado, Marcos. O veterinário disse que os seus pulmões estão frágeis."
"Shh, calma, meu bem. Eu estou aqui. Vamos cuidar de ti e do Miau", dizia ele, acariciando o cabelo dela com uma ternura que ele nunca me mostrou.
Eles não me viram na porta. Fiquei ali, a observá-los, o meu coração a transformar-se numa pedra pesada no meu peito.
Finalmente, pigarreei.
Ambos se viraram, sobressaltados. O Marcos largou a Sofia como se ela estivesse a arder.
"Clara! O que estás a fazer aqui? Devias estar a descansar."
"Vim buscar as coisas do meu filho", disse eu, a voz sem emoção. Passei por eles e fui até ao quarto do bebé. A maior parte estava destruída pela água e pelo fumo, mas a caixa de madeira que o meu pai fez estava intacta.
"Deixa-me ajudar-te", disse o Marcos, aproximando-se.
Recuei. "Não me toques."
A Sofia aproximou-se, o rosto manchado de lágrimas falsas. "Clara, eu sinto muito pelo vosso bebé. Se eu soubesse..."
"Se soubesses o quê?", olhei diretamente para ela. "Terias dito ao Marcos para me salvar a mim primeiro? Ou o teu gato ainda seria a prioridade?"
Ela engasgou-se, parecendo ofendida.
O Marcos interveio, o rosto vermelho de raiva. "Já chega! Foi uma decisão tática! O fogo no teu andar estava pior! Eu ia chamar reforços para ti e para o Leo! Eu sou um bombeiro profissional, sei o que faço!"
"Um bombeiro profissional que deixou o seu cunhado com asma e a sua mulher grávida para trás", retorqui, a voz cortante. "Tu não estavas a tomar uma decisão tática. Estavas a fazer uma escolha. E escolheste-a a ela."
Peguei na caixa. Era mais pesada do que eu esperava.
"Não te preocupes com os papéis do divórcio", disse eu, ao passar por eles na porta. "O meu advogado entrará em contacto contigo em breve."
Saí do apartamento sem olhar para trás, deixando-os no meio da fuligem e das mentiras deles.
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