
Um Novo Amanhecer
Capítulo 2
Três anos. Três longos anos se passaram desde que Lucas me abandonou no altar.
Hoje, ele voltou.
Ele não voltou sozinho. Ao seu lado, estava Gabriela, a mulher por quem ele me trocou, agora com uma barriga proeminente que anunciava sua gravidez.
Eles pararam na entrada da luxuosa mansão da família Monteiro, a mesma casa que um dia eu acreditei que seria meu lar. Lucas vestia roupas de artista, deliberadamente manchadas de tinta, com um ar boêmio e arrogante. Gabriela se agarrava ao seu braço, usando um vestido branco simples que acentuava sua gravidez, o rosto pálido e um ar de fragilidade calculada.
Eles olhavam para mim, que estava no topo da escadaria, com uma expressão de triunfo.
"Sofia, quanto tempo," a voz de Lucas era carregada de uma falsa nostalgia, como se fôssemos velhos amigos se reencontrando.
Ele me abandonou no dia do nosso casamento para perseguir uma suposta carreira artística com Gabriela, sua musa. Na época, ele me disse que a arte era sua única paixão. Mais tarde, descobri que sua paixão tinha nome, corpo e ambição. Agora, ele voltava, não para se desculpar, mas para exigir.
"Lucas. Gabriela."
Minha voz saiu mais calma do que eu sentia. Nesses três anos, aprendi a construir uma fortaleza ao redor do meu coração.
"Não esperava que você ainda estivesse aqui," Lucas continuou, seu olhar percorrendo a decoração suntuosa da sala de estar com um desprezo mal disfarçado. "Pensei que já teria voltado para sua vidinha simples."
Atrás dele, Gabriela deu um passo à frente, a mão repousando protetoramente sobre a barriga.
"Sofia, eu sei que pode ser difícil para você," ela disse com uma voz suave, quase um sussurro. "Mas Lucas e eu, nós nos amamos. E agora vamos ter um filho. Eu só peço que você entenda."
Ela parecia uma vítima, uma pobre moça que simplesmente se apaixonou. Eu sabia a verdade. Sabia da sua manipulação, da forma como ela usou o ego de Lucas para se promover no mundo da arte.
Meu olhar encontrou o dela, frio e sem emoção.
"Entender o quê, exatamente?"
Lucas riu, um som seco e desagradável.
"Não seja difícil, Sofia. Viemos em paz. Na verdade, temos uma proposta para você."
Ele se aproximou, subindo alguns degraus, seu cheiro de tinta e cigarro invadindo meu espaço pessoal.
"Gabriela vai precisar de ajuda nos próximos meses. A gravidez não está sendo fácil. Pensamos que você poderia cuidar dela. Afinal, você sempre foi boa em servir, não é?"
Meu sangue gelou. A audácia. A crueldade. Ele não estava apenas me pedindo para aceitar sua amante grávida, ele estava me rebaixando à posição de empregada dela.
Lembrei-me do dia em que o encontrei, meses depois do abandono. Ele vivia em um ateliê sujo, cercado por outros artistas boêmios. Ele e Gabriela riam, bebiam e planejavam uma exposição para lançar a carreira dela. Quando me viu, ele não mostrou um pingo de remorso. Pelo contrário.
"Sofia! Que surpresa! Venha, seja minha fã número um. Apoie minha arte!"
Naquele dia, eu chorei. Hoje, não.
Um sorriso lento e enigmático se formou em meus lábios. Inclinei a cabeça, fingindo considerar sua "proposta" .
"Cuidar da Gabriela?"
"Isso mesmo," Lucas disse, satisfeito com minha aparente submissão. "Prepare um quarto para nós, o melhor de preferência. E diga para prepararem o jantar. Gabriela tem desejos. Ela quer sopa de lagosta."
"Claro," eu disse, minha voz suave como seda. "Vou cuidar de tudo pessoalmente."
Lucas sorriu, triunfante, e se virou para Gabriela, que retribuiu com um olhar satisfeito. Eles achavam que tinham vencido. Achavam que podiam entrar na minha vida e ditar as regras.
Eles não sabiam de nada.
Nesse exato momento, um som de pezinhos correndo no corredor do andar de cima quebrou o silêncio tenso.
Uma pequena figura apareceu no topo da escada. Um menino de uns dois anos, com cachos escuros e olhos grandes e brilhantes que eram uma cópia dos meus.
Ele correu em minha direção, os bracinhos abertos.
"Mamãe!"
A palavra ecoou na sala silenciosa.
Lucas e Gabriela congelaram. Seus sorrisos desapareceram, substituídos por uma expressão de puro choque. O olhar de Lucas saltou do menino para mim, a confusão e a raiva começando a se formar em seu rosto.
"Mamãe?" ele repetiu, a voz um rosnado baixo e incrédulo. "Que porra é essa, Sofia?"
O menino me abraçou pelas pernas, completamente alheio à tensão. Ele então se virou, apontando para o corredor de onde viera, e sua vozinha clara soou novamente, selando o destino daquele reencontro.
"Papai! Papai tá vindo!"
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