
Um Novo Acorde
Capítulo 2
O cheiro a verniz e madeira de cedro enchia o pequeno apartamento em Lisboa, um santuário que Tiago Mendes tinha construído para si, longe da sombra da sua família no Porto. Eram duas da manhã, e Leonor Vasconcelos estava deitada na sua cama, nua, a observá-lo trabalhar.
"Vens para a cama ou não, meu luthier?" a voz dela era rouca e divertida.
Tiago não se virou, os seus ombros largos tensos de concentração enquanto polia o corpo de uma guitarra portuguesa. "Quase a acabar, Le."
Ela suspirou dramaticamente, o som ecoando no silêncio. "Estás sempre 'quase a acabar'. Há cinco anos que me dizes isso."
Ele sorriu para si mesmo, um sorriso pequeno e raro. Leonor era a única pessoa que conseguia extrair dele estas reações. Ela era um furacão, e ele era a árvore quieta que se recusava a vergar.
Ela levantou-se, o lençol a cair, e caminhou até ele, envolvendo-o por trás com os braços. Pousou o queixo no ombro dele, o seu perfume a misturar-se com o cheiro da oficina. "Esta é para mim, não é?"
"É," ele admitiu, a sua voz um murmúrio baixo. "Uma peça única. Como tu."
Leonor riu-se, um som cristalino. "Eu sei. É por isso que tens de a acabar. Quero mostrá-la." Ela mordiscou-lhe o lóbulo da orelha. "E depois quero mostrar-te outras coisas."
Tiago sentiu o calor subir-lhe ao rosto. Mesmo depois de cinco anos, a ousadia dela ainda o apanhava de surpresa. Ele era um homem de tradições, de gestos ponderados e emoções contidas. Ela era o oposto. E, por alguma razão, funcionava.
Ele pousou as ferramentas e virou-se para a beijar. O beijo dela era exigente, apaixonado, deixando-o sem fôlego.
"És meu, Tiago Mendes," ela sussurrou contra os seus lábios. "Não te esqueças disso."
"Nunca," ele respondeu, a sua devoção absoluta e inquestionável.
Mais tarde, deitados na cama, o telemóvel dele vibrou na mesa de cabeceira. Era a mãe dele. Ele ignorou.
"A tua família outra vez?" perguntou Leonor, aninhando-se nele.
"Sim. Querem que vá ao Porto no fim de semana. Falar sobre... o futuro."
"Casamento," ela disse, sem ser uma pergunta.
Tiago hesitou. "Sim." Ele olhou para ela, para o seu rosto perfeito à luz da lua. "Le... eu quero apresentar-te a eles. Quero que isto deixe de ser um segredo."
Leonor ficou em silêncio por um momento. Depois, sorriu, um sorriso que não lhe chegou aos olhos. "Um dia, meu amor. Quando for a altura certa. Prometo."
A promessa dela era vaga, mas para Tiago, era o suficiente. Era tudo.
Duas semanas depois, estavam numa festa luxuosa numa adega no Vale do Douro. Era o mundo de Leonor, não o dele. Homens de fato, mulheres em vestidos de grife. Tiago sentia-se um peixe fora de água com as suas calças de ganga e camisa simples, mas por ela, ele suportava.
Ele perdeu-a de vista na multidão. Foi procurá-la, seguindo o som do riso dela até um canto mais escuro da adega, atrás de enormes barris de carvalho. Ela estava com duas amigas, a rir-se, um copo de vinho na mão.
"Então, vais mesmo levar a sério esse luthier?" perguntou uma das amigas.
Leonor deu uma gargalhada. "Treinar? Claro! O Tiago é a minha 'escola de condução'. Ele é perfeito. Paciente, dedicado, ensina-me tudo o que preciso de saber sobre como ser a namorada perfeita."
A outra amiga juntou-se à gargalhada. "E para quem é o exame final?"
O sorriso de Leonor alargou-se, malicioso e triunfante. "Para o Diogo, claro. Ele volta para Portugal no próximo mês. Quando ele voltar, eu serei uma profissional."
O mundo de Tiago parou. As vozes, a música, o cheiro a vinho e a terra húmida, tudo se desvaneceu. Ficou apenas o eco daquelas palavras. "Escola de condução." "Profissional."
Ele sentiu o ar a faltar-lhe nos pulmões. O seu coração, que momentos antes batia de amor por ela, agora parecia ter sido esmagado dentro do seu peito. Ele recuou, passo a passo, para longe das vozes, para longe do riso dela.
Ele tropeçou para fora da adega, para o ar frio da noite. O som do seu próprio sangue a pulsar nos ouvidos era ensurdecedor. Humilhação. Dor. Uma traição tão profunda que o deixou oco. Ele correu, sem direção, apenas para longe, para longe dela.
Na sua mente, um flashback. O dia em que a conheceu. Ele estava a expor uma das suas guitarras numa pequena feira de artesanato em Lisboa. Ela apareceu, vibrante e cheia de vida, e declarou que queria aprender a tocar. Ele, tímido, tentou recusar, dizendo que era um construtor, não um professor.
Ela não aceitou um não como resposta. Apareceu na sua oficina no dia seguinte. E no outro. E no outro. Com café, com pastéis de nata, com o seu sorriso impossível de ignorar. Ela desgastou as suas defesas com a sua persistência e charme.
"Eu não desisto do que quero, Tiago," ela disse-lhe um dia.
E ele, o homem quieto e reservado, rendeu-se. Ele apaixonou-se, de forma total e irrevogável.
Agora, a dolorosa epifania atingiu-o com a força de um golpe físico. Ele não era o prémio dela. Ele era o treino. Um meio para um fim. Cinco anos da sua vida, da sua devoção, do seu amor, eram apenas um ensaio para outro homem.
Ele encostou-se a uma parede de pedra fria, o telemóvel a vibrar no bolso. Era a mãe dele outra vez. Desta vez, ele atendeu.
"Tiago? Estás bem? Não me ligaste de volta."
"Mãe," a voz dele saiu quebrada. "Aquela rapariga de que me falaste... a fadista. A Inês. Eu quero conhecê-la."
Houve um silêncio chocado do outro lado da linha. "Tiago... tens a certeza?"
Ele olhou para a fotografia deles no seu ecrã de bloqueio, tirada no aniversário dela no mês passado. O sorriso dela era radiante. O dele, apaixonado. Uma mentira. Tudo uma mentira. "Sim, mãe. Tenho a certeza. Eu volto para o Porto."
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