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Capa do romance Um Lugar Para Recomeçar

Um Lugar Para Recomeçar

Dominado por uma paixão avassaladora, Grady tenta desesperadamente quebrar a resistência de Holly para devolver-lhe a esperança e o amor. Apesar do desejo evidente, ela foge de seus toques, escondendo tormentos profundos na alma. Grady se questiona sobre qual passado cruel a impede de confiar e ser feliz. Ele busca entender as feridas que a obrigam a manter distância, mesmo quando as emoções entre os dois se tornam intensas e impossíveis de ignorar.
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Capítulo 2

Holly sentia-se mais pressionada do que nunca no dia em que foi conversar com o advogado.

Precisava arranjar uma babá para as crianças, tendo ou não condições financeiras para isso, pois não achava justo continuar dependendo da boa vontade de Liz por muito tempo. Mas como faria para pagar? Outra grande soma de dinheiro fora gasta há pouco para instalar um telefone e suas economias iam acabando depressa. Após comprar mantimentos e outros produtos de que necessitava para a casa, ficara com exatamente quinhentos e quarenta dólares no bolso. Se controlasse com cuidado cada centavo gasto, poderia manter a família por mais umas seis semanas.

- Sra. Simpson, o Sr. Brown vai recebê-la agora - avisou a secretária.

Tensa, Holly pegou a bolsa e dirigiu-se ao escritório que a secretária lhe indicava. O homem magro que se encontrava parado junto à escrivaninha abarrotada de papéis levantou-se ao vê-la entrar e estendeu-lhe a mão com um sorriso amistoso.

- Sou Ned Brown. Seja bem-vinda à nossa cidade. Fico feliz por ver que o desejo de sua avó acabou se tornando realidade. Cora sempre quis que você viesse morar aqui; vivia dizendo que este era o melhor lugar para você criar sua família.

- Acho que vovó tinha razão. Acredito que iremos ser muito felizes aqui. - "Se não morrermos de fome antes", ela acrescentou para si própria.

- Ótimo. Faço votos para que tudo dê certo. - Ele soltou a mão de Holly, indicou-lhe uma cadeira e sentou-se também. Depois afrouxou a gravata e abriu uma pasta que se encontrava à sua frente. - Vou colocá-la a par dos fatos. Você é a única herdeira dos bens de Cora Kensington, de acordo com o testamento que ela deixou. A escritura da casa foi passada para seu nome e isto é tudo. - Ele franziu a testa ao examinar um documento manuscrito de duas páginas que retirara de uma das pilhas de papéis. - Você era filha única?

- Era a única neta de minha avó. Ela teve duas filhas gêmeas, mas uma morreu logo após o nascimento. Mamãe faleceu quando eu era muito pequena e papai casou-se novamente dezesseis anos atrás. Tenho dois meio irmãos.

- Ah, sim. Agora eu me recordo. Parece-me que Cora não se entendia bem com sua madrasta, não é?

- Essa é uma maneira muito branda de se colocar a situação. Velda sabia ser bastante... Agressiva - Holly respondeu, concluindo que ela também amenizara a realidade. Velda era uma verdadeira bruxa.

- Você tem algum contato com ela?

- Não a vejo há cinco anos, desde o enterro de meu pai. Nós nunca nos demos muito bem. - Holly baixou os olhos, sabendo que continuava abrandando a situação. Provavelmente Velda havia sido o fator mais importante em sua decisão de casar-se tão cedo, mais até do que a gravidez inesperada. Fora uma maneira de fugir do ambiente pesado de sua casa, das intermináveis brigas entre seu pai e a madrasta. O casamento deles fora um pesadelo, do início ao fim.

Ned Brown recostou-se na cadeira e cruzou os braços, fitando Holly com ar especulativo.

- E seus meio irmãos? Você tem notícia deles?

- Não. Nem sei por onde andam.

- Ótimo. - Ele sorriu; visivelmente satisfeito com as respostas que obtivera. - Sua avó tinha algumas preocupações em relação a eles e a sua madrasta. Segundo palavras de Cora, eles não passavam de sanguessugas e ela queria ter certeza de que não se aproveitariam de você ou de sua situação aqui. - Ele tornou a juntar os papéis e fechou

a pasta. - Bem, isto era tudo que eu tinha a lhe dizer. Tem alguma dúvida quanto ao testamento?

- Não, suas cartas foram muito claras. - Holly baixou os olhos, com um súbito aperto na garganta. - Quero lhe agradecer pelo que fez por minha avó. O fato de saber que o senhor estava por perto para cuidar de tudo deu a ela muita paz de espírito no fim da vida.

- Foi um prazer. Cora Kensington era uma mulher extraordinária. - Ele ficou pensativo por alguns instantes, como que perdido nas lembranças, então bateu as mãos sobre a escrivaninha e levantou-se. - Se tiver mais alguma pergunta ou se eu puder ser útil de alguma forma, telefone. Annie tem alguns documentos para você assinar e... Ah, sim, há a questão do dinheiro que sua avó tinha no banco. Annie cuidará disso também; ela está com a lista de todas as despesas do inventário. Pelo que me recordo, não sobrou muita coisa. Creio que cerca de trezentos dólares.

Trezentos dólares! Para Holly, aquele dinheiro era muito importante e ela esforçou-se para não deixar transparecer a sensação de alívio. Juntando com os quinhentos dólares que lhe restavam, teria reservas para aproximadamente dois meses. Nesse meio tempo poderia encontrar algum emprego. Com isso, adiava um pouco mais o momento de enfrentar um futuro que lhe parecia assustador.

- Ah, mais uma coisa! - disse o advogado no momento em que ela abria a porta para sair. - Todas as contas pendentes foram pagas, mas os impostos sobre a casa vencem no próximo mês. Você poderá verificar a situação com a Sra. Townsend, no escritório imobiliário.

Holly sentiu o estômago revirar. Nem mesmo pensara em taxas.

- O senhor sabe qual a quantia aproximada?

- Não sei ao certo. Por volta de quinhentos ou seiscentos dólares. Não deve ser mais do que isso.

Quinhentos ou seiscentos dólares! Como arrumaria esse dinheiro? Chocada, ela forçou uma expressão impassível e procurou sorrir.

- Obrigada novamente, Sr. Brown.

- Às suas ordens. Fale com Annie antes de sair e assine os papéis.

Holly saiu da sala com dificuldade para respirar. Onde conseguiria tanto dinheiro?

Descobriu mais tarde que a quantia exata era seiscentos e vinte e três dólares, a serem pagos até o dia primeiro do mês seguinte, isto é, dali a dezessete dias. O rosto de Holly estava sem cor ao deixar o escritório imobiliário. A Sra. Townsend deixara bem claro que deveria pagar a quantia total; não aceitariam parcelamento algum. Queriam tudo, dentro de dezessete dias. O choque foi cedendo aos poucos e, ao chegar ao caminhão, Holly sentia-se à beira das lágrimas. Abriu a porta, esforçando-se para controlar o desespero. Como iria arrumar todo aquele dinheiro?

- Ei, moça, sabe que está com um pneu furado?

Holly virou-se na direção da voz. Três homens vestidos em roupas de trabalho haviam acabado de sair do café e estavam parados na calçada. Um deles indicava o pneu traseiro da direita.

Um quarto homem saiu do prédio e juntou-se aos demais. Mesmo sem fitá-lo, Holly podia sentir seus olhos sobre ela. Sentindo-se constrangida, desceu do caminhão e deu a volta no veículo para verificar o estrago.

- Se tiver um macaco, posso trocar o pneu para você. Não vai demorar nem cinco minutos - ofereceu o homem mais velho, que a alertara para o problema.

Holly virou-se para responder, mas sem querer seu olhar se prendeu ao do homem que se juntara ao grupo por último e ela sentiu-se ainda mais tímida e embaraçada. Ele aparentava trinta e poucos anos; era alto, vigoroso, com um rosto forte e masculino. Mas Holly mal reparou no físico dele. O que a impressionou de fato foi à intensidade magnética daquele olhar. Nunca experimentara algo parecido com a sensação atordoante de fitar

aqueles olhos azuis. Holly estremeceu com o estranho arrepio que lhe percorreu a espinha.

Sua momentânea paralisia foi abalada quando o rapaz mais jovem do grupo, que devia ter uns vinte anos, disse algo em voz baixa que levou dois de seus companheiros a rirem. Ele estava olhando para Holly e ela logo soube, pela maneira como o rapaz a observava, que havia feito algum comentário malicioso. Ruborizada, Holly sentiu-se numa espécie de flashback: reviu os colegas de rodeio de Derek aparecendo em sua casa uma madrugada, dirigindo-lhe comentários grosseiros e sugestões obscenas, enquanto Derek permanecia deitado no sofá, o chapéu sobre os olhos, excitando-se com as investidas dos vaqueiros bêbados sobre sua esposa. Isso acontecera duas semanas antes de ele morrer e Holly nunca se esqueceria de como se sentira envergonhada.

De repente, experimentava de novo a mesma terrível sensação. Com tantos problemas na cabeça, aquilo era mais do que podia suportar. Procurando conter as lágrimas de humilhação, apertou os lábios e abriu o capô do caminhão.

- Posso cuidar disto sozinha, obrigada - ela disse, friamente.

- Isso não é trabalho para uma mocinha bonita como você.

Ela virou-se para o homem mais velho, trêmula de indignação.

- O problema é meu e posso muito bem trocar este pneu, sozinha.

O homem dos magnéticos olhos azuis a encarou com uma expressão tão dura que fez Holly estremecer. Era evidente que ficara muito zangado com a atitude dela.

- No caso de você não ter notado, a oferta de Mike foi um ato de cortesia. Ele não teve qualquer intenção de ofendê-la. Mas se você está preocupada em defender ideias feministas, então se vire! - Ele ajeitou o boné na cabeça e voltou-se para os companheiros: - Vamos embora.

Enquanto os homens se afastavam, Holly mirava fixamente um ponto de ferrugem na lataria do caminhão, os olhos nublados de lágrimas. Sabia que havia agido como uma tola. Interpretara a situação de forma totalmente errada e acabara recebendo o troco. Tinha vontade de apoiar a cabeça nas mãos e chorar. Não agüentava mais tanta pressão. Queria desistir de tudo, parar de angustiar-se a cada dia com a incerteza de não saber como sustentar os filhos. Sentia-se arrasada e tinha ímpetos de abandonar aquela luta desesperada pela sobrevivência, mas sabia que não podia fazer isso.

Apertando os lábios com força, enxugou lentamente as lágrimas. Depois, arregaçou as mangas da blusa e pegou o macaco.

Holly parou junto à porta, com uma xícara de café na mão, recebendo no rosto os primeiros raios de sol da manhã que mal começara. A cidade ainda estava silenciosa e ela perma-

neceu vários minutos observando o céu escuro clarearem num azul-pálido, enquanto as nuvens no horizonte tingiam-se de vários tons, do laranja à púrpura. Era tão lindo o alvorecer!

Ela suspirou e levou a xícara até os lábios. Passara metade da noite fazendo contas, tentando achar uma solução para o problema do imposto, mas a situação não lhe oferecia muita esperança.

Qualquer possibilidade que examinasse, desde vender algumas das coisas da avó até cortar despesas, á levava a um fato que era evidente: não podia mais manter o caminhão. O seguro venceria em dois meses, os gastos com combustível não cabiam em seu orçamento e os freios necessitavam de regulagem. Vender o veículo seria uma atitude sensata e necessária. Não gostava da idéia, mas não tinha outra escolha.

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