
Um Lugar Para Recomeçar
Capítulo 3
Ela afastou o cabelo do rosto e apoiou a cabeça na madeira fria da porta, com uma expressão desolada no olhar. Precisava estar sempre lembrando a si mesma os aspectos positivos de sua situação: a casa estava paga, as crianças tinham saúde e ela era capaz de trabalhar duro. Poderia ser pior.
Admirou o nascer do sol por mais alguns momentos e, então, seu olhar desviou-se para a rua tranqüila. A casa de sua avó era muito bem localizada. A rua em frente à
propriedade já fizera parte de uma auto-estrada, e, desde que a nova rodovia fora construída havia alguns anos, tornara-se a principal via de acesso à cidade. Não havia muitos sinais de desenvolvimento na região, dali à estrada de ferro: uma oficina reformada que exibia uma grande placa com os dizeres "O'Neil Veículos", um posto de gasolina, a velha estação ferroviária e um grande prédio que pertencia a um comerciante de implementos agrícolas. Mais para adiante, do outro lado dos trilhos, erguiam-se quatro enormes elevadores para grãos, que abasteciam os trens a caminho dos mercados consumidores.
Holly começava a se identificar com Jennings, uma típica cidade do sudoeste canadense, com a maior parte de sua economia baseada nas prósperas comunidades agrícolas que a cercavam. Era um lugar pequeno, com uma população gentil e hospitaleira, e contava ainda com a vantagem de ser próxima a uma cidade grande: Calgary ficava a apenas uma hora de viagem de carro, na direção sul.
As montanhas localizavam-se a pouca distância, e a paisagem da região era inacreditavelmente bela.
Uma vantagem extra era o fato de a casa ficar nos limites da cidade, com apenas duas outras residências ao norte dela. Nos fundos da propriedade havia uma depressão no terreno que formava uma divisão natural entre a cidade e os vários hectares de terra desabitada. Diversas árvores cresciam ao longo da borda da ravina e, no fundo dela, entre moitas de inúmeros matizes de verde, corria um fio de água, serpenteando sobre um leito rochoso.
Uma trilha estreita levava à propriedade do outro lado, e fora durante uma caminhada no primeiro dia em Jennings que Holly descobrira uma pequena casa de madeira meio escondida entre as árvores. Quando percebera que o local era habitado, decidira não avançar mais, embora se sentisse tentada. Era um lugar retirado e pitoresco, onde as plantas cresciam sem serem molestadas e flores silvestres espalhavam-se exuberantes. Havia também um laguinho, com suas águas cintilando ao sol quando a brisa suave lhe agitava a superfície. Holly ia com freqüência à ravina com os filhos e, enquanto as três criança brincavam, ela ficava sentada durante longos e silenciosos minutos sob uma enorme árvore, desfrutando a paz e a tranqüilidade que encontrara ali. Gostava de ir para lá principalmente ao alvorecer, quando o sol começava a surgir no céu e o lago ensombreado refletia as plantas molhadas de orvalho. Para ela, aquele ambiente era pura mágica.
O relógio de pêndulo bateu sete horas e Holly ouviu distraída o som melodioso, imaginando se as crianças demorariam a acordar. Há tanto tempo levantavam-se com ela ao romper da manhã que não costumavam mais dormir até muito mais tarde.
De fato, haviam enfrentado uma dura e ingrata rotina. Fora logo após Megan nascer que Derek, finalmente, arrumara um emprego fixo numa fazenda em Manitoba. Haviam se mudado para a casa apertada que era cedida aos trabalhadores locais assim que Holly saíra da maternidade. Por pior que fosse, era o primeiro lar de verdade que conseguiam ter.
Ela sentira-se tão esperançosa com o emprego, convencida de que Derek se daria bem ali.
Mas em seis meses ele já se desinteressara pelo trabalho e retornara aos eternos rodeios. As únicas ocasiões em que permanecia na fazenda eram durante o plantio e a colheita; no restante do tempo, a responsabilidade pelas tarefas recaía sobre Holly. Felizmente para ela e as crianças, Stan Rogers, seu patrão, não se importava muito com quem se encarregava do trabalho, desde que este fosse feito. Foi um tempo difícil, em que precisava levantar de madrugada para alimentar o gado, limpar os celeiros, recolher grãos, porém era a única maneira de garantir casa e comida para sua família. O salário mal dava para vestir e alimentar a todos, mas pelo menos conseguiam sobreviver, e era isso que importava para Holly.
Então, descobrira que Derek vinha dormindo com a esposa do patrão desde que haviam se mudado para lá e pensou que iria enlouquecer. Nunca se sentira tão amargurada em sua vida.
Quatro meses depois, Derek aparecera bêbado num rodeio e insistira em fazer sua prova de qualificação para a disputa num dos touros mais ferozes e rápidos que se en-contravam disponíveis.
Seu marido, que continuava perseguindo sonhos e apostando na sorte grande, fora atirado para longe do animal logo no início da prova e morrera em questão de segundos.
Stan permitira que ela ficasse na fazenda pelo menos até receber o pequeno seguro de vida a que tinha direito. Mas então ele descobrira sobre Derek e sua esposa e dissera a Holly, numa entrevista humilhante para ela, que dirigia uma fazenda e não uma casa de caridade e que ela tinha o prazo de um mês para sair de lá. Felizmente o seguro fora liberado dentro desse prazo, ou ela teria de partir sem um centavo no bolso.
- O que foi mamãe?
Holly virou-se e encontrou Trevor fitando-a com ar intrigado.
- Nada, querido - ela respondeu, sorrindo. - Só estava pensando.
- No papai?
- Sim, no seu pai - ela confirmou; um pouco hesitante. Observou o filho em silêncio, atenta. Ficara preocupada pelo fato de os meninos terem demonstrado tão pouco sofrimento pela morte do pai. Na verdade, Derek nunca havia sido duro com os garotos. Deixava que fizessem tudo o que tivessem vontade. Felizmente para Holly, Derek ficava tão pouco em casa que ela tivera oportunidade de contornar a excessiva permissividade dele, conseguindo que as crianças desenvolvessem um sólido senso de responsabilidade.
Megan, por outro lado, queria desesperadamente agradar o pai, embora ele sempre houvesse deixado bem claro que não a suportava. Vivia chamando a filha de bebê mimado e essa rejeição tornara a menina tímida e insegura. Era estranho como os sentimentos se desenvolviam, Holly pensou. Apesar de tudo, Megan era quem mais sentia falta do pai. Os meninos, principalmente Trevor, haviam reagido à morte de Derek com uma emoção semelhante a ódio, como se aquilo houvesse sido mais uma decisão do pai para aborrecê-los.
Holly entrou na sala, colocou a xícara sobre a mesa e agachou-se em frente ao filho.
- Você sente falta dele, Trevor?
- Não - o menino respondeu, sacudindo a cabeça e baixando os olhos.
- Não há nada de mal em conversar sobre isso - e pousou o queixo sobre as mãos.
- Não sinto falta dele, mamãe - Trevor repetiu, encarando-a. - Ele só fazia você sofrer e eu não suportava isso. - O garoto enxugou rapidamente uma lágrima antes de prosseguir: - Estou contente por termos mudado para cá. Ninguém vai rir de nós dizendo que temos um pai que só serve para se exibir em rodeios. Será muito melhor, mamãe.
- Não vai ser fácil, Trev - Holly murmurou, abraçando-o. - Haverá ocasiões em que não teremos muito dinheiro.
- Eu sei.
- Eu amo você, querido. - Ela o segurou mais algum momento depois se afastou e o encarou com uma expressão séria. - O que Ryan pensa de tudo isso?
- Ele pensa como eu. Dá um pouco de medo mudar para um lugar novo, mas é emocionante também. É como começar a ler um livro de aventuras: a gente nunca sabe o que vai acontecer. Quando a gente morava na fazenda, era sempre a mesma coisa.
- Bem, acho que este livro vai ser mesmo interessante - Holly comentou, sorrindo.
A tarde já chegava ao fim quando Holly resolveu fazer uma pausa no trabalho de limpeza e arrumação da casa. Deixou as crianças brincando no pátio e desceu a rua na direção da residência de Liz Crawford. Acabara de entrar no jardim e fechar o portão quando Eric surgiu pela porta lateral, seguido por outra pessoa.
Holly quase ficou sem ar ao reconhecer o estranho: era o mesmo homem que se zangara com ela na véspera, por causa do episódio com o pneu furado. Ela parou no mesmo instante constrangida. Por que não tivera o bom senso de manter a boca fechada? Prendendo a respiração, permaneceu imóvel, parcialmente escondida atrás das plantas, até os dois sumirem de vista. Só se arriscou a sair do lugar após ouvir o carro de Eric afastar-se. Encontrou Liz na cozinha, fazendo pão.
- Como vai, Holly? Há café fresco na garrafa térmica. Sirva-se e fique à vontade enquanto me conta o que Ned lhe disse ontem.
- Nada especial. Ele me chamou ao escritório porque eu precisava assinar alguns papéis - Holly contou, omitindo o problema dos impostos.
- Ned é um bom homem. Pode confiar na honestidade dele.
- Ele me pareceu simpático. - Ela tomou um gole de café e pousou a xícara sobre a mesa. Tentando disfarçar a ansiedade, respirou fundo antes de prosseguir: - Quero vender meu caminhão. Será que Eric sabe de alguém que possa estar interessado?
- Vender seu caminhão? Por quê?
- Eu não tenho condições de mantê-lo - Holly respondeu, procurando não demonstrar a real seriedade do problema. - Posso muito bem ficar sem ele.
Liz a fitou por um instante, depois suspirou e retomou o trabalho de amassar o pão.
- Tenho certeza de que Eric pode encontrar alguém que esteja interessado. Falarei com ele sobre isso.
- Obrigada. - Holly tomou mais um gole de café antes de fazer a pergunta que a incomodava desde que entrara na casa de Liz! - Eric estava saindo quando eu cheguei. Quem era o homem que estava com ele?
- Ah, sim! - Liz riu, com um brilho travesso nos olhos. - É Grady O'Neil, o proprietário da O'Neil Veículos, aquela oficina quase na frente da sua casa. O chalé de madeira naquela clareira do outro lado da ravina também é dele. É o homem mais sexy que eu já encontrei. Toda vez que o vejo sorrir fico com as pernas moles.
- É mesmo? - Holly perguntou, rindo. - E o que Eric acha dessa sua paixão?
- Ah, isso eu não sei. Mas ele vive dizendo a Grady que vai arrumar-lhe alguma garota só para mantê-lo longe da nossa cozinha! - Liz sorriu, espalhando mais farinha sobre a massa. - Eles se conhecem desde o tempo de escola e a O'Neil Veículos trabalha para a Construções Crawford em vários locais. Eric e Grady são grandes amigos.
Holly ouvia com uma aparência relaxada, mas por dentro sentia-se cada vez mais tensa. Ele trabalhava em frente á casa dela, vivia atrás de sua propriedade. Estava cercada por esse homem que fazia as pernas de Liz amolecer e pensava que ela era uma feminista idiota. Mais dias menos dia acabariam se encontrando e essa idéia não a agradava nem um pouco.
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