Capa do romance A Amante Secreta, A Desgraça Pública

A Amante Secreta, A Desgraça Pública

9.7 / 10.0
Após um atropelamento fatal, meu marido tentou me subornar com cem mil reais para silenciar a morte do meu pai. Ele protegeu a amante grávida, a verdadeira culpada, tratando-me com desprezo e crueldade financeira. Ele acreditava que eu era fraca e manipulável, pronto para me destruir no tribunal com mentiras. Contudo, um detalhe crucial mudou tudo: a vítima não era meu pai, mas sim o pai dele. O jogo virou e sua arrogância será sua própria ruína.

A Amante Secreta, A Desgraça Pública Capítulo 1

Meu sogro foi morto em um atropelamento com fuga. Mas a primeira coisa que meu marido disse na sala de espera do hospital não foi sobre sua dor. Foi sobre dinheiro.

"Aceite os cem mil reais, Eva. Seu pai não valia mais do que isso."

Ele achava que o homem deitado no necrotério era o meu pai. Ele me entregou um acordo que o pintava como um golpista que tinha forjado o acidente para arrancar uma grana.

Eu recusei. Ele se tornou um monstro, me ameaçando antes de cortar todo o meu dinheiro. Logo descobri o porquê: a motorista era sua amante grávida, e tudo isso era um encobrimento desesperado para protegê-la. Ele estava disposto a destruir a minha família para salvar a nova família dele.

Ele me chamou de fraca e sentimental, um estorvo emocional que ele poderia controlar facilmente. Ele tinha certeza de que poderia me quebrar e comprar meu silêncio.

No tribunal, o advogado dele apresentou o acordo, pronto para me pintar como uma mentirosa gananciosa e instável. Mas então a juíza pigarreou para fazer o anúncio formal.

"O falecido é o Sr. Gilberto Mendes."

Não era o meu pai naquela maca do IML. Era o dele.

Capítulo 1

Eva Matos POV:

A primeira coisa que meu marido disse depois que o pai dele foi morto em um atropelamento com fuga não foi "Como isso pôde acontecer?" ou "Meu Deus, meu pai", mas sim "Aceite os cem mil reais, Eva. Seu pai não valia mais do que isso."

Eu o encarei. As palavras não faziam sentido. Elas flutuavam no ar viciado da sala de espera do hospital, absurdas e afiadas, como fragmentos de vidro quebrado.

"O que você disse?", perguntei, minha voz um sussurro seco.

"Cem mil reais", repetiu João Carlos, seu tom impaciente, como se estivesse explicando algo simples para uma criança. "É uma oferta justa. Generosa, até, considerando as circunstâncias."

Minha mente era uma névoa de luto e choque. Apenas uma hora atrás, eu estava ajoelhada no asfalto frio e molhado pela chuva, minhas mãos pairando inutilmente sobre o corpo imóvel e quebrado de um homem que eu amava como um pai. O cantar dos pneus, o baque horrível, a visão de um sedã escuro acelerando na noite — tudo se repetia em um loop nauseante. Agora, meu marido, o homem que deveria ser minha rocha, estava falando de dinheiro.

"Cem mil?", repeti eu, o número com gosto de cinzas na minha boca. "João Carlos, um homem está morto."

"Eu sei", ele retrucou, o maxilar tenso. Ele passou a mão por seu cabelo escuro perfeitamente penteado, um gesto de irritação, não de angústia. Ele usava o mesmo terno caro que vestira para o tribunal naquela manhã, a imagem do sucesso polido, completamente alheio à tragédia que se desenrolava ao nosso redor.

"Não era apenas um homem", eu disse, minha voz tremendo. "Era o Gilberto. Era o seu pai."

Eu precisava fazê-lo entender. Gilberto. O viúvo gentil e de bom coração que criou João Carlos sozinho depois que sua esposa faleceu. O homem que ensinou nosso filho, Léo, a pescar. O homem que aparecia na nossa porta todo domingo com um sorriso caloroso e uma caixa de pão de queijo, seus olhos brilhando enquanto perguntava sobre nossa semana.

Ele tinha sido o mundo inteiro de João Carlos por tanto tempo.

O olhar de João Carlos vacilou com aborrecimento. "Eva, não vamos ser sentimentais agora. Isso é uma questão prática."

"Prática?" A palavra foi um tapa na cara. "Seu pai está deitado em um necrotério lá embaixo, e você está falando de praticidade?"

"Precisamos ser espertos sobre isso", ele insistiu, baixando a voz e se inclinando para mais perto. O cheiro familiar e caro de seu perfume encheu minhas narinas e, pela primeira vez, me deu enjoo. "A motorista... ela é jovem. Assustada. Foi um acidente trágico, mas arrastar isso pelos tribunais só vai causar mais dor para todo mundo. Este acordo é a maneira mais limpa de encerrar este capítulo."

Eu balancei a cabeça, tentando limpar o zumbido em meus ouvidos. "Eu não entendo. Quem está oferecendo um acordo? Por que é você quem está me dizendo isso? A polícia disse..."

João Carlos me cortou, sua paciência se esgotando. Ele me empurrou um maço de papéis, presos a uma pasta de couro. "Apenas leia, Eva. Está tudo aí. Um acordo padrão e quitação. Você assina, nós pegamos o dinheiro, e todo esse pesadelo acaba."

Minhas mãos estavam dormentes quando peguei os documentos. Meus olhos percorreram o jargão legal, as letras pretas e frias se embaralhando. Então, uma frase saltou aos meus olhos.

"...o falecido, Francisco Escobar, que ao se lançar no trânsito sem considerar sua própria segurança, contribuiu para o infeliz incidente..."

Francisco Escobar.

O nome do meu pai.

O ar saiu dos meus pulmões em uma golfada dolorosa. Foi como ser mergulhada em água gelada. Meu sangue gelou, e o luto que tinha sido um pesado manto ao meu redor foi subitamente perfurado por uma clareza horrível e aguda.

"Fraude de seguro?", sussurrei, lendo outra linha. O documento alegava que a vítima era um oportunista conhecido que já havia tentado golpes semelhantes antes. Pintava o retrato de um velho desesperado e conivente tentando arrancar uma grana.

Era o retrato de um monstro. Era uma descrição do meu pai.

"João Carlos", eu disse, minha voz perigosamente baixa. "Você viu a filmagem da câmera do carro?"

Ele zombou, um som desdenhoso e feio. "Eu não preciso. Eu conheço seu pai, Eva. Eu venho pagando as contas dele há anos. O homem era um buraco negro financeiro. É realmente tão surpreendente que ele tentaria algo assim?"

Cada palavra era uma martelada. Ele não estava falando de seu próprio pai. Ele achava que o homem morto, o homem que ele estava tão ansioso para caluniar e vender por uma quantia insignificante, era o meu.

"Ele morava em um apartamento pequeno na Aclimação, João Carlos", eu disse, minha voz tremendo com uma raiva tão profunda que me assustou. "Um apartamento que ele e minha mãe compraram depois de vender a casa da família — a casa que eles venderam para que você pudesse ter o capital para começar seu escritório de advocacia."

Seu rosto escureceu. "Não se atreva a jogar isso na minha cara. Aquilo foi um investimento. E não é essa a questão. A questão é que ele se foi. É triste, sim, mas também é... um alívio. Chega de contas médicas surpresa, chega de 'empréstimos' que nunca são pagos. Esta é uma chance para um recomeço, para você, para nós."

As pessoas na sala de espera começaram a nos encarar. Uma enfermeira olhou com pena. Meu luto, que tinha sido cru e agonizante, estava se cristalizando em outra coisa. Algo duro, frio e pesado. Era o peso de uma verdade terrível.

"Então ele não é mais meu pai?", perguntei, minha voz neutra.

João Carlos pareceu confuso com a pergunta. Ele suavizou a expressão, colocando a mão no meu braço. Foi um gesto calculado, do tipo que um advogado usa para apaziguar um cliente difícil. "Eva, querida, eu sei que isso é difícil. Você está em choque. Mas pense nisso. Cem mil reais. Não é nada. Podemos colocar na poupança para a faculdade do Léo. Pense nisso como... um último presente dele."

Um último presente. Ele queria que eu pegasse dinheiro sujo pelo homem que ele pensava ser meu pai, um homem cujo único crime foi amar sua filha o suficiente para sacrificar tudo por sua felicidade, e enquadrar isso como um presente de despedida.

Uma calma estranha e arrepiante tomou conta de mim. Olhei para meu marido — este homem ambicioso, bonito e completamente sem alma — e o vi pela primeira vez. Ele não via uma filha de luto. Ele via um incômodo, um obstáculo a ser gerenciado.

Ele viu uma oportunidade.

E naquele momento, eu entendi tudo. O caso. Os segredos. A frieza que se instalara em nosso casamento. Não era apenas uma fase ruim. Era uma podridão que ia direto ao osso.

"E a família, João Carlos?", perguntei, minha voz carregada de uma ironia sombria e amarga que ele era egocêntrico demais para detectar. "Isso não significa nada para você?"

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