Capa do romance BRUCE

BRUCE

8.1 / 10.0
Daniel personifica a gentileza e a beleza em um homem mais maduro e experiente. Estou convicta de que encontrei o grande amor da minha vida e o parceiro ideal. Contudo, nossa relação enfrenta um obstáculo delicado e complexo que pode mudar tudo: ele é o melhor amigo do meu pai. Agora, preciso lidar com essa conexão inesperada enquanto tento entender se esse sentimento é recíproco, apesar da diferença de idade e do vínculo familiar envolvido.

BRUCE Capítulo 1

Quando se é criada em uma gaiola de ouro, como eu fui, as coisas fora da gaiola tornam-se mais interessantes. Você se pergunta o que há lá fora, e quer viver tudo que puder viver. Mas existe um limite bem demarcado, e você jamais poderia ultrapassá-lo. Este limite, para mim, é a posição social do meu pai.

O presidente do país, e um dos homens mais ricos da cidade, se não o mais rico. O tipo de cara que ama apenas seu dinheiro, e, eventualmente, sua única filha. Há quem diga que ele preferiria ter um filho, mas se contentou em ter uma garota e poder moldá-la de acordo com sua vontade.

Eu não o culpo. Sei que as regras são mais rígidas para pessoas como nós. Mas, as vezes, eu gostaria de não ter nascido como uma Donneli. Mesmo depois da maioridade, as regras não mudam.

- Srta. Campbell – Peter chama.

Ele é meu motorista desde que eu me entendo por gente. Com seus cabelos grisalhos, bigode bem-feito e pele levemente enrugada, ele deve estar trabalhando para minha família desde que era um garoto. Mas, claro, eu nunca perguntei. Que Deus livre meu pai de ter sua filha conversando amenidades com o motorista.

- Sim – respondo.

- Chegamos – ele diz, e algo em seu tom me faz perceber que ele já disse isso outras vezes, e eu apenas não ouvi.

Eu olho para fora da janela fechada. Estamos no Bronx, um dos bairros mais pobres de Nova Iorque, diante de um dos inúmeros prédios abandonados. Os tijolos são visíveis, e algumas plantas crescem ao redor da construção sem vida.

Minha mãe era responsável por uma organização que reconstruía construções abandonadas e destinava aos moradores de rua. Quando ela faleceu, seus projetos foram deixados de lado. Meu pai era ocupado demais para cuidar disso, então, no ano passado, eu decidi dar continuidade. Este é o primeiro prédio no qual quero trabalhar.

Marcos é meu segurança pessoal, e está ao lado de Peter no banco passageiro. Ele desce do carro e abre a porta para mim, mas não antes de verificar ao redor do perímetro.

Não surpreendentemente, há um carro atrás e afrente do nosso, com quatro seguranças em cada. Todos descem e montam guarda ao redor do prédio.

- O prédio foi revistado nesta manhã, senhorita – Marcos informa.

Eu sei que, para Marcos, o melhor seria que eu nunca colocasse os pés no Bronx. No entanto, apesar de aceitar todas as ordens que diariamente ele repete para minha segurança, gosto de ser uma adulta com vontade própria.

Marcos lidera o caminho para dentro da construção de vinte andares. Estou certa de que ele conhece tudo como a palma de sua mão. Eu o sigo.

Subimos os poucos degraus até a porta de madeira da entrada, que está apodrecendo. Marcos abre e segura a porta para mim. O lado de dentro é ainda mais miserável do que o externo. Há um corredor extenso, com uma escada no final e quatro portas nas laterais.

Sem esperar por Marcos, caminho até a escada e começo a subir. A escada não tem iluminação, e rapidamente sinto falta do dia ensolarado lá fora. Os degraus estão sujos, mas graças a Deus eu optei por tênis e calça jeans, assim não preciso me preocupar com minha roupa.

- Srta. Donneli – Marcos chama minha atenção para que eu o espere, no entanto, ignoro. Ele pode me alcançar se correr um pouquinho.

Chego ao segundo andar e tenho a opção de explorá-lo ou continuar subindo. Escolho a segunda, afinal, são vinte andares, e estou curiosa para ver o terraço. Dizem que este prédio tem uma visão privilegiada, por ser um dos mais antigos no gueto.

- Srta. Donneli – Marcos grita, e percebo que sua voz está ficando distante – Os últimos andares não são seguros!

Suas palavras fazem meus pés correrem ainda mais em direção ao terraço. Marcos deveria saber que me privar de algo é quase como me obrigar a fazer. E eu tenho uma vantagem; ele precisa verificar todos os andares enquanto eu sigo na mesma direção.

- Angelic! – ele grita, e sua voz reverbera por quase todos os tijolos.

Com uma breve corrida, chego ao vigésimo andar. Me encosto contra uma parede para tomar fôlego. Sou sedentária demais para estas aventuras. Falta apenas um lance de escadas para chegar ao terraço.

Subo os degraus que faltam e abro a porta de acesso ao terraço, que está encostada. O lugar é velho como o restante do prédio, porém com visão para Nova Iorque quase inteira. Apesar de não ser um prédio alto, não é mal localizado.

Dou alguns passos afrente, e então encontro alguns objetos à direita. Um telescópio montado apontando para algum lugar no centro da cidade, uma mala preta fechada e um copo de café.

Me aproximo do telescópio e coloco o aparelho perto do meu olho, para saber o que a pessoa que o colocou aqui estava observando. O equipamento é profissional, pois a visão é nítida e de longo alcance. Na verdade, melhor do que qualquer um que eu tenha visto em toda minha vida. Curiosamente, a visão que tenho é do palco na Wall Street, que está sendo montado para o pronunciamento oficial do presidente, que acontecerá em dois dias.

Um tanto quanto assustada, me afasto. Vejo que o café ainda está fumegante, o que significa que o observador não está longe.

O evento será voltado para meu pai. Quem quer que tenha colocado este telescópio aqui, está se preparando para o dia do evento, mas por quê? Para proteger ou atacar?

Não muito surpreendentemente, existe uma lista com os nomes das pessoas que podem estar ao meu lado. São as pessoas confiáveis, aos olhos do meu pai, e minimamente parecidas comigo. Meninas que estudam outras línguas, têm pais exigentes, tocam instrumentos e leem mais de um livro por mês. Como eu disse, minimamente.

E dentre os poucos nomes nesta lista, está Genevieve Parker; uma loira Barbie com a educação de uma princesa. Bem, pelo menos é isso que os pais dela pensam. Eu quero estar bem longe quando eles descobrirem o que Genevieve fazia com nosso professor de História Musical.

Não demora muito para ela sair de sua casa, seguida por seu próprio segurança até o carro onde estou. Vive está vestindo um sobretudo rosado, o que é completamente inexplicável nesta tarde quente. Mas é ela, então tudo fica lindo em seu corpo.

Seu segurança abre a porta do Rolls Royce, e eu me afasto para lhe abrir espaço. Vivi adentra o carro, e assim que a porta é fechada novamente, Peter dá partida. Ele aperta um botão no painel e, em seguida, um vidro escuro sobe entre os bancos traseiros e dianteiros.

A regra é clara: se dissermos algo comprometedor, Peter tem a obrigação de contar ao meu pai. Mas ele nunca cumpriu esta regra. Eu e Genevieve sempre falamos sobre as mais altas barbaridades, e nunca fomos deduradas. Isso sempre me fez pensar que Peter gosta de mim. Ou talvez ele apenas tenha pena do que vai me acontecer caso meu pai saiba que eu detesto as missas de sexta-feira.

- Eu não estava suportando a saudade de você – Vivi diz, depois se lança em minha direção para um abraço.

- Eu também senti saudades.

- Ainda bem que as férias terminaram. Estou ansiosa para segunda.

A maior parte dos adolescentes daria a vida para não ter que ir para a escola. E, no nosso caso, uma escola católica. Mas eu e Vivi daríamos a vida para não ter que passar o dia sendo produtivas e, no fim de semana, ter que estar de joelhos em uma igreja. E não se engane, eu não odeio a igreja. Eu odeio ter que ir três vezes por semana, mesmo não tendo certeza sobre minha religião.

- Ansiosa para a aula, ou para o Sr. Bueno? – sussurro. Porque mesmo que eu confie em Peter, não posso arriscar que ele saiba sobre o caso de Genevieve e o professor.

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