
Traição no Altar: O Resgate de Laura
Capítulo 2
Eu vou destruir o Ricardo, no dia mais importante da vida dele, no dia do seu casamento.
Essa ideia não surgiu de repente, ela foi se formando lentamente, como veneno se acumulando nas minhas veias, gota a gota, durante os últimos três anos.
Hoje, essa ideia finalmente tomou uma forma sólida e clara.
Ricardo me encarou, sua testa franzida em desagrado, a voz carregada de uma impaciência que ele mal se dava ao trabalho de esconder.
"O que deu em você, Laura? Anda estranha o dia todo."
Eu dei de ombros, mantendo meu olhar fixo no copo de uísque na minha mão, o gelo batendo suavemente contra o vidro.
"Nada. Só estou cansada."
"Cansada?", ele bufou, um som de puro desdém. "Você não tem o direito de estar cansada. Eu te dou tudo, você só precisa fazer o que eu mando."
A frieza na sua voz era comum, uma constante na nossa relação, mas hoje ela parecia diferente, mais afiada. Eu não senti a dor de sempre, em vez disso, senti uma calma gélida se espalhar pelo meu peito. Era a calma da decisão, a tranquilidade de quem já escolheu um caminho e não vai mais voltar atrás.
Do outro lado da sala, perto da lareira, ouvi dois dos homens de Ricardo cochichando. Eles tentavam ser discretos, mas a tensão no ar tornava cada sussurro audível.
"O chefe está pegando pesado com ela de novo", disse um deles, um cara chamado Miguel, que sempre me tratou com um respeito relutante.
"Ele está cego pela novata", respondeu o outro, Carlos. "Acha que pode simplesmente descartar a Laura como se ela não fosse nada. Ele esquece que foi ela quem segurou as pontas quando tudo quase desabou."
O comentário deles era um eco dos meus próprios pensamentos, uma validação externa da injustiça que eu sentia na pele. Por anos, eu fui o braço direito de Ricardo, sua estrategista, sua soldado. Eu construí este império ao lado dele, nesta ilha isolada que ele comprou como seu reino particular. Eu lutei por ele, sangrei por ele, e agora... agora eu era apenas um obstáculo.
Ricardo não ouviu seus homens, ou se ouviu, não se importou. Seus olhos estavam fixos em mim, avaliando, calculando. Então, ele se virou para seu assessor mais próximo, um homem liso e bajulador chamado Jonas, e sua voz baixou para um tom conspiratório, mas ainda alto o suficiente para que eu ouvisse.
"Ela já deu o que tinha que dar", disse Ricardo, com uma crueldade casual que me revirou o estômago. "É leal, eficiente, mas está desgastada. A Júlia... a Júlia tem fogo, tem ambição. Ela é o futuro. A Laura é só uma relíquia do passado."
Júlia. O nome dela soou como um insulto. A garota nova, a amante que ele mal tentava esconder, a mulher que ele planejava colocar no meu lugar, em todos os sentidos.
"E o que o senhor vai fazer com ela?", perguntou Jonas.
Ricardo sorriu, um sorriso que não alcançou seus olhos.
"Vou usá-la uma última vez. Depois, ela pode tirar umas férias permanentes."
Aquelas palavras foram a sentença final. O último fragmento de lealdade, de afeto, de esperança que eu ainda nutria por ele se estilhaçou, virando pó. Eu não precisei ouvir mais nada.
Terminei meu uísque em um gole só, o líquido queimando minha garganta, mas a dor era bem-vinda, era real. Coloquei o copo na mesa com um clique suave e me levantei. Meus movimentos eram deliberados, calmos.
Por fora, eu era a imagem da compostura. Por dentro, a guerra já havia sido declarada.
Ricardo e Jonas pararam de falar e me olharam, surpresos pela minha ação súbita.
"Onde você vai?", Ricardo perguntou, a desconfiança manchando sua voz.
Eu me virei para ele, e pela primeira vez em muito tempo, eu o olhei nos olhos sem desviar. Eu deixei que ele visse o vazio ali, o deserto que ele mesmo havia criado.
"Vou para o meu quarto", eu disse, minha voz nivelada, sem emoção. "Estou cansada, como eu disse."
Sem esperar por uma resposta, eu dei as costas a ele e saí da sala. Cada passo era firme, pesado com o peso da minha decisão. Ele não sabia, mas naquele momento, ele não estava apenas olhando sua subordinada sair. Ele estava olhando para a arquiteta de sua ruína se afastar para começar a trabalhar.
A vingança não seria impulsiva. Seria calculada, fria e absoluta. E começaria agora.
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