
Traição no Altar: O Resgate de Laura
Capítulo 3
Na manhã seguinte, Ricardo me chamou ao seu escritório. A sala era grande e imponente, com uma parede de vidro que dava para o mar agitado. Ele estava sentado atrás de sua enorme mesa de mogno, parecendo o rei em seu castelo.
"Tenho um trabalho para você", ele disse sem rodeios, sem nem mesmo um "bom dia". "Há um grupo de contrabandistas operando no setor norte da ilha, estão interferindo nos meus negócios. Quero que você vá até lá e resolva isso. Seja... persuasiva."
"Persuasiva" era o eufemismo de Ricardo para violência. Era uma tarefa perigosa, do tipo que ele costumava me dar no início, para testar minha coragem. Agora, era apenas um recado.
Ele fez uma pausa, seus dedos batendo um ritmo irritante na mesa.
"E mais uma coisa. Quando você voltar, quero que o seu quarto esteja vazio. A Júlia vai se mudar para lá. É maior e tem uma vista melhor."
Aí estava. A ordem direta, a humilhação final. Ele não estava apenas me substituindo em sua cama e em seus negócios, ele estava me apagando fisicamente de sua vida, me expulsando do espaço que eu chamei de lar por anos.
Uma risada amarga borbulhou dentro de mim, mas eu a sufoquei. Que idiota. Que homem cego e arrogante. Ele realmente acreditava que eu era tão dispensável, tão fácil de controlar? Ele estava tão encantado por sua nova conquista, pela "ambição" e pelo "fogo" de Júlia, que não conseguia ver a tempestade se formando bem debaixo de seu nariz.
"Ricardo", eu comecei a dizer, mas ele me interrompeu, levantando uma mão.
Ele se levantou e veio até mim, seu rosto se suavizando em uma máscara de falsa preocupação. Ele colocou as mãos nos meus ombros, um gesto que antes me confortava e agora me causava repulsa.
"Laura, meu amor, eu sei que isso é difícil", ele disse, sua voz um murmúrio sedutor. Era a mesma tática de sempre, a manipulação emocional que ele usava para me manter na linha. "Mas pense nisso como um novo começo. É para o nosso bem, para o bem dos negócios. Você sabe que eu sempre cuido de você, não sabe? Sempre cuidei."
Mentiroso. Ele nunca cuidou de mim. Ele cuidou do ativo valioso que eu representava. A repetição era parte do seu padrão, ele dizia as mesmas frases, as mesmas promessas vazias, como se pudessem apagar a realidade de suas ações. Eu senti um cansaço profundo, não do meu corpo, mas da minha alma. Um cansaço de anos de desculpas e mentiras.
Eu me afastei de seu toque, um movimento pequeno, mas significativo. Fui até minha bolsa, que eu havia colocado em uma cadeira, e tirei uma pasta de dentro.
"Claro, Ricardo", eu disse, minha voz surpreendentemente calma. Eu caminhei de volta para a mesa dele e coloquei a pasta na sua frente. "Eu entendo perfeitamente."
Ele me olhou, confuso.
"O que é isso?"
"O que você me pediu para preparar há algumas semanas", expliquei. "Os documentos para a transferência de alguns ativos para uma nova conta. E também, o meu formulário de saída da ilha. Precisa da sua assinatura final."
Seus olhos se arregalaram ligeiramente quando ele viu o segundo documento, o pedido de desligamento oficial, o formulário para me permitir deixar a ilha, algo que ninguém fazia sem sua permissão explícita. Peguei a caneta de prata de seu porta-canetas e a coloquei em cima dos papéis, oferecendo-a a ele.
Minha caligrafia no formulário era firme, sem um único tremor. Aquele pedaço de papel, aquela simples "guia de retirada" da minha própria vida, era mais poderoso do que qualquer arma que eu já havia empunhado para ele.
Ele olhou do papel para o meu rosto, procurando por algum sinal de hesitação, de blefe. Ele não encontrou nada.
De repente, uma lembrança me atingiu com a força de um soco. Eu me lembrei de uma noite, anos atrás, sentados nesta mesma praia, sob as estrelas. Ele tinha me abraçado e dito: "Um dia, Laura, tudo isso será nosso. Esta ilha, este poder. Nós construímos isso juntos, e vamos governá-la juntos."
Na época, eu acreditei nele. Eu acreditei em cada palavra. Agora, olhando para o rosto dele, para a confusão calculista em seus olhos, eu vi a verdade. Nunca foi "nosso". Sempre foi "dele". E eu era apenas mais uma peça em seu tabuleiro, uma peça que ele estava prestes a sacrificar.
A dor daquela percepção foi avassalaladora, mas também libertadora. O passado era uma mentira, e isso significava que eu não devia mais nada a ele. Minha lealdade estava morta e enterrada.
Ele pegou a caneta, ainda me encarando.
"Você não vai a lugar nenhum", ele disse, sua voz baixa e ameaçadora.
Eu dei um pequeno sorriso, o primeiro sorriso genuíno em muito tempo.
"Vou resolver o problema no setor norte, como você pediu", eu disse. "Depois disso... vamos ver."
Eu me virei e saí de seu escritório, deixando-o ali com a caneta na mão e uma escolha a fazer. Ele achava que ainda estava no controle. Ele não poderia estar mais enganado. O jogo havia mudado, e ele nem sequer havia percebido.
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