
Todo o amor que habita em nós
Capítulo 2
Aline.
— Vai amiga, a gente nunca teve segredos, conta logo! – Elis fala pela milésima vez
— Já falei que não tem nada, você que enxerga coisa onde não tem – Falo irritada
— Vou perguntar pra ele então – Ela fala e eu reviro os olhos
— Fica a vontade, santa casamenteira – Gargalhamos juntas
— Você que pediu o garoto em casamento, agora aguenta.
— Pelo amor de Deus, Elis, foi uma B R I N C A D E I R A – Soletro — Sabe o que é isso?
— Sei, mas ainda vou ver vocês casados e com quatro filhos.
— Eu queria cinco, mas pelo visto não vou ter nenhum — Respondo triste e ela me abraça
— Amiga, você só tem 17 anos, muita coisa pode acontecer até lá, então relaxa. – Elis me oferece seu costumeiro sorriso cumplice
Desde a minha primeira menstruação eu senti cólica a ponto de quase desmaiar de dor, isso durou uns dois ciclos, aí minha mãe me levou ao ginecologista e descobrimos que eu tenho SOP, além de uma má formação no útero, que tem um formato que dificulta a gravidez, então ainda que a SOP não existisse ainda seria difícil, com os dois problemas aliados é quase impossível.
Deve parecer estranho uma menina de 17 anos pensar em gravidez, e sinceramente eu queria ser desprendida igual a Elis, que fala abertamente que não nasceu pra ser mãe, mas eu não, eu fui filha única e sempre fomos apenas mamãe e eu. Várias e várias vezes eu a sentia triste pelos cantos porque não havia ninguém além de mim pra dividir com ela as preocupações, e eu sei que se eu tivesse mais irmãos as coisas seriam mais fáceis, então eu sempre falei que quando eu crescesse, casaria e teria cinco filhos, era realmente isso que eu queria, mas pelo visto não é o que o destino quer pra mim.
Marcos é incrível, sensível, responsável, de uma família muito boa, e seria o marido perfeito pra mim, mas eu não seria a esposa perfeita pra ele. Por isso, apesar de gostar muito dele, aliás, muito mais do que eu deveria gostar, não quero assumir uma relação com ele porque não é justo que ele não tenha o direito de ter a família que ele já me falou que deseja, por um problema que é só meu.
Todas as vezes que estamos juntos ele me pergunta porque não podemos assumir pra os nossos amigos e família que estamos juntos, e me parte o coração saber que ele acha que eu não gosto tanto assim dele, quando o que eu mais queria nessa vida era gritar o quanto ele é incrível e o quanto eu o amo.
Mas eu não posso.
Deus sabe como eu queria assumir o meu amor, e é em nome desse amor que eu vou abrindo mão dele aos poucos, e ao mesmo tempo vou orando pra que ele nunca desista de mim, como eu mesmo várias vezes já desisti.
— Terra chamando Aline – Elis estala os dedos na minha frente
— Falou comigo amiga? – Ela ri
— Várias vezes, mas você está aí pensando em um certo moreno que anda te arrancando suspiros – Sorrio triste
— Tá bom Elis, eu reconheço, eu gosto dele – Vejo os olhos dela brilharem
— Eu sabia! – Ela fala dando pulos de Alegria — Vocês estão juntos?
— Não, apesar dos vários pedidos dele – Bufo irritada — Nem sei como ele ainda tenta.
— Aline, o Marcos é incrível e não falo isso porque ele é meu amigo, qualquer pessoa vai te falar a mesma coisa, eu entendo de verdade o seu receio, mas você precisa deixar as coisas claras com ele.
— Eu sei, Elis, mas eu não consigo. – Suspiro tentando conter as lágrimas — Ele vive falando que um dia vai ter uma família grande, e eu não posso dar isso a ele – Elis nega com a cabeça — não é justo tirar isso dele por um problema que é só meu.
— E é justo deixar ele achar que você não gosta dele, quando você só tem medo de falar como se sente? Amiga, você precisa se abrir com ele antes que seja tarde.
— Não sei, vou pensar um pouco e decidir o que fazer.
— Só espero que você tome a decisão correta. – Ela finaliza — Agora eu preciso ir, tô enlouquecendo com o vestibular.
— Tá bom, boa sorte – Nos abraçamos — Te amo, amiga.
— Também te amo – Ela sai do abraço e me olha nos olhos — E é por isso que quero ver você feliz, então pensa bem e toma a decisão correta.
Elis é aquela amiga que tem a vida toda enrolada, mas sai do olho do próprio furacão pra resgatar a gente, no nosso caos particular, ela tem o melhor abraço e os melhores conselhos. Ela se tornou a irmã que eu não tive, e eu a amo como se nós tivéssemos o mesmo sangue.
Quando o assunto é o Marcos eu me sinto estranha conversando com ela porque eu sei que eles têm o mesmo tipo de ligação que ela e eu, então eu acabo sempre achando que estou induzindo ela a "trair" a confiança do amigo dela, então muito do peso que eu carrego nessa situação fica só pra mim, o que torna tudo mais difícil.
Marcos e eu ficamos algumas vezes, mas não passaram de beijos, apesar de ele deixar claro que queria passar disso, mas sempre respeitando os meus limites. Eu não vou ser hipócrita, tudo o que eu mais quero é me jogar nos braços dele, só que se eu fizer isso ele vai querer oficializar as coisas e isso vai me obrigar a contar a verdade pra ele, e o medo de ele se afastar de uma vez me faz aceitar ter ele só aos poucos.
Dizem que amor é ao mesmo tempo responsável por nos matar e nos permitir reviver. Eu morro todos os dias quando nego o quanto amo aquele homem de olhos cor de mel. Eu renasço todas as vezes que ele me abraça e fala que eu sou especial pra ele.
Eu morreria mil vezes, se em todas elas ele estivesse aguardando pra me dar novamente a vida.
Marcos é a pessoa mais incrível e doce que eu já conheci, e eu daria tudo para ficar inteira pra ele, sem medos, sem culpas, e sem me sentir insuficiente.
Mas eu não posso.
Não é justo comigo.
Não é justo com ele.
Não é justo com o nosso amor.
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