
Tela Quebrada, Espírito Inquebrantável Ressurge
Capítulo 2
Ponto de Vista de Keyla Castelo:
Meu grito de "Seu monstro!" ainda ecoava no ateliê arruinado, mas não foi o suficiente. Não foi o suficiente para parar a onda de raiva que consumiu Axel. Ele se virou do corpo imóvel da minha mãe, seus olhos travando em mim. O lampejo de horror nascente desapareceu, substituído por uma fúria fria e dura.
Ele avançou.
Meu mundo inclinou. A mão dele se fechou em volta do meu braço, torcendo, puxando. Perdi o equilíbrio, tropeçando para trás sobre os destroços dos meus sonhos despedaçados. Um cavalete, sua estrutura de metal retorcida agora uma arma, atingiu meu quadril com um baque nauseante. A dor explodiu através de mim, uma agonia aguda e ardente que roubou meu fôlego.
Desabei no chão, minha cabeça errando por pouco uma paleta de madeira lascada. Tubos de tinta, pincéis e cerâmicas espalhados ao meu redor, um testamento colorido e caótico da violência. O impacto fez meus dentes baterem, e um zumbido agudo encheu meus ouvidos, momentaneamente abafando todos os outros sons.
Fiquei lá, desorientada, olhando para Axel através de olhos cheios de lágrimas, tentando compreender o monstro em que ele se tornara. Este não era o homem com quem me casei. Este era um estranho, alimentado por um veneno que eu não conseguia entender.
— O que... o que está acontecendo?
Minha mãe, Dália, com a voz fraca e carregada de medo, apareceu na porta novamente. Ela devia ter recuperado a consciência, mas seu rosto estava pálido, um fio fino de sangue ainda escorrendo pela têmpora. Ela absorveu a cena, os olhos se arregalando de horror, e então correu em minha direção, sua própria dor esquecida em sua necessidade desesperada de ajudar.
— Keyla! Meu Deus! — ela gritou, ajoelhando-se ao meu lado, as mãos trêmulas tentando me ajudar a sentar. Meu corpo gritava em protesto, cada músculo doendo.
Axel nos observava, o peito arfando, o rosto contorcido.
— Sai de perto dela, Dália! — ele rosnou, a voz crua. — Ela é uma mentirosa! Uma traidora!
— Axel, por favor, pare com isso! — minha mãe implorou, me protegendo com o corpo. — Tem que haver um mal-entendido! Você está machucando ela!
Mas ele não estava ouvindo. Seus olhos estavam injetados de sangue, o maxilar cerrado com tanta força que pensei que seus dentes poderiam se quebrar.
— Mal-entendido? — ele zombou, um escárnio torcendo os lábios. — Não há mal-entendido quando minha esposa está transando por aí pelas minhas costas e tentando ficar rica com o dinheiro de outro homem!
Ele agarrou um vaso de cerâmica pesado de uma prateleira próxima e o arremessou passando pela cabeça da minha mãe. Ele se espatifou contra a parede atrás de nós, enviando cacos voando. Minha mãe engasgou, me puxando para mais perto.
— Ela é uma vadia! Uma interesseira! — ele esbravejou, suas palavras me perfurando. — E esse bebê... esse bebê nem é meu!
As palavras me atingiram como outro golpe físico, roubando o pouco ar que me restava. O bebê. Ele sabia. Mas como? Minha mente corria, tentando conectar os pontos entre sua destruição, suas acusações e isso. O teste de paternidade. Tinha que ser o teste de paternidade.
— Axel, você está errado! — engasguei, me forçando a levantar apesar da dor. — Não tem outro homem! Eu não sou uma traidora! E esse bebê é seu!
Ele riu, um som demente e sem humor.
— Ah, é mesmo? Então o que é isso, Keyla?
Ele tirou o celular do bolso, o dedo deslizando furiosamente. Ele o empurrou em direção ao meu rosto, a tela exibindo uma conversa de mensagens de texto.
Meus olhos examinaram a tela, tentando dar sentido ao emaranhado de palavras. Era um chat, entre Júlio Andrade e... Kelly? A esposa de Júlio, Kelly? Meu coração martelou. As mensagens eram acusatórias, implicando um caso.
E então, havia uma foto. Uma foto granulada e mal iluminada da mão esbelta de uma mulher, adornada com um anel distinto — um anel que reconheci como meu — segurando um pequeno pássaro de madeira intrincadamente esculpido.
O pássaro. Aquele que eu tinha esculpido meticulosamente para Axel anos atrás, uma representação do nosso amor duradouro, colocado amorosamente em sua mesa de cabeceira.
Minha mente girou. O anel, o pássaro... eram meus. Mas a mão na foto não parecia a minha. Era muito esbelta, as unhas perfeitamente manicuradas, ao contrário dos meus dedos perpetuamente manchados de tinta.
— Isso é um erro, Axel — disse eu, minha voz mal passando de um sussurro. — Essa não sou eu. Esse é... esse é meu anel, e minha escultura, mas não é minha mão.
Ele zombou.
— Ah, agora você vai negar suas próprias posses? Aquele pássaro, você fez para mim, Keyla. E aquele anel, eu comprei para você. Acha que eu não os reconheço?
— Eu dei aquele pássaro para você! — gritei, minha voz subindo em desespero. — Estava na sua mesa de cabeceira semana passada!
Ele puxou o telefone de volta, o rosto endurecendo.
— Não se incomode com suas desculpas patéticas. Acha que sou cego? Acha que sou estúpido o suficiente para acreditar nas suas mentiras?
O polegar dele se moveu novamente, e outra foto brilhou na tela.
Era a mesma mão, o mesmo anel, o mesmo pássaro. Mas desta vez, a escultura repousava sobre um lençol de seda amarrotado. E ao lado dele, parcialmente obscurecido, estava um par de abotoaduras masculinas.
As abotoaduras. Eu as tinha visto antes. Pertenciam a Júlio.
Minha respiração prendeu na garganta. Minha mente ficou em branco. O mundo ao meu redor girou, cores e formas se borrando em uma bagunça indistinta. Não. Isso não podia estar acontecendo. Meu estômago revirou, e uma onda de náusea me invadiu.
Meu rosto deve ter ficado totalmente branco, porque até Axel pareceu pausar, um lampejo de algo ilegível em seus olhos.
— Onde... onde você conseguiu essas fotos, Axel? — gaguejei, minha voz quase inaudível. — Quem... quem mandou isso para você?
Ele não respondeu. Apenas olhou para o telefone, depois de volta para mim, os olhos cheios de uma nova onda de desprezo.
— Eu não entendo — sussurrei, minha mente em um nevoeiro. — O pássaro... eu dei para você. O anel... estava na minha penteadeira.
Um pensamento repentino, frio e perturbador, serpenteou em minha mente. Brenda. Ela esteve em nossa casa dias atrás, "ajudando" a limpar o ateliê. Ela tinha demorado no nosso quarto, fazendo comentários sobre minha falta de organização. Ela até tinha pegado o pássaro, admirando o artesanato, seus olhos muito astutos, muito conhecedores. E o anel... eu o tinha tirado para pintar, deixando-o na penteadeira.
— Brenda — sussurrei, o nome com um gosto amargo na língua. — Sua mãe. Ela esteve aqui. Ela estava no nosso quarto.
O rosto de Axel escureceu, o maxilar se fechando.
— Não se atreva a tentar culpar minha mãe pelo seu comportamento de vagabunda, Keyla! Ela viu você com ele! Ela viu você saindo do prédio do escritório do Júlio tarde da noite!
— Não! — gritei, a compreensão me atingindo como um trem. — Ela deve ter roubado! Ela pegou o anel e a escultura, e armou tudo isso! Ela está tentando me incriminar, Axel! Ela sempre me odiou!
Os olhos dele se arregalaram por uma fração de segundo, um lampejo de dúvida, talvez, antes de ser violentamente extinto por uma nova onda de fúria.
— Sua VADIA! — ele rugiu, a voz sacudindo as próprias fundações do ateliê arruinado. — Você acha que pode virar minha mãe contra mim? Acha que vou acreditar nas suas mentiras patéticas sobre ela?
Ele levantou o pé e me chutou com força na lateral do corpo, logo abaixo das costelas. A dor foi excruciante, roubando meu fôlego, forçando um grito gutural dos meus lábios. Dobrei-me, segurando meu lado, ofegando por ar.
Minha mãe gritou, correndo para frente, mas Axel a empurrou de volta com um empurrão violento, fazendo-a cambalear contra um cavalete quebrado.
— Ela nunca faria isso! — Axel berrou, a voz cheia de uma lealdade cega e irracional. — Minha mãe me ama! Ela nunca mentiria para mim sobre isso!
Ele me chutou de novo, mais forte desta vez, sua raiva o consumindo.
— Você está apenas tentando desviar, não é? Tentando me fazer duvidar da palavra dela!
Encolhi-me em uma bola, tentando proteger meu lado latejante, minha barriga de grávida. Mas ele não tinha terminado. Ele me chutou de novo, e de novo, o pé conectando com minhas pernas, meus braços, minhas costas.
Cada golpe ecoava a dor no meu coração, um testamento do homem que ele se tornara. O homem que preferia acreditar em uma mentira fabricada por sua mãe manipuladora do que na esposa que esteve ao seu lado por anos. O marido que agora estava me espancando, sua esposa grávida, no chão.
— Axel, por favor! — a voz da minha mãe era um soluço desesperado e sufocado. — Você vai matá-la! Pare, por favor, pare!
Mas ele não parou. Ele apenas continuou chutando, o rosto uma máscara de fúria primitiva, as palavras um fluxo de veneno.
— Você merece isso, Keyla! Você merece cada pedaço disso! Acha que pode me fazer de idiota? Acha que pode me trair e sair impune?
Fiquei lá, indefesa, a dor física um latejar surdo comparado à dor agonizante na minha alma. Minha visão embaçou novamente, desta vez pelas lágrimas que escorriam pelo meu rosto, quentes e ardendo contra minha pele.
Ele estava me destruindo, pedaço por pedaço agonizante. E com cada chute, com cada palavra odiosa, os últimos vestígios do meu amor por ele morriam uma morte lenta e dolorosa.
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