
Tela Quebrada, Espírito Inquebrantável Ressurge
Capítulo 3
Ponto de Vista de Keyla Castelo:
O mundo era um caleidoscópio de dor e barulho. Os chutes de Axel choviam sobre mim, cada um sacudindo meu corpo, roubando meu fôlego. Os gritos desesperados da minha mãe estavam desaparecendo ao fundo, abafados pelo zumbido nos meus ouvidos. Encolhi-me em posição fetal, tentando desesperadamente proteger minha barriga, a pequena vida crescendo dentro de mim.
— Axel, para com isso! Você vai matá-la!
Minha mãe, Dália, finalmente conseguiu agarrar o braço dele, sua estrutura pequena tremendo com o esforço. Ela não era forte o suficiente. A voz dela falhou enquanto implorava:
— Tem um mal-entendido, Axel! Por favor, apenas converse com ela! Não faça isso!
Ele a sacudiu com um grunhido impaciente, fazendo-a tropeçar para trás novamente. Ela gritou quando sua cabeça, ainda sangrando do impacto anterior, bateu no chão com um baque nauseante. Ela ficou lá, gemendo baixinho, os olhos tremulando e se fechando.
— Mãe! — gritei, um som cru e animal rasgando minha garganta. Minha protetora, caída. Meu coração deu um solavanco, um frio aterrorizante me invadindo. — O que você fez, Axel? Ela acabou de fazer uma cirurgia! Ela não está bem!
Meu pai. O pensamento passou pela minha mente, um pedido desesperado de ajuda.
— Meu pai é Capitão do Corpo de Bombeiros, Axel! Ele não vai deixar você sair impune disso! Ele vai fazer você pagar! — engasguei, as palavras queimando minha garganta.
Ele pausou, um lampejo de algo quase como reconhecimento em seus olhos. Ele conhecia meu pai, Gerson Castelo, um homem respeitado em toda a cidade, um homem que você não cruzava o caminho. Mas a raiva era forte demais. Tinha o consumido inteiramente.
— Seu pai? — ele zombou, um escárnio torcendo os lábios. — O que ele vai fazer? Apagar um incêndio? Ele é uma babá glorificada! E você, Keyla, é igualzinha a ele. Só garganta, nenhuma ação.
Ele deu um passo para trás, os olhos varrendo-me com desprezo.
— Você e toda a sua família patética. Vocês acham que são tão espertos, não é? Bem, vou ensinar uma lição a vocês, a todos vocês.
Uma multidão começou a se reunir do lado de fora, atraída pelos gritos e estrondos. Rostos curiosos espiavam pela janela quebrada, seus murmúrios ficando mais altos.
— O que está acontecendo aí dentro? — alguém gritou.
— Parece violência doméstica! — outro sussurrou, claramente horrorizado.
De repente, um homem alto e de ombros largos abriu caminho entre os espectadores, o rosto marcado pela preocupação.
— Ei, amigo! Você precisa se acalmar! — ele gritou para Axel. — Você não pode bater em uma mulher, especialmente numa grávida!
A cabeça de Axel girou, os olhos em chamas.
— Cuida da sua vida! — ele rugiu, a voz falhando de fúria. — Esta é minha esposa! E ela é uma mentirosa traidora! Esse bebê nem é meu!
O homem deu um passo à frente, a expressão firme.
— Isso não te dá o direito de encostar a mão nela. Olha para ela, está sangrando! E sua mãe também! Alguém chame a polícia!
— Chamar a polícia? Vá em frente! — Axel desafiou, estufando o peito. — Acha que uns policiais aleatórios vão me dizer como lidar com minha esposa infiel? Acha que pode interferir nos assuntos da minha família?
Ele apontou um dedo trêmulo para a multidão.
— Qualquer um que se envolver vai se arrepender! Isso é entre mim e minha esposa traidora!
A multidão, intimidada por sua agressão crua e pela ameaça em sua voz, começou a se dispersar, seus murmúrios morrendo. Eles derreteram, me deixando sozinha com o monstro que eu um dia amei.
Axel se virou para mim, os olhos brilhando com uma intensidade maníaca.
— Ainda negando, Keyla? Ainda negando que dormiu com o Júlio? Olha para você, tentando proteger o bebê daquele bastardo!
Ele olhou para minha barriga, um brilho arrepiante nos olhos. Era um olhar que eu nunca tinha visto antes, um olhar que prometia destruição absoluta.
Ele era como um animal selvagem, completamente perdido para a razão. Eu nunca o tinha visto tão zangado, tão fora de controle. Era aterrorizante. Meus instintos gritavam para eu proteger meu bebê, para proteger minha vida crescente de sua ira. Instintivamente envolvi meus braços em volta do estômago, me pressionando contra o chão estilhaçado.
— Axel, por favor — implorei, minha voz mal acima de um sussurro, tentando injetar alguma calma no caos. — Eu não dormi com o Júlio. Há um erro. Vamos apenas conversar, por favor. Podemos trazer o Júlio aqui, podemos perguntar a ele. Ele vai te dizer a verdade.
Ele soltou uma risada áspera, como um latido.
— Falar com o Júlio? Acha que eu já não fiz isso? Aquela cobra já foi cuidada, Keyla. Ele não vai falar com ninguém por um longo, longo tempo.
Meu sangue gelou. O que ele tinha feito com o Júlio?
Axel caminhou até uma bancada de trabalho, seu olho capturando uma chave inglesa pesada e ornamentada que eu usava para apertar as bases das minhas esculturas. Ele a pegou, testando o peso na mão. O aço frio brilhou sob as luzes do ateliê.
— Então, me diz, Keyla — ele rosnou, balançando a chave inglesa lentamente, ameaçadoramente. — Você vai admitir? Vai admitir que me traiu? Que essa criança não é minha?
Minha garganta estava seca, meu coração batendo um ritmo frenético contra minhas costelas.
— Não! Eu não te traí! Esse bebê é seu, Axel! Juro pela minha vida!
Os olhos dele se estreitaram ainda mais.
— Mentirosa! Acha que eu não sei? Acha que sou tão cego assim? Minha mãe me contou tudo. E o Júlio... o Júlio acabou de confirmar.
Ele levantou a chave inglesa, o metal frio brilhando.
— Última chance, Keyla. Confesse.
Apertei os olhos com força, me preparando para o impacto, um grito aterrorizado escapando dos meus lábios. Eu não podia confessar algo que não tinha feito. Não podia mentir sobre meu filho.
Mas o golpe nunca veio. Em vez disso, ouvi um baque nauseante, um grito sufocado, e então a chave inglesa caiu no chão. Abri os olhos, meu coração parando no peito.
Minha mãe, Dália, estava parada bem na minha frente, os braços estendidos, me protegendo de Axel. A chave inglesa tinha atingido ela, não a mim.
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