
Tarde Demais, Sr. Johnston: Ela Se Foi
Capítulo 2
Kairós acordou com o cheiro de antisséptico e o zumbido rítmico de uma máquina.
Seu corpo parecia oco. Não era apenas o vazio físico em seu ventre; era um vácuo espiritual, como se alguém tivesse enfiado a mão dentro dela e arrancado sua alma.
Ela piscou, as pálpebras pesadas. O quarto estava na penumbra. Havia uma silhueta sentada na cadeira ao lado de sua cama.
Uma faísca de esperança patética acendeu em seu peito.
- Zelo? - ela sussurrou, a voz rouca.
A figura se moveu. Uma mão cobriu a dela. Era quente, calejada, gentil.
- Sou eu, Kairós. É o Júbilo.
A esperança morreu instantaneamente, substituída por uma onda esmagadora de decepção.
Sua visão clareou. Júbilo Vau, o enfermeiro de seu avô, olhava para ela com olhos cheios de preocupação.
- Ele não veio, não é? - perguntou Kairós.
Ela puxou a mão e virou a cabeça em direção à janela.
Júbilo suspirou. Ele serviu um copo de água de uma jarra de plástico.
- O hospital ligou para o seu avô como contato de emergência. Ele não podia se mover, obviamente. Então ele me enviou.
Kairós encarou as persianas fechadas.
- O bebê se foi, Júbilo.
- Eu sei.
Júbilo ajustou o cobertor em volta dos ombros dela. Seu olhar vagou para o suporte de metal ao pé da cama. A folha superior estava visível. Leucemia Linfocítica Aguda.
Ele ficou rígido. Kairós viu os olhos dele se arregalarem.
Ela estendeu a mão e agarrou o pulso dele.
- Não conte a ninguém - sibilou ela. - Especialmente ao meu avô. Se ele souber que estou doente, ele vai desistir. Ele vive por mim.
Júbilo parecia furioso. Seu maxilar trabalhou.
- Você precisa de tratamento, Kairós. Tratamento real. Não apenas esconder isso. O dinheiro... eu posso ajudar.
Ele se interrompeu. Ele deveria ser apenas um enfermeiro assalariado. Não podia explicar como tinha acesso a milhões.
- É inútil - disse Kairós, fechando os olhos. - Eu só quero garantir que o vovô esteja seguro antes de eu partir.
Zelo caminhava pelo corredor do hospital. Ele havia deixado o baile de gala mais cedo. Algo na maneira como Kairós gritou ao telefone havia ficado preso em sua garganta como uma espinha de peixe.
Ele disse a si mesmo que estava vindo apenas para verificar a mentira dela. Para provar que ela estava fingindo.
Ele chegou à porta do Quarto 304. Estava ligeiramente entreaberta.
Pela fresta, ele a viu. Ela parecia pequena na cama do hospital. E inclinado sobre ela, perigosamente perto, estava um homem.
Um homem em uniformes baratos de enfermeiro. O homem estava colocando uma mecha de cabelo atrás da orelha de Kairós.
Zelo sentiu uma onda de calor subir pelo pescoço. Era um ciúme irracional e violento.
Ele escancarou a porta com um estrondo. O som foi como um tiro no quarto silencioso.
Kairós pulou. Júbilo girou, instintivamente se colocando entre a cama e a porta.
Zelo parou ao pé da cama.
- Então é isso? - Zelo zombou, o escárnio pingando de sua voz. - É por isso que você estava tão desesperada para se livrar do meu filho? Para abrir espaço para a criadagem?
Kairós sentou-se, estremecendo quando os pontos em seu abdômen repuxaram. Seu rosto corou de raiva.
- Você é um monstro, Zelo.
Júbilo deu um passo à frente, os punhos cerrados ao lado do corpo.
- Você não tem ideia do que ela passou hoje.
Zelo nem olhou para Júbilo. Manteve os olhos fixos em Kairós.
- Saia da minha frente, enfermeiro.
Ele enfiou a mão no bolso interno do smoking e puxou um talão de cheques. Riscou um número, arrancou o papel e o jogou sobre a cama. Ele flutuou e pousou no colo de Kairós.
- Aqui. Isso é para suas "despesas médicas" - disse Zelo. - Ou pague seu namorado. Eu não me importo. Apenas pare de me ligar.
Kairós olhou para o cheque. Cinquenta mil reais. O preço do seu trauma.
Ela o pegou. Seus dedos tremiam, não de medo, mas de fúria pura.
Ela rasgou o cheque ao meio. Depois ao meio novamente. Jogou os pedaços de papel nele como confete.
- Saia - disse ela. Sua voz era quieta, mortal.
Zelo sentiu uma pontada de inquietação. Nunca a tinha visto olhar para ele daquele jeito. Geralmente, os olhos dela eram suplicantes, suaves. Agora estavam mortos.
Ele mascarou seu desconforto com crueldade.
- Ótimo - disse ele, girando nos calcanhares. - Mas não espere que eu continue pagando pela suíte privada daquele velho se você vai agir assim.
Ele saiu.
Júbilo fez menção de persegui-lo, mas Kairós começou a tossir. Era um som úmido e cavernoso.
Ela cobriu a boca com um lenço de papel. Quando o afastou, estava manchado de vermelho.
Júbilo congelou. Ele envolveu os braços ao redor dela, segurando-a.
- Me leve para casa, Júbilo - sussurrou ela, encostando a cabeça no peito dele. - Eu não quero morrer neste quarto.
Você pode gostar





