
Tarde Demais, Sr. Johnston: Ela Se Foi
Capítulo 3
Na manhã seguinte, Kairós forçou-se a sentar. Seu corpo gritava em protesto, cada músculo doendo como se tivesse corrido uma maratona, mas sua mente estava clara.
Fria e brutalmente clara.
Júbilo a ajudou a sentar na cadeira de rodas. Ele queria que ela ficasse, mas ela recusou. Ficar significava esperar que Zelo desligasse os aparelhos que mantinham seu avô vivo.
Ela abriu seu laptop antigo na mesa de apoio. Seus dedos voaram pelas teclas, contornando o firewall do hospital para acessar um servidor seguro na Suíça. Ela precisava de liquidez.
Uma caixa vermelha apareceu na tela: CONTA CONGELADA. AUTORIZAÇÃO REVOGADA.
Kairós fechou o laptop com força. Zelo. Ele era meticuloso. Havia bloqueado todos os bens conjuntos, todas as contas de mesada.
Ela tinha que cortar o vínculo. Pegou o telefone e discou um número que memorizara anos atrás. Usou um aplicativo modulador de voz.
- Preciso de uma minuta imediatamente - disse ela ao receptor. - Pedido de divórcio padrão. Diferenças irreconciliáveis.
Duas horas depois, Kairós entrou no escritório da Mansão Raiz.
Ela usava um suéter grosso para esconder o quanto havia emagrecido, mas ainda parecia um espectro assombrando sua própria casa.
Zelo estava atrás de sua enorme mesa de carvalho, assinando documentos. Ele não olhou para cima quando ela entrou.
- De volta tão cedo? - perguntou ele. - Acabou o dinheiro para o motel barato?
Kairós caminhou até a mesa e jogou uma pasta parda sobre a madeira.
- Assine.
Zelo parou. Ele largou a caneta e olhou para a pasta. Abriu-a. "Petição para Dissolução de Casamento".
Ele riu. Foi um som seco, sem humor.
- Você quer o divórcio? - perguntou ele, levantando-se.
Ele contornou a mesa, fechando a distância entre eles. Ele pairava sobre ela, irradiando poder e colônia cara.
- Quero o dote da minha mãe de volta - disse Kairós, encarando o nó da gravata dele porque não suportava olhar em seus olhos. - As ações da família Amparo. É tudo o que eu quero.
Zelo agarrou o queixo dela, forçando-a a olhar para cima. Seus dedos cravaram na mandíbula dela.
- Você acha que pode simplesmente ir embora? Você implorou para se casar comigo, lembra? Você e seu pai criminoso.
- Estou implorando para que me deixe ir - disse Kairós.
Os olhos de Zelo escureceram. Ele soltou o queixo dela com um empurrão.
Ele caminhou até um arquivo e puxou um documento grosso. Jogou-o na mesa ao lado dos papéis do divórcio.
- Leia o acordo pré-nupcial, Kairós. Especificamente, as cláusulas de fidelidade e herdeiros.
Ele se encostou na mesa, cruzando os braços.
- Quer sair? Ótimo. Pague a multa de rescisão de contrato de cinquenta milhões. Ou...
Ele a olhou de cima a baixo, o olhar demorando-se em seu estômago.
- Me dê um herdeiro. Você me deve um filho para substituir a reputação que sua mãe destruiu.
Kairós sentiu a bile subir na garganta. A crueldade era de tirar o fôlego.
- Você é louco - sussurrou ela. - Eu acabei de perder um bebê ontem.
Zelo acenou com a mão, desdenhoso.
- Você se livrou de um problema. Não finja que foi outra coisa.
Kairós recuou. Percebeu então que não havia negociação com ele. Ele não a via como humana. Ele a via como um ativo com baixo desempenho.
Ela abriu a boca para ameaçá-lo. Para dizer que sabia sobre o esquema de evasão fiscal em suas subsidiárias nas Ilhas Cayman. Ela poderia queimar a empresa dele até o chão com três toques no teclado.
Mas ela parou. Qualquer movimento que fizesse como "O Fantasma" seria rastreado até a rede da mansão. A equipe de TI de Zelo era de nível militar; eles a pegariam em segundos. Isso exporia tudo e colocaria seu avô em ainda mais perigo.
Uma batida na porta a interrompeu.
Vento, o assistente de Zelo, colocou a cabeça para dentro. Ele parecia desconfortável.
- Senhor, a clínica de repouso está na linha um. Estão perguntando sobre o pagamento de Aço Amparo.
Zelo não quebrou o contato visual com Kairós.
- Diga a eles para pararem todos os serviços - disse ele calmamente. - Até que minha esposa aprenda a assinar os papéis corretos.
Kairós sentiu o sangue drenar de seu rosto. Sua alavanca se fora. Se ela lutasse contra ele, Aço morreria.
Ela olhou para os papéis do divórcio, depois para Zelo. Seus ombros caíram.
- Você venceu - sussurrou ela.
Zelo sorriu. O sorriso não chegou aos seus olhos.
- Eu sempre venço. Agora saia da minha frente.
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