
Sob a Luz da Vingança
Capítulo 3
"Chega de devaneios, Maya."
Sim, sou Maya. Mas para o mundo que criei, sou Doris, uma lenda silenciosa e perigosa, a líder que ninguém ousa desafiar.
A verdade sobre quem eu realmente sou está sepultada sob camadas impenetráveis de segredos, armaduras forjadas pelo sofrimento e pela dor. Esse disfarce, essa personagem que governa com mãos de ferro e um coração feito de gelo, é tudo o que resta de mim – e é o suficiente.
O que sou de verdade não importa a ninguém, nem mesmo a mim. Só importa a figura que eu construí, a mulher implacável que controla tudo ao seu redor.
Aqui, no Morro do Alemão, o que me sustenta é a vingança. Cada respiração que dou é impregnada pelo desejo feroz de justiça, uma dívida de sangue para com os responsáveis pela morte da minha família.
Não sei o que sobrará de mim quando essa chama finalmente se extinguir; talvez apenas um vácuo profundo, um abismo sem retorno.
Mas agora, o que conta são os cinco nomes restantes na minha lista, os últimos fantasmas que preciso exorcizar. Eu serei a sombra de suas condenações, a mão que trará seu fim.
Vivo cada dia como uma penitente, sobrevivendo ao peso de uma maldição lançada pelo próprio sangue. Meu pai, o homem que me salvou naquela tarde maldita, foi ao mesmo tempo meu salvador e minha perdição.
Se não fosse por ele, não existiria Doris, não existiria essa vida que eu chamo de inferno. Mas estou aqui, cada pulsar do meu coração é uma prova de que o destino ainda não me desamparou, e a justiça, esse velho espectro, ainda me aguarda no fim da minha jornada de dor e cinzas.
Aquela garotinha que um dia corria pelo mundo com o sorriso aberto e olhos brilhantes morreu há muito tempo, devorada pelas sombras de um passado que se recusa a me abandonar.
Ela se foi, substituída por essa versão endurecida de quem eu deveria ser. O rancor tomou o lugar da inocência, a escuridão se tornou minha única companhia. Agora, resta apenas o fogo incessante da vingança, esse desejo sombrio que é, ao mesmo tempo, minha maldição e meu propósito.
Esse anseio é o que me mantém de pé, é o aço que endurece minha alma, me impedindo de cair. Não agora. Não ainda.
A cada segundo que passa, minha sede de vingança cresce, envenena, se alimenta vorazmente de mim. O pensamento de ajustar as contas com aqueles que destruíram minha vida é o único alívio que me resta, um consolo sombrio.
Já provei o gosto amargo da vingança, e ele é intoxicante. Um deles já não respira. Lembro com clareza de seus últimos momentos – o olhar de desespero, a súplica silenciosa, o sangue escorrendo entre os dedos enquanto ele se agarrava à vida miserável que levou.
Nos últimos instantes, ele revelou a verdade que eu sempre soube, mas custava aceitar: Olavo foi o arquiteto de toda a ruína, o mestre das cordas que controlou a tragédia que me despedaçou. Sua confissão foi apenas uma vitória fugaz, uma fagulha que momentaneamente acalmou meu tormento, mas minha dor exige mais. Minha sede só será saciada quando o último fragmento do meu passado for consumido em chamas.
Entre as poucas pessoas que ainda se aproximam de mim, Renata e Heloísa são as que restaram. Renata, com seu silêncio que parece decifrar minha alma sem julgamentos, entende os abismos do meu sofrimento sem proferir perguntas vãs.
Ela sabe que meu tormento é insondável, sem respostas fáceis. Já Heloísa, com sua vida luxuosa e protegida no Leblon, representa tudo o que eu poderia ter sido se o destino não tivesse me lançado neste abismo.
Ela, com sua crença inabalável nos laços genuínos e no poder do amor, tenta me convencer de que ainda há espaço para algo além da vingança.
Mas amor é um veneno que não posso mais arriscar. Nunca me permiti amar, e agora esse sentimento é um luxo perigoso, uma fraqueza que poderia me destruir. Meu coração é uma fortaleza impenetrável, cercada por muralhas tão altas que nada pode atravessá-las.
No fundo, sei que já não busco mais redenção. Minha salvação foi enterrada há muito tempo, junto com os sonhos que um dia ousei ter. Vingança é tudo o que me resta. E enquanto essa chama ardente não consumir o último espectro do meu passado, nada mais terá importância.
Na universidade, sinto os olhares curiosos dos colegas sobre mim. Para eles, sou a figura impassível, a que não se deixa enredar pelos dramas juvenis, pelos romances perigosos ou pelas paixões avassaladoras por professores carismáticos.
Sou a que permanece distante, intocável. Mas, mesmo cercada pela armadura que construí, acabei cedendo a um impulso. Envolvi-me com um rapaz que parecia verdadeiramente interessado, talvez na esperança de provar a mim mesma que ainda sou capaz de sentir algo além da raiva inabalável.
Passamos noites juntos, momentos intensos que, para qualquer outra pessoa, poderiam ter significado um sopro de romance, uma promessa.
Mas, para mim, foram apenas lembretes amargos de que meu coração é incapaz de sustentar esses sentimentos. O amor, percebo agora, é apenas uma distração, uma ilusão que não posso me permitir.
Após aquela noite, ficou claro que esse envolvimento não poderia continuar. Despedi-me da ilusão com a frieza de quem já não espera nada além da solidão. Voltei meu foco para o que realmente importa: a vingança. A chama da determinação arde mais ferozmente a cada dia, consumindo tudo dentro de mim, pronta para incinerar quem quer que ouse cruzar meu caminho.
O amor, descobri, é uma fraqueza perigosa, uma brecha mortal que não posso me permitir. Uma fissura na minha armadura que poderia me derrubar se não fosse cuidadosamente ignorada.
Não há espaço para sentimentos, para vulnerabilidades, enquanto restar um único nome na minha lista e o sangue da minha família ainda clamar por justiça. Cada suspiro de afeto, cada ato de ternura, é uma distração que poderia me desviar do meu objetivo.
O amor é um luxo que não posso pagar, uma ilusão que só serve para enfraquecer aqueles que se atrevem a senti-lo. Eu não sou mais uma mulher capaz de amar, porque amar é permitir-se ser fraca.
E, enquanto eu tiver um inimigo para destruir, uma conta a ser paga, não posso me permitir essa fraqueza.
O fogo da vingança, esse sim, é meu único aliado, e ele me consome de maneira implacável. Cada passo que dou em direção à minha missão é um passo para mais longe de qualquer possibilidade de redescobrir o que um dia conheci como amor.
O amor morreu no mesmo instante em que minha família foi destruída, e desde então, ele não tem espaço em minha vida.
Justiça. Apenas isso. Até que o último nome seja riscado da minha lista, até que o sangue derramado seja vingado, o amor é um veneno que não posso me permitir beber.
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