Capa do romance Sob a Luz da Vingança

Sob a Luz da Vingança

7.8 / 10.0
Maya é uma estudante exemplar da PUC-Rio que oculta um passado trágico e um plano de vingança implacável. À noite, ela executa sua justiça secreta, mas sua estratégia oscila ao conhecer Bernardo, um delegado focado no combate ao crime. O surgimento de um amor intenso coloca ambos em risco, forçando Maya a escolher entre seu acerto de contas e o sentimento pelo homem que caça a verdade. Em um jogo de mentiras, eles enfrentarão as consequências de segredos fatais.

Sob a Luz da Vingança Capítulo 1

Meu nome é Maya, mas todo mundo me chama de Dóris. Sou a líder do Morro do Alemão, na Zona Norte do Rio, e, por mais que a vida aqui tenha seus altos e baixos, esse lugar tem um espaço grande no meu coração. Também sou a pessoa mais procurada pela polícia do Rio, mas quem me conhece sabe que não sou do tipo que sai machucando ou matando por aí.

Renata foi uma das primeiras pessoas que conheci depois da morte do meu marido. Ela já morava no morro, mas só a encontrei pessoalmente quando o Júlio, que trabalha na boca, me a apresentou. Desde o início, gostamos uma da outra. Ela é uma das pessoas que vai saber do meu segredo, o que não era novidade para quem vive aqui.

Agora, sobre por que sou tão procurada... Não faço ideia. Não sou uma pessoa de violência gratuita, mas não sou fraca, e quem me desafia aprende isso da pior forma. Detesto quando me tomam o controle de algo, como aquelas cenas horríveis nas quais pessoas são levadas para tortura. Recentemente, quase matei um cara por espancar uma mãe de família. A mulher tinha cometido um erro, sim, mas nunca mereceu aquele castigo. Isso não podia ficar assim, então eu fiz o mesmo com quem mandou fazer aquilo. Já disse, quem manda aqui sou eu.

Eu sou boa, mas quando a raiva toma conta, ninguém me segura. E ninguém aqui, depois do que aconteceu com a minha família, quer ver um sofrimento injusto. Deixe-me contar o que aconteceu há 17 anos, numa noite que mudou tudo. Eu, meus pais e meu irmão estávamos em casa, jantando, como qualquer noite normal...

Meu pai, sempre ocupado, tinha um escritório onde guardava várias armas, um lugar que ele nunca deixava acessível. Mas, naquela noite, a porta estava aberta. E a minha curiosidade, talvez um pouco inocente, me levou até lá, aonde eu encontrei um verdadeiro arsenal escondido em um armário de vidro. O que meu pai fazia, eu ainda não entendia... mas naquele momento, tudo que vi naquele escritório ficou gravado na minha memória, mudando para sempre a forma como eu olharia para a minha família e o que estava por trás de tudo aquilo.

Muitas pessoas desconhecidas costumavam chegar em nossa casa, tanto homens quanto mulheres. A casa era bonita, sofisticada, mas eu não entendia o real significado de toda aquela pompa. Quando minhas amigas vinham brincar, elas sempre comentavam sobre isso. Meus pais, apesar da aparência de normalidade, estavam sempre rodeados por uma aura de mistério.

Meu pai era uma figura de autoridade, mas nunca vi ele perder a calma. Um homem de poucas palavras, mas com um poder imenso por trás de seus gestos. Uma vez, testemunhei ele confrontando alguém de maneira tão implacável que deixava claro: desrespeito não era algo que ele tolerava.

Certa noite, estávamos todos reunidos em casa, assistindo televisão, quando o som de uma explosão cortou o ar. No começo, eu não sabia se eram disparos ou algo pior. O que eu sabia é que, normalmente, havia quatro homens no portão, mas naquela noite só estava Genebra. E então, tudo aconteceu muito rápido.

Meu pai me pediu para me esconder. Não havia tempo para mais nada. “Corre para o seu esconderijo, minha princesa, vou te encontrar”, ele disse, mas quando eu ainda tentava entender o que estava acontecendo, ele já estava distante. Antes de conseguir pensar em mais alguma coisa, me vi entrando no meu esconderijo, aquele cantinho que ele mesmo havia feito para mim e meu irmão.

Dentro do esconderijo, só ouvi gritos, tiros e depois... um silêncio. O medo me consumia. Eu tapava meus ouvidos, mas ainda assim sentia o peso de cada som. Quando o silêncio tomou conta, decidi sair devagar, tentando não ser vista.

Olhei pela escada e vi uma cena que eu jamais esqueceria: homens armados, rindo, rodeando os corpos dos meus pais e do meu irmão, todos caídos no chão, manchados de sangue.

Um dos homens, com voz grave e furiosa, se aproximou do meu pai, que ainda respirava com dificuldade, e gritou:

— Eu vou achar sua filha e acabar com seu clã maldito! Esse morro será meu, e você, seu merda, já matou demais dos meus. Agora chegou a minha vez de brilhar e me vingar de você. Sua mulher era para ser minha, e um dia vou fazer você pagar por isso!

Ele golpeou meu pai, que sangrava pela boca. Eu vi tudo de onde estava, o sofrimento de meu pai e o riso cruel dos outros homens. Mas o pior foi quando ele gritou, com uma voz cheia de ódio:

— Onde está a pirralha? Vou matá-la na sua frente, se ainda conseguir respirar!

Meu pai, com o olhar que só ele sabia expressar, me pediu, sem palavras, para voltar ao esconderijo. Sem hesitar, fiz isso e permaneci lá, em silêncio, até que os sons ao redor se apagaram completamente.

Horas depois, ouvi sirenes de polícia. Uma policial me encontrou e me tirou de lá. Eu estava assustada, chorando, e com fome, após tantas horas escondida. Quando me perguntaram sobre meus parentes, falei sobre minha tia, e eles a chamaram.

Ela foi informada sobre o que havia acontecido, mas a verdade é que eu não conseguia entender tudo. Apenas via aqueles homens rindo enquanto meu pai ainda lutava pela vida.

Quando me mostraram várias fotos, tentando me fazer identificar os responsáveis, eu reconheci a todos. Mas, naquele momento, eu sabia o que queria.

Apesar de ter apenas oito anos, o desejo de justiça queimava dentro de mim. Eles pagariam caro pelo que fizeram, e eu faria isso acontecer. Até Genebra, que sempre foi gentil comigo e até me presenteava, teria que pagar.

Fui morar com minha tia em Ipanema, longe de tudo que me lembrava o sofrimento. Na escola, tinha tudo que podia desejar, mas nada disso amenizava a dor que me consumia. Por mais que tentassem me ajudar com terapia, os rostos daqueles homens e a cena da minha família caída no chão não saíam da minha mente.

Eu levava uma existência dupla, mantendo uma fachada de estudante respeitada de arquitetura, enquanto, no submundo, minha verdadeira identidade era de alguém imersa no crime. Ninguém sabia da minha vida secreta, e eu planejava que assim continuasse.

Com o tempo, me vi nos bailes funk, rodeada por criminosos que me viam como um troféu. Já não era mais virgem quando tive minha primeira vez, com um universitário.

Ele era um bom rapaz, muito correto para mim, e eu não queria mais nada além daquela noite com ele. Minha vida estava longe de ser normal, mas eu gostava disso.

A adrenalina me atraía; ver aqueles idiotas se atrapalhando e tentando invadir o meu espaço era divertido. Sempre com uma arma à mão, sentia que tinha o poder de fazer justiça por minha família.

Então, numa dessas festas, encontrei um dos assassinos dos meus pais. A emoção foi indescritível. Mas, ao confrontá-lo, percebi que ele não estava sozinho.

Ele fazia parte de um grupo envolvido no massacre. Sem hesitar, procurei a ajuda de Gael, um aliado de confiança, e juntos conseguimos capturar o criminoso. Levamo-lo para um local isolado que aluguei, acreditando que ninguém nos seguiria. Estávamos errados. O dono do morro estava observando tudo, filmando a tortura impiedosa que impus a aquele homem.

Ele morreu sem revelar o paradeiro dos outros envolvidos.

Mas o que ninguém sabia era que o homem que filmava tudo caiu aos meus pés. Aos quinze anos, fui morar com ele, o líder da favela. A convivência com aquele homem foi difícil, ele era cruel e abusivo.

Após algumas situações intoleráveis, o eliminei. Ele tentou me agredir na primeira oportunidade, além de me chantagear, exigindo dinheiro e ameaçando me denunciar à polícia. Descobriu, tarde demais, que eu era mais poderosa do que ele imaginava. Acabei tomando o seu lugar e me tornando a verdadeira líder do morro.

Agora, dividia minha vida entre o Morro do Alemão e Ipanema. Numa certa noite, vi um cara entrar no baile funk. Idêntico ao desgraçado que destruiu a minha família.

— E aí, o que você veio fazer na boca da loba? — ouvi alguém sussurrar, enquanto ele passava ao meu lado.

— Tô na área pra conhecer a loba e, quem sabe, se rolar, tomo esse morro. Seria da hora, né, mano?

— Se você se meter a besta e tentar tomar esse morro, pode crer que não vai sair daqui vivo, não. Nem vai ter chance de falar quem te matou .

Ele me encarou, os olhos fixos nos meus, com um sorriso desafiador. Podia sentir a tensão no ar, mas não me importava. Ele era só mais um que teria o fim que merecia. Estava finalmente chegando o momento da minha vingança, depois de dezessete anos esperando por isso. Era agora ou nunca.

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