
Sinal Vermelho
Capítulo 2
O despertador está soando pela terceira vez em dez minutos e a necessidade do meu namorado pelo controle do tempo me irrita profundamente, até mais do que a música Despacito que ele escolheu para nos acordar. Sério, que tipo de ser humano coloca para despertar de cinco em cinco minutos?
Desligo o alarme e tento me desvencilhar de seus braços, mas ele me puxa de volta para perto de seu corpo. Viro-me para ele e acaricio sua pele cheia de sardas com as pontas dos dedos. Não havíamos conseguido sair para jantar na noite passada, então ele perguntou se poderia dormir aqui e apesar de acordarmos cedo no dia seguinte, tentamos aproveitar esse momento juntos o máximo possível.
— Fê, acorda — digo baixinho e ele resmunga algo que não compreendo. — Anda, você tem prova hoje.
Ele faz um careta de dor e eu dou risada. Ele está no quinto semestre de Direito, enquanto eu estou no quarto de Biblioteconomia.
— Nem me lembre. — Abre os olhos castanhos devagar e deixa um selinho em meus lábios. — Bom dia, amor.
— Bom dia, meu bem. Achou que se esquecendo dela, ela desaparecia? — brinco.
— Como adivinhou?
Ele ri e desvio de seu aperto, levantando-me da cama e caminhando em direção ao banheiro. Ouço seus passos atrás de mim e o barro ainda na porta.
— Eu te convidaria para entrar, mas já enrolamos muito por hoje e sair do banho já com o café da manhã pronto me faria muito feliz.
Lanço-lhe uma piscadela e Fernando fecha a cara. Gargalho e tranco a porta do banheiro. Tiro o pijama e caminho até o chuveiro, ligando-o e fechando o box de vidro atrás de mim. Desfaço o coque em meu cabelo e deixo a água morna cair por todo meu corpo. Os cachos escuros batem em minhas costas e aproveito para lava-los e hidrata-los.
Ao finalizar o banho, puxo a toalha do gancho e seco meu corpo. Saio do banheiro enrolada com o tecido felpudo e abro meu guarda-roupa, tirando uma calça mom jeans, uma regata branca com um decote pequeno e tênis da mesma cor. Jogo-os em cima da cama e pego meu celular na cômoda, checando as notificações. Vejo pela barra uma mensagem de Lorenzo:
E aí, como foi o almoço ontem? [5h33m].
Ontem, um pouco antes de chegar na casa de vovó, deixei meu carro na oficina. O mecânico responsável disse que iria avaliar e me dar uma resposta referente ao orçamento hoje. O carro é um pouco antigo, então acabo me perguntando se compensaria mesmo consertar ou seria melhor comprar um novo. Financeiramente, é claro que a primeira opção, afinal, não seria eu a pagar.
A mensagem que enviei para Lorenzo ontem foi apenas para saber se, de fato, aquele número era dele e depois de confirmar que sim, me arrependi amargamente, já que ele é um pé no saco e sempre me recorda porquê odeio homens.
Visto-me e começo a finalizar meu cabelo. Alguns minutos passam e Fernando entra no quarto.
— Para quem estava preocupada se iríamos nos atrasar ou não, você está demorando bastante, hein? — resmunga, indo em direção ao banheiro. — O café já está pronto, vida.
— Obrigada, você é o melhor.
— Também te amo.
Sorrio e termino de finalizar meu cabelo com o braço dolorido. Ser cacheada definitivamente não é fácil. Pego minha mochila e vou até a cozinha. Esquento o café novamente e me sirvo com pães e frutas. Logo após terminar de comer, aguardo meu namorado, que não demora a aparecer trajando um terno azul escuro com uma gravata borboleta listrada na mesma tonalidade e com seus cabelos ruivos perfeitamente alinhados. Como ele se arruma tão rápido?
— Meu Deus, deveria ser crime alguém ser tão bonito assim.
— Você teria pegado prisão perpétua. — Dou risada e vejo-o avaliar minha roupa em seguida. Lá vem. — Mas não acha melhor colocar uma blusa mais comportada, amor?
— Não gostou? — pergunto, olhando para minha blusa. Não há nada demais nela.
— Eu gostei, mas outros caras também vão.
Reviro os olhos. Como todo homem que nasce em uma sociedade estruturalmente machista, Fernando ainda tem muitos pensamentos a desconstruir. A minha sorte é que mamãe me criou ensinando-me como homens são ou esse projeto de advogado já teria me manipulado há muito tempo.
— E mulheres — complemento. — Você sempre esquece que sou bissexual.
— Eu não esqueço, só não me preocupo com elas — balança os ombros.
Mas deveria, quis dizer.
Decido que vou assim mesmo e apesar de emburrado, ele pega o molho de chaves e saímos do apartamento, fechando a porta e seguindo até o estacionamento. Hoje ele será meu motorista particular, já que meu carro está no conserto, e como estudamos em faculdades diferentes ele passará primeiro na minha e depois na sua.
Músicas sertanejas nos acompanham durante todo o trajeto e ao chegarmos, despeço-me dele com um beijo rápido, para que não se atrase. Saio do carro e encontro Anabel em frente ao local.
— Amiga, você não vai acreditar — ela me aborda quando me aproximo, cruzando nossos braços e caminhando para dentro da instituição.
Rio. Ela adora uma fofoca e não há nada que aconteça nesse lugar que ela não saiba, e foi graças a sua alma de jornalista que demos início a nossa amizade.
— Se você não me contar, não mesmo.
— Credo, tá naqueles dias? — Reviro os olhos. — Enfim, sabe a Sofia?
— A irmã da Larissa?
— Ela mesma. Vazou um vídeo dela com o professor de física. A faculdade inteira só fala disso.
Olho ao nosso redor e o corredor está repleto de burburinhos, basta somente que Sofia o cruze de cabeça baixa para que eles aumentem.
— Meu Deus, essas pessoas não tem o que fazer, não?
Ana dá de ombros e solta meu braço para entrarmos na sala de aula. A professora ainda não chegou, então sentamos em nossos lugares e mantivemos a conversa em um tom de voz um pouco mais baixo.
— Eu, particularmente, não sinto pena alguma, ou você se esqueceu de como ela saiu espalhando para todo mundo quando você beijou a irmã dela?
No início da faculdade, Sofia fez da minha vida um verdadeiro inferno quando eu fiquei com a Larissa, mesmo ela sendo assumidamente lésbica a muito tempo, e eu nunca entendi o porquê disso.
— Bom dia, hoje vamos falar sobre... — diz a professora de Documentação Audiovisual, após entrar na sala de aula. Desvio o olhar de Ana e presto atenção na aula.
[...]
Alguns meses depois que iniciei a minha graduação, eu passei em uma entrevista para trabalhar na biblioteca da faculdade, então agora eu passo a maior parte do tempo aqui, o que não é incômodo algum por ser algo que amo. Recebemos hoje um novo lote de livros técnicos e acabo de abri-lo para verificar algumas informações, quando escuto passos quebrarem o silêncio do ambiente.
— Boa tarde, você sabe me dizer se... — Ergo a cabeça para conversar com a pessoa, e as palavras morrem em sua boca assim que vê meu rosto.
A sua mensagem não respondida ecoa em minha mente, assim como a colisão de nossos carros e o exato momento em que os cacos caíram na calçada e a porta tornou-se uma lataria velha amassada. Tento dizer alguma coisa, qualquer coisa, mas tudo que deixa minha boca é:
— V-você? — indagamos em uníssono.
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