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Capa do romance Sinal Vermelho

Sinal Vermelho

Em São Paulo, um semáforo ignorado muda o destino de Lorenzo Fonseca para sempre. Após causar uma batida de carro, ele se vê obrigado a indenizar Pâmela Duarte pelo prejuízo. No entanto, o que começa como uma dívida financeira logo se transforma em uma conexão inesperada. Enquanto Lorenzo tenta se aproximar, Pâmela hesita em ceder aos sentimentos, relutante em avançar quando todos os sinais de seu coração indicam que ela deve parar e manter a cautela.
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Capítulo 3

De injustiça, o carma entende bem. Sempre sendo retratado como algo ruim, quando na verdade a verdadeira vadia má é quem menos imaginamos: o queridinho dos romances, o destino. Posso imagina-lo facilmente como um homem de terno e chapéu, sentado em uma mesa de tabuleiro e soprando a fumaça de um cigarro, enquanto movimenta as peças de nossas vidas como se fosse as de xadrez.

Estou encarando Lorenzo com tamanha incredulidade há mais de três minutos e tudo que passa pela minha mente é:

— Você tá me seguindo?

Meu Deus! E se ele for, sei lá, um assassino em busca de vingança?

Ainda bem que eu fiz o boletim de ocorrência na noite do acidente, senão sequer o cogitariam como suspeito para meu futuro desaparecimento e morte.

— O que? Claro que não. — Seu tom de voz contêm tanta indignação que traz a atenção de alguns estudantes. Coloco meu dedo indicador entre os lábios em sinal de silêncio e ele sorri amarelo. — Eu estudo aqui — esclarece aos sussurros.

— Estuda o que? — pergunto desconfiada, afinal, nunca tinha visto-o por aqui.

— Matemática. Pedi transferência para cá tem poucos dias.

Faço uma careta. Sentia-me um pouco mais aliviada, pois sua transferência explicava porque nunca tínhamos nos esbarrado por aí. Mas então quer dizer que além de sem noção e intrometido, Lorenzo é altamente corajoso? Anotado.

— Então você quer ser professor? — puxo assunto realmente interessada. Professor não é bem a profissão que imaginamos quando pensamos em um infrator.

Sento na cadeira giratória para cadastrar os livros no banco de dados enquanto conversamos, já que ainda estou em meu expediente. Eram poucas unidades, então esperava que o processo não fosse tão árduo. Peguei o primeiro livro e comecei a preencher as informações.

— Sim, para o Fundamental II.

Desvio minha atenção da tela e lhe ofereço um sorriso amável, vendo os seus olhos brilharem ao me responder. Ele parece realmente gostar disso, o que é ótimo, tendo em vista que muitas pessoas se baseiam em dinheiro ao escolher uma carreira e se esquecem que trabalhar com algo que odeia é somente um fardo a sustentar.

— É uma profissão muito bonita — disse, sincera. — Tenho certeza que você vai se sair muito bem.

— Obrigado. — Ele sorri, marcando suas covinhas. — Sempre que comento com alguém é o mesmo discurso de que se ganha mal, como se dinheiro fosse tudo que importasse no mundo.

— É uma profissão bem desvalorizada no Brasil mesmo, mesmo sendo o professor a formar todas as outras profissões e é por isso que os admiro tanto. Deveriam ter mais reconhecimento.

— Com toda certeza! E o que você cursa?

— Biblioteconomia — jogo, já imaginando que ele nunca deve ter ouvido falar sobre isso na vida. — Não é um curso tão conhecido quanto Direito ou Medicina.

— Não mesmo, eu só conheço porque tenho uma prima distante que fez. Você já escolheu a sua área?

— Eu gosto muito de trabalhar aqui, mas estou decidindo ainda, tem muitos campos — comento dando de ombros e logo lembro que provavelmente ele não está aqui para papear. — Quando você chegou ia me perguntar alguma coisa, o que era?

— Ah, é que o bibliotecário da manhã disse que estava para chegar um novo lote de matemática e eu queria saber se já chegou.

Ri leve e baixo, apontando para o amontoado de livros em cima da minha mesa.

— Por acaso é esse aqui?

Ele tocou o primeiro livro e leu o título, folheando rapidamente em seguida e erguendo seu olhar para mim.

— É sim, mas já te atrapalhei demais por hoje, então eu volto amanhã.

— Para me atrapalhar de novo? — brinquei com os olhos semicerrados.

— Talvez, a não ser que você queira que eu venha pela manhã, é cl...

— Não! — interrompo-o abruptamente. — Quer dizer — tusso para disfarçar, respondendo mais suavemente —, pode vir de tarde.

Ele dá risada e eu sorrio junto, admirando-o por um pequeno momento.

— Já que insiste... — ele diz, dando meia-volta e cruzando a porta. — Foi um prazer conversar com você, Pâmela. Até amanhã.

É, talvez — só talvez — Lorenzo não seja uma pessoa tão ruim.

[...]

O clima esfriou consideravelmente com o anoitecer. Passo a mão pelos braços nus em uma tentativa de me aquecer, mas é em vão. O vento bagunça meu cabelo, enquanto acelero os passos até o estacionamento. Fernando me ligou alguns minutos atrás dizendo que já chegara, e logo avisto seu carro. Abro a porta e sento no banco do passageiro, sentindo o ar um pouco mais quente quando a fecho.

— Oi, amor — cumprimento, inclinando-me para deixar um beijo em seus lábios. — Como foi a prova?

— Bem mais tranquila do que achei que estaria. Vou saber o resultado daqui uns dias, mas estou confiante de que me sai bem.

— Tenho certeza que sim. — Sorrio e coloco o cinto de segurança, enquanto ele dirige.

— O mecânico já te passou o orçamento?

— Eu não tive muito tempo para mexer no celular hoje, vou dar uma olhada.

Abro minha mochila e pego meu celular, desbloqueando a tela e abrindo o aplicativo. A maior parte das mensagens pertence aos grupos de leitura que entrei recentemente, o restante pertence à Anabel, Lorenzo e o mecânico. Abro a terceira conversa e arregalo os olhos quando vejo o valor cobrado. Engana-se quem pensa que o único gasto com automóveis é o financiamento e gasolina.

— E aí? — Fernando questiona ao ver minha expressão. Aproveito que paramos devido ao semáforo e mostro-lhe a tela com o valor. — É, um preço bem amargo, mas quem sabe assim o cara não cria mais consciência?

— Uhum — murmuro e abro a conversa de Lorenzo, respondendo a mensagem que tinha me mandado mais cedo.

Perdi o almoço, mas em compensação conheci um lugar que vende lanches maravilhosos 😊 [18h36m].

Sério? [18h37m]

Tô procurando um lugar bom a um tempão e nunca acho [18h37m]

— Chegamos — meu namorado anuncia e me assusto, bloqueando a tela do celular sem responder Lorenzo. — Tudo bem?

— Tudo... tudo sim.

— Ok... — Seu cenho está franzido em estranhamento, mas logo ele suaviza a expressão. — Infelizmente, eu não vou poder dormir essa noite aqui.

— Ah — murmuro chateada —, por que?

— Faculdade, mas eu posso passar amanhã aqui para te levar.

Ele vira de frente para mim e meu olhar recai na mancha de batom estampada gola da camiseta branca, coberta pela parte de cima do terno azul. Aproximo-me e toco o local, afastando o tecido azul e vendo que a mancha era muito maior.

— O que é isso?

— O que? — ele indaga confuso e abaixa o olhar para a mancha, um lampejo de reconhecimento passa por seus olhos. — Ah, isso. Uma moça acabou esbarrando em mim.

— Esbarrando?

Ele não acha que vou acreditar nisso, não é?

— Eu juro, amor. Era uma mancha pequena e tentei limpar, por isso ficou assim, eu sabia que reagiria dessa forma.

Fernando nunca me deu indícios de estar me traindo, sempre foi presente e muito carinhoso, então resolvo lhe dar o benefício da dúvida. Ele sabe que caso eu descubra uma traição estará tudo acabado.

— Espero que esteja dizendo a verdade, Fernando — disse, pegando minha mochila e abrindo a porta do carro. — E não, não precisa vir me buscar amanhã.

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