
Seu Último Suspiro, Sua Fúria Fria
Capítulo 2
Os dedos de Gisele se fecharam ao redor do envelope com uma força surpreendente. O papel áspero arranhou minha pele.
"O que você está fazendo?", gritei, tentando pegá-lo de volta. "Devolva isso!"
"Estou fazendo meu trabalho", ela zombou, segurando o envelope fora do meu alcance. Seus olhos brilhavam com uma alegria fria e cruel. "Estou protegendo o Sr. Moraes do lixo."
Ela olhou ao redor do vasto saguão aberto. Seu olhar caiu sobre uma porta marcada como 'Copa'.
"Você acha que um vestido barato e uma história inventada sobre uma irmã moribunda vão te conseguir uma reunião com um bilionário?", ela disse, sua voz um rosnado baixo. "Vocês são todas iguais. Patéticas."
Ela agarrou meu braço, suas unhas cravando na minha pele.
"Me solta!" Tentei me afastar, mas ela era forte.
"Nós vamos ter uma conversinha", ela disse, me arrastando em direção à porta da copa. "Vou te ensinar uma lição sobre incomodar pessoas importantes."
Ela me puxou para dentro da sala pequena e sem janelas e bateu a porta. O clique da fechadura ecoou no silêncio repentino. A sala cheirava a café velho e produtos de limpeza.
Ela me jogou contra um balcão. A quina afiada cravou nas minhas costas, e eu arquejei de dor.
"Por favor, apenas me escute", eu supliquei.
"Ah, eu já ouvi o suficiente", ela disse. Ela ergueu o envelope pardo. "Vamos ver que tipo de lixo você inventou."
Com um movimento brusco e deliberado, ela rasgou o envelope.
"Não!" Eu me lancei para pegá-lo, mas ela me empurrou para trás com força.
Tropecei e caí no chão, minha cabeça batendo no linóleo com um baque surdo. Por um momento, a sala girou.
Ela nem sequer olhou para mim. Ela tirou o conteúdo – todo o histórico médico de Aline. As cartas dos médicos, os resultados dos exames, o plano cirúrgico detalhado que representava nossa última esperança.
"Olha só isso", ela disse com um suspiro teatral, espalhando os papéis pelo chão. "Tanto esforço. Sério, você deveria ter tentado ser atriz. Poderia ter se dado bem."
Ela pegou a primeira página, aquela com a foto de Aline.
"'Aline Almeida'", ela leu em voz alta, sua voz escorrendo falsa simpatia. "'Diagnóstico terminal.' Tão dramático."
Ela olhou para mim, esparramada no chão em meio aos registros espalhados do sofrimento da minha irmã.
"Sabe o que eu acho?", ela disse, agachando-se para que seu rosto ficasse no mesmo nível que o meu. "Eu acho que você é uma mentirosa. E eu odeio mentirosos."
Sua mão disparou e me deu um tapa no rosto.
A dor ardeu, brutal. Minha cabeça virou com o impacto. Fiquei ali, atordoada, sentindo o gosto de sangue na boca.
"Isso é por mentir", ela disse calmamente.
Então ela começou a rasgar metodicamente os papéis. Cada rasgo era um pedaço da minha alma se partindo. O encaminhamento do médico. A proposta cirúrgica. A página com o detalhamento dos custos. Ela os rasgou em pedaços cada vez menores.
"E isso é por pensar que poderia me enganar."
Ela juntou o confete da nossa última esperança em suas mãos.
"Minha irmãzinha...", sussurrei, as palavras sufocadas pelas lágrimas. "Você não entende..."
"Eu entendo que você está tentando dar um golpe em um homem rico", ela disse, sua voz se elevando com um fervor estranho e obsessivo. "Você acha que pode vir aqui e colocar suas garras nele? Eu dediquei minha vida ao Daniel. Sou eu quem está ao lado dele. Não um pedaço de ralé com um vestido barato."
Ela se levantou e caminhou até a lixeira industrial no canto. Ela segurou os punhados de papel picado sobre ela.
"Por favor, não", solucei, tentando me levantar. Meu corpo doía. Minha cabeça latejava.
Ela sorriu, um sorriso verdadeiramente aterrorizante e triunfante.
E ela deixou os pedaços caírem.
Eles flutuaram para a escuridão da lixeira. Sumiram. Tudo tinha sumido.
Eu encarei a lixeira, minha mente em branco de horror. O atraso. As palavras do médico ecoavam na minha cabeça. A janela está se fechando.
Gisele não tinha terminado. Ela chutou os papéis restantes no chão, manchando-os com o salto de seu sapato caro.
Então ela olhou para minha bolsa, que havia caído ao meu lado. Ela a pegou e esvaziou seu conteúdo no chão. Uma barrinha de cereal pela metade, minhas chaves, uma carteira gasta com vinte e sete reais dentro, e meu celular velho, de tela rachada.
Ela cutucou o celular com a ponta do pé. "Tentando chamar reforços?"
"É a vida da minha irmã que você acabou de jogar no lixo", eu disse, minha voz tremendo com uma raiva que começava a queimar através do choque.
Ela riu. Era um som agudo e feio. "A vida da sua irmã? Não seja tão melodramática. É só papel."
Ela se inclinou, seu rosto perto do meu novamente. "A mensagem é o que importa. E a mensagem é: fique longe de Daniel Moraes. Ele é meu."
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