
Seu Último Suspiro, Sua Fúria Fria
Capítulo 3
Uma batida súbita e forte na porta da copa fez Gisele estremecer.
"Gisele? Você está aí?", uma voz de mulher chamou do outro lado. "Está tudo bem?"
Um fio de esperança cortou meu desespero. Havia alguém lá fora. Eles me ajudariam.
Abri a boca para gritar, mas Gisele me lançou um olhar de puro veneno. Ela levou um dedo aos lábios em um gesto de falso segredo, e então um sorriso cruel se espalhou por seu rosto.
Ela alisou seu terninho, recompôs-se em um instante e caminhou até a porta.
Ela a abriu uma fresta, bloqueando a visão da sala com seu corpo. Duas outras assistentes, ambas mais jovens e com trajes corporativos semelhantes, estavam no corredor.
"O que foi?", Gisele perguntou, seu tom de volta ao seu comando nítido e profissional de sempre.
"Ouvimos gritos", disse uma das assistentes, espiando por trás de Gisele, tentando ver lá dentro. "Pensamos que talvez houvesse um problema."
Gisele riu levemente, um som completamente fabricado. "Um problema? Não, só estou jogando o lixo fora."
Ela se afastou o suficiente para que elas me vissem, uma pilha patética no chão, cercada pela bagunça da minha vida.
As duas mulheres olharam para mim. Não havia simpatia em seus olhos. Apenas um desprezo frio e desdenhoso que espelhava o de Gisele.
"Ah", disse a primeira. "Mais uma."
"Essa disse que era irmã do Sr. Moraes", disse Gisele, revirando os olhos. "Elas estão ficando mais criativas, tenho que admitir."
A segunda assistente, uma loira de nariz afilado, interveio. "Você viu o sapato dela? Eu morreria antes de usar uma coisa daquelas."
Todas elas riram. Eram uma matilha, e eu era a presa. Minha esperança morreu tão rápido quanto nasceu. Essas pessoas não estavam aqui para ajudar. Estavam aqui para assistir.
Os olhos de Gisele voltaram para mim, e ela notou o celular caído no chão. Uma nova onda de raiva cruzou seu rosto.
"Você achou que ia ligar para alguém?", ela sibilou, voltando para a sala e fechando a porta novamente.
Eu me arrastei em direção ao celular, meus dedos desajeitados na tela rachada. Eu tinha que ligar para alguém. O hospital. A polícia. Qualquer um.
Meu polegar conseguiu apertar o botão de chamada de emergência bem no momento em que o sapato de Gisele desceu sobre minha mão.
Gritei quando uma dor aguda e agonizante subiu pelo meu braço. O celular deslizou para longe do meu alcance.
Gisele o pegou. Ela olhou para a tela.
"Tentando ligar para o 190? Para dizer o quê? Que você estava invadindo e eu pedi para você sair?", ela zombou.
Ela virou o celular na mão. Na parte de trás havia um adesivo desbotado de um girassol, um que Aline havia colocado anos atrás. Era nossa flor favorita. Daniel costumava trazê-las para nossa mãe.
Os olhos de Gisele se estreitaram. "Onde você conseguiu isso?"
"É só um adesivo", engasguei, segurando minha mão latejante.
"Não minta para mim!", ela estalou. "O Sr. Moraes tem um girassol tatuado no pulso. Eu já vi. Você está tentando copiá-lo? Isso faz parte da sua fantasia patética?"
Ela estava delirando. A tatuagem era em memória de nossa mãe. Ele a fez no ano antes de ir embora.
Antes que eu pudesse explicar, ela jogou o celular no chão. Então ela pisou nele, uma, duas, três vezes com um barulho doentio de plástico e vidro se quebrando. A tela ficou preta. O adesivo de girassol foi obliterado.
Minha última conexão com o mundo exterior se foi.
"Pronto", ela disse, respirando pesadamente. "Sem mais ligações."
A fúria nela parecia ter se soltado da coleira. Ela agarrou um punhado do meu cabelo e puxou minha cabeça para trás.
"Você me causou tantos problemas hoje", ela cuspiu, seu rosto a centímetros do meu. "Você entra no meu prédio, mente na minha cara, desperdiça meu tempo."
Ela me empurrou de novo, e eu caí para trás contra a parede, minha cabeça batendo na superfície dura.
"Acho que você precisa de um lembrete mais permanente para ficar longe."
Ela olhou ao redor da sala, seus olhos pousando em uma garrafa de café deixada em uma cafeteira. Uma ideia sombria se formou em seus olhos.
"Você parece estar com frio", ela disse com um sorriso malicioso. "Vamos te aquecer."
Ela pegou a jarra de vidro de café. Ainda estava pela metade. O vapor subia do bico.
Meus olhos se arregalaram de terror.
"Não, por favor, não!"
Ela me ignorou. Ela caminhou em minha direção, a garrafa de café quente erguida como uma arma. As duas outras assistentes, que haviam entrado na sala atrás dela, apenas ficaram perto da porta e observaram, seus rostos uma mistura de medo e curiosidade mórbida. Elas eram suas cúmplices agora, seu silêncio uma forma de consentimento.
Isso não era mais apenas sobre se livrar de uma suposta golpista. Isso era crueldade por si só. Ela estava gostando disso.
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