
Sem Espaço Para o Remorso Deles
Capítulo 2
A porta da mansão dos Silva se abriu, e um ar frio de ar-condicionado me atingiu, um contraste gritante com o calor úmido da rua de onde eu vim. Sr. e Sra. Silva, meus pais biológicos, estavam parados no meio de um hall de entrada tão grande que ecoava. Eles me olhavam com uma mistura de culpa e curiosidade, como se eu fosse um artefato perdido que eles finalmente encontraram, mas não sabiam bem onde colocar na estante.
"Júlia, querida. Bem-vinda ao seu lar."
A voz da Sra. Silva era suave, mas parecia ensaiada. Sr. Silva apenas acenou com a cabeça, o maxilar tenso. Eu apertei a alça da minha mochila gasta, a única coisa que eu trouxe do meu antigo mundo.
De repente, uma figura desceu as escadas de mármore com uma leveza que parecia coreografada. Era Patrícia. Ela usava um vestido branco impecável que flutuava ao seu redor, o celular na mão, provavelmente gravando um story. Ela era exatamente como nas fotos que me mostraram, uma influenciadora digital polida até o último fio de cabelo.
Ela parou na minha frente, o sorriso perfeitamente branco.
"Irmãzinha! Finalmente! Eu estava tão ansiosa para te conhecer."
Patrícia me abraçou. Foi um abraço para as câmeras, senti o cheiro do perfume caro dela, mas não senti nenhum calor. Era uma performance. Ela me soltou e me olhou de cima a baixo, um brilho de análise em seus olhos, avaliando minhas roupas simples e meu cabelo preso sem muito cuidado.
"Você deve estar exausta. Vamos, mamãe e papai prepararam tudo para você."
Sra. Silva pigarreou, retomando o controle da cena.
"Sim, querida. O que você gostaria de fazer primeiro? Podemos ir às compras, renovar seu guarda-roupa. Ou talvez um carro? O que você quiser, Júlia. Qualquer coisa."
Eles esperavam um pedido grandioso, uma lista de desejos de uma garota pobre que de repente ficou rica. Eu olhei para seus rostos expectantes, para a opulência ao meu redor. Só havia uma coisa na minha mente, uma única obsessão que me manteve de pé por todos esses anos.
"Eu só quero estudar."
O silêncio que se seguiu foi pesado. Patrícia ergueu uma sobrancelha. Sr. Silva franziu a testa.
"Estudar?", repetiu a Sra. Silva, confusa. "Claro, querida, mas... o que você quer dizer com isso? Você pode ter os melhores tutores, ir às melhores escolas, mas não precisa se preocupar com isso agora."
"Eu quero me tornar uma chef de cozinha", eu disse, minha voz firme, cortando a hesitação deles. "Eu preciso estudar em uma boa escola de culinária. É só isso que eu quero."
A confusão nos rostos deles se aprofundou. Uma chef? A herdeira de um império do café queria trabalhar em uma cozinha? A ideia parecia absurda para eles.
Mais tarde, no jantar, a mesa era longa e coberta de pratos que eu só tinha visto em revistas. A família comia em silêncio, um silêncio tenso. Eu, no entanto, estava com fome. Uma fome profunda, que vinha de anos de refeições contadas. Eu comi com foco, terminando tudo no meu prato rapidamente. O garçom veio retirar meu prato, mas eu o impedi.
"Posso repetir, por favor?"
Todos na mesa pararam de comer para me olhar. Vi o embaraço no rosto da Sra. Silva e um sorriso de escárnio no de Patrícia. Ignorei. Eu estava garantindo que meu corpo tivesse o combustível que precisava. Comida era energia. Energia para estudar.
Depois do jantar, Patrícia se aproximou de mim no corredor.
"Então, você vai tentar roubar meu lugar, não é? Chegando aqui com essa história de 'garota humilde', fingindo que só quer estudar. É uma boa tática."
Eu a encarei, sem emoção. A intriga dela era como um ruído de fundo, irrelevante.
"Eu não quero o seu lugar", eu disse, minha voz monótona. "Eu não me importo com nada disso. Só me dêem os recursos para estudar, e eu não vou atrapalhar a vida de vocês."
"Recursos? Você fala como se isso fosse um negócio."
"Talvez seja", respondi.
Antes que ela pudesse dizer mais alguma coisa, Rodrigo, meu irmão biológico que até então tinha ficado em silêncio, passou por nós. Ele me deu um empurrão de leve no ombro.
"Cuidado, Patrícia. Essa aí parece uma caipira, mas pode ser mais esperta do que a gente pensa."
Ele riu e continuou andando. Patrícia sorriu, satisfeita com o apoio dele.
Eu não respondi. Ajeitei a alça da minha mochila no ombro e me virei. As palavras deles não me atingiam. O desprezo deles era inútil para mim. Eu tinha um único propósito, e eles eram apenas um meio para um fim.
"Eu quero me tornar uma chef", repeti para mim mesma, em voz baixa. "O resto não me interessa."
Eles podiam jogar seus jogos de família rica. Eu tinha um plano diferente. Um plano que minha avó Rosa, a mulher que realmente me criou, teria aprovado. E eu não ia deixar ninguém me desviar dele.
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