
Sem Espaço Para o Remorso Deles
Capítulo 3
Na manhã seguinte, desci para o café da manhã e encontrei meus pais biológicos sentados à mesa, lendo jornais em tablets. O silêncio era o mesmo da noite anterior. Eu me sentei e me servi de uma grande porção de ovos, pão e frutas. Comi com o mesmo foco. Quando terminei, limpei a boca com o guardanapo de linho.
"Preciso de dinheiro", eu disse, sem rodeios.
Sr. e Sra. Silva baixaram seus tablets. Eles me olharam, surpresos pela minha abordagem direta.
"Dinheiro?", perguntou a Sra. Silva, como se a palavra fosse estranha. "Claro, querida. Para quê? Quer ir às compras? A Patrícia pode te levar."
"Não. Para os estudos. Eu pesquisei as melhores escolas de culinária do país. Elas são caras. Preciso pagar a matrícula, os materiais, os livros. Preciso de um orçamento."
Eles trocaram um olhar. Era evidente que não sabiam como reagir a mim. Eu não agia como uma filha perdida e agradecida. Eu agia como uma empresária apresentando uma proposta.
"Júlia, nós podemos cuidar disso", disse o Sr. Silva, a voz grave e um pouco impaciente. "Não precisa se preocupar com os detalhes financeiros."
"Eu preciso", insisti. "Eu preciso saber o valor. Preciso ter controle sobre ele. É o meu futuro."
O desconforto deles era palpável. Eles queriam uma filha que pudessem moldar, exibir em eventos sociais. Em vez disso, receberam alguém que só falava de orçamentos e planos de estudo, alguém que os tratava com uma distância fria e profissional.
Nesse momento, Rodrigo entrou na sala de jantar. Ele já estava vestido com um terno caro, pronto para ir para a empresa da família. Ele me olhou com desdém.
"Já está pedindo dinheiro, é? Não perdeu tempo."
"É para os meus estudos", respondi, sem me abalar.
"Ah, claro. A 'futura chef'", ele zombou. "Papai, não vá dar muito dinheiro para ela. Sabe-se lá o que essa gente faz quando vê tanto dinheiro pela primeira vez."
A Sra. Silva suspirou.
"Rodrigo, por favor."
Mas o Sr. Silva parecia concordar com o filho. Ele me estudou por um momento.
"Vamos ver, Júlia. Vamos conversar sobre isso mais tarde."
"Eu preciso de uma resposta agora", eu disse, mantendo meu tom neutro. "O prazo de matrícula para o curso intensivo de preparação termina amanhã."
Eu não estava pedindo. Eu estava informando. Eu me levantei da mesa, peguei minha mochila.
"Vou para a biblioteca pública. É onde eu estudo. Quando tiverem decidido sobre o orçamento, podem me ligar."
Eu não esperei por uma resposta. Simplesmente me virei e saí da sala de jantar, deixando-os em seu silêncio chocado. Eu podia sentir os olhos deles nas minhas costas, uma mistura de raiva, confusão e talvez um pingo de culpa. Para mim, não importava.
O mundo deles era feito de aparências, de poder e de conexões sociais. O meu era feito de um objetivo claro e inabalável. Eles me viam como uma estranha, uma anomalia. E eu os via como um banco. Um recurso necessário para alcançar o que eu mais desejava.
Caminhei pela longa entrada da mansão e saí para a rua. O ar quente não me incomodava mais. Eu estava focada. Na minha mente, eu já estava planejando os próximos passos: a matrícula, os livros que precisaria comprar, as horas de estudo que teria pela frente.
As intrigas daquela família, o desprezo de Rodrigo, a falsidade de Patrícia, tudo isso era apenas ruído. Um obstáculo temporário. Eu obtive o que precisava deles - o acesso aos recursos - e agora eu podia me concentrar no que realmente importava.
Meu celular vibrou no bolso. Era um número desconhecido.
"Alô?"
"Júlia. É seu pai. O dinheiro será transferido para uma conta em seu nome hoje à tarde. O gerente do banco ligará para você."
A voz dele era fria, transacional.
"Qual o valor?", perguntei.
Ele me disse um número. Era mais do que suficiente.
"Obrigada", eu disse, e desliguei.
Não houve "obrigada, papai". Não houve emoção. Foi uma transação concluída. Eu guardei o celular e continuei andando em direção à biblioteca, o passo um pouco mais leve. O jogo havia começado, e eu tinha acabado de fazer meu primeiro movimento.
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