
Secretaria submissa
Capítulo 2
Na manhã seguinte
— Tem algo de errado e vocês não podem me esconder — Charlotte
afirmou minutos antes embarcar no próximo voo.
Mamãe varreu com as mãos os ombros da minha irmã e negou mais
uma vez:
— Claro que não, querida. É coisa da sua cabeça.
— E por que tenho que voltar urgentemente para Stanford?
Dei um passo à frente e a tranquilizei:
— Escute, Charlotte. Você confia em mim?
Ela meneou a cabeça em positiva.
— Então não se preocupe. Eu e a mamãe ficaremos bem e precisamos
que embarque nesse voo hoje mesmo — falei, lhe oferecendo um pedaço de
papel.
— O que isso? — ela perguntou, confusa.
— O número de celular de um colega que conheci em um
acampamento de verão alguns anos atrás. Arón também está estudando em
Stanford e estará esperando você no aeroporto. Por favor, Charlotte, esteja
sempre perto dele na universidade e em hipótese alguma saia do campus ou
da fraternidade sozinha.
— Por que disso agora, Tara? — Pela primeira vez, senti Charlotte se
assustar de fato com a situação. — Por que preciso de alguém para me
proteger? O que está acontecendo? Estamos correndo perigo?
Emudeci.
— Eu tenho o direito de saber. — Ela apertou o punho. — É alguma
coisa com o papai? É isso?
Olhei para minha mãe e ela balançou levemente a cabeça em negativa
para mim.
Eu não poderia revelar a verdade para Charlotte naquele momento,
pois a conhecia suficientemente bem para saber que ela não entraria naquele
voo se soubesse da situação em que nos encontrávamos.
Tornei a fitar o olhar doce de minha irmã e me aproximei para abraçá-
la.
— Vai ficar tudo bem, Lottie. Por favor, você tem que confiar em
mim para que tudo dê certo.
— Eu preciso saber o que está acontecendo para poder confiar em
você, Tara. Eu não conseguirei ficar tranquila sabendo que estão me
escondendo algo.
Apertei seu corpinho contra o meu, encostei os lábios em sua orelha e
sussurrei sem que minha mãe pudesse ouvir:
— Eu coloquei uma carta em sua bolsa antes de sair de casa. Lá eu
explico exatamente tudo. Leia tudo com máxima atenção e cautela quando o
avião alçar voo. — Afastei meu corpo e segurei suas mãos. — Vai dar tudo
certo, irmã. Mas você precisa entrar no avião primeiro.
Ela mordeu o canto dos lábios, contendo as lágrimas.
— Certo.
A voz no alto autofalante do aeroporto anunciou a última chamada,
nos alertando para o tempo.
Charlotte me abraçou novamente, só que dessa vez com mais força.
— Eu te amo.
— Eu te amo muito — respondi, apertando seus cabelos e lutando
contra a vontade imensa de chorar.
Charlotte recuou um passo, com os olhos em lágrimas, e abraçou
nossa mãe também, se despedindo em seguida e caminhando para o portão de
embarque.
Ela olhou para trás, em uma oportunidade derradeira de nos ver pela
última vez, mesmo que por um breve instante, e tão logo se obrigou a seguir
em diante, desparecendo na porta à frente.
Permanecemos ali por alguns minutos, como se estivéssemos
digerindo a partida de Charlotte. Ou talvez só esperando que minha mãe se
virasse para mim e me lembrasse daquilo que foi combinado.
— Temos de voltar logo para casa. Gilbert já deve estar indo ao seu
encontro.
— Não.
Mamãe se virou para mim e indagou:
— Como não?
— Não vou fazer isso, mamãe. Não vou dar minha vida de bandeja
àquele homem.
Ela pareceu inspirar fundo e disse, pausadamente:
— Já havíamos conversado sobre isso. Pensei que já estivesse tudo
certo em sua cabeça, Tara.
Virei para encará-la e disse:
— Eu vou fugir agora. Se quiser, venha comigo, mãe. Caso contrário,
me sentirei profundamente culpada se algo lhe acontecer. Mas essa é minha
vida e você não pode me obrigar a ir ao inferno e continuar vivendo.
Assisti seu rosto endurecer e suas linhas de expressão marcarem ainda
mais sua face. Minha mãe demorou a falar alguma coisa, mas disse depois de
muito pensar:
— Qual o seu plano?
Perseguimos as portas laterais do aeroporto em passos urgentes.
Se tudo desse certo, encontraríamos uma viatura da polícia que nos
levaria à delegacia e eu denunciaria todo o ocorrido, pedindo para que
acionassem a polícia da Califórnia assim que Charlotte tocasse o chão do
aeroporto Internacional de Los Angeles.
Embora mamãe acreditasse que nada que fizéssemos mudaria o nosso
destino, eu tentaria. Morreria tentando caso fosse preciso. E quando eu
chegasse à delegacia, ligaria minha câmera e anunciaria toda essa merda aos
quatro cantos, destruindo a imagem de vida perfeita que construí nos últimos
anos.
— Por favor, nos ajude! — eu disse, me aproximando de um policial
ao lado de uma viatura perto da entrada lateral. Ele era alto, tinha cabelos
pretos e usava óculos escuros.
— Com o que posso ajudar, senhorita?
— Eu e minha mãe estamos sendo perseguidas, precisamos de ajuda!
— quase implorei por aquilo.
— Acalme-se. Claro que posso ajudá-las, vocês estão seguras agora.
Mas precisam me contar exatamente o aconteceu — ele disse, tocando o meu
braço. — Vamos entrando na viatura, as levarei para um local em que
possamos conversar melhor.
— Para delegacia? — mamãe questionou o rapaz.
— Sim, para a delegacia. — ele falou, abrindo a porta.
Mamãe tocou o meu braço, como se quisesse desistir.
— Oh, mãe! Vamos lá, vamos manter a fé — disse, baixinho.
— Senhorita, algum problema? — o policial perguntou atrás de mim.
— Hãm, não, nada! Minha mãe só está assustada.
— Seja lá quem esteja perseguindo sua mãe e a senhorita, não
deixarei que essas pessoas ponham as mãos em vocês. Dou minha palavra.
Senti mamãe relaxar ao meu lado e ela foi convencida pelo homem de
bem em nossa frente.
Dei espaço para que ela pudesse passar e entrar no carro e em seguida
fiz o mesmo, sentando no banco traseiro.
— Aliás, qual é mesmo seu nome? — perguntei para o homem que se
aprumou no lugar do motorista.
Ele retirou os óculos escuros e me respondeu:
— Nico.
— Prazer, Nico. Eu me chamo Tara, e minha mãe, Eleanor.
— O prazer é todo meu, pessoal. — ele respondeu, me encarando pelo
retrovisor com um meio sorriso nos lábios.
Segurei a mão da senhora ao meu lado e sussurrei que tudo ia dar
certo, como um mantra, enquanto Nico dava partida e dirigia para a
delegacia.
A rota começou a ficar estranha quando não prosseguimos pelas
avenidas agitadas de Chicago. Ao invés disso, Nico pegou uma estrada cujos
os lados não tinham nada além de árvores enormes e musgos na base dos
troncos.
Mamãe apertava minha mão com força e eu questionei Nico, que
havia ficado calado desde que saímos do aeroporto.
— Com licença, Nico. Não deveríamos seguir pela cidade?
— Estamos na cidade, srta. Tara. Não se preocupe, estamos quase
parando.
— Tem certeza?
— Absoluta. Olha lá, eles já estão nos esperando — ele disse.
— Eles quem? Nós não estávamos indo para a delegacia?
Olhei rapidamente para a frente através do para-brisa e avistei dois
carros pretos altos, muito semelhantes aos que encontramos no dia anterior
quando chegamos do funeral. Alguns homens de pretos esperavam ao lado do
carro e um nó se formou em minha garganta quando reconheci um deles, o
careca de rosto tatuado.
Não. Não pode ser. Não!
Fitei minha mãe, que estava cabisbaixa, como se já tivesse imaginado
que isso aconteceria.
— Desgraçado! — Avancei pelo banco, socando o vidro blindado
entre nós, fazendo com que as extremidades estremecessem. — Nós
confiamos em você — rosnei.
— Infelizmente, não sou uma pessoa em que possa se confiar,
senhorita — ele declarou.
O homem que se apresentou como Nico parou no acostamento e no
mesmo instante a porta do carro da frente se abriu e aquele homem nojento se
pôs para fora.
Senti todos os meus membros ficarem dormentes, enquanto meu
cérebro era esmagado pela possibilidade do meu corpo ser tocado por aquele
velho asqueroso.
A porta ao lado se abriu em um rompante junto à ordem de Gilbert:
— Saia!
Fiquei parada, escutando as batidas desesperadas de meu coração,
com um grito de socorro entalado na garganta.
— Eu disse para sair, sua vadia insolente! — Ele agarrou meus
cabelos e me puxou para fora, enquanto minha mãe gritava.
Caí no chão, ralando meu braço no asfalto. Ele veio para cima de mim
e espancou um tapa em meu rosto. Mamãe gritou mais alto, pedindo para
parar, no entanto, sua voz foi abafada por alguém.
O covarde me levantou, me segurando pelos cabelos, e disse em meu
ouvido:
— Essa é a última vez que você terá a chance de tentar fugir de mim.
Na próxima, eu corto sua garganta.
— Corte minha garganta agora! — Cuspi em sua cara.
Ele apertou os olhos, respirou fundo e depois os abriu lentamente,
com o inferno no olhar.
— Vai demandar muito tempo para domar você, menina. Mas não me
importo, adoro éguas selvagens. — Ele acariciou o lado do meu rosto com o
dedão e eu fechei os olhos, sentindo minha bochecha queimar com as
lágrimas que vazavam dos meus olhos. — Você me amará, Tara. Ou pelo
menos, me obedecerá. Eu prometo, menina.
Ele se afastou, dizendo alto:
— Dom! Pega a garota.
Olhei para o lado e vi o brucutu tatuado vindo ao meu encontro com
um pano na mão.
— O quê? — perguntei enquanto ele se aproximava e pegava minha
cabeça com a palma da mão com brutalidade. — O que você vai fazer?
Ele não respondeu, apenas cobriu minhas vias respiratórias com um
produto químico, o qual não consegui identificar. Tentei agarrar o punho do
algoz e tentar lutar contra meus sentidos para eu permanecer lúcida, porém
eles foram enfraquecendo a cada fração de segundo, até eu me entregar
completamente aos braços da escuridão.
Você pode gostar





