
Renascer das Cinzas: A Escolha Dele
Capítulo 2
O cheiro a queimado acordou-me.
Abri os olhos e vi fumo a entrar por baixo da porta do quarto, espesso e cinzento. O alarme de incêndio do prédio gritava, um som agudo e incessante que me perfurava os ouvidos.
A minha barriga de nove meses pesava, tornando cada movimento lento e difícil.
Levantei-me, a tossir, e agarrei no telemóvel. O meu primeiro instinto foi ligar ao meu marido, Diogo. Ele tinha saído há vinte minutos para ir à farmácia, a apenas algumas ruas de distância.
O telemóvel chamou uma, duas, três vezes.
"Clara? Que barulho é esse?"
A voz dele soava distante, abafada.
"Diogo, fogo! Há um incêndio no prédio, estou presa no quarto!"
A minha voz saiu rouca, quebrada pelo pânico e pelo fumo que já enchia os meus pulmões.
"O quê? Fogo? Fica onde estás, não abras a porta! Os bombeiros já devem estar a caminho."
"Vem para casa, Diogo, por favor, estou com medo."
Fez-se um silêncio do outro lado da linha, mas não era um silêncio vazio, ouvi outra voz, uma voz de mulher, a chorar histericamente.
Era a Sofia, a sua meia-irmã.
"Diogo, eu não consigo respirar, acho que vou morrer, o fumo está por todo o lado," a voz dela soava aguda e desesperada.
"Calma, Sofia, eu estou a ir para aí, já estou quase a chegar," o Diogo respondeu-lhe, a sua voz cheia de uma urgência que não tinha tido para mim.
O meu coração gelou.
"Diogo?" chamei, a minha voz um sussurro. "E eu?"
Ele hesitou por um segundo.
"Clara, a Sofia está a ter um ataque de pânico, ela viu o fumo da janela dela, pode ser perigoso. Tu estás mais segura aí dentro, os bombeiros são profissionais, eles vão tirar-te daí. Eu preciso de ir ter com ela."
Antes que eu pudesse dizer mais alguma coisa, que o nosso filho estava prestes a nascer, que era a mim que ele devia salvar, ele desligou.
O telemóvel caiu da minha mão.
Sentei-me no chão, encostada à porta, com o fumo a queimar-me a garganta.
Lá fora, as sirenes ficavam cada vez mais altas.
Eu estava a carregar o filho dele. E ele escolheu-a a ela.
A minha visão ficou turva, e a última coisa que senti foi uma dor aguda na barriga antes de tudo ficar preto.
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