
Renascer das Cinzas: A Escolha Dele
Capítulo 3
Acordei com o som constante de um bip.
O cheiro não era de fumo, mas de antissético. Estava num quarto de hospital, branco e estéril.
Um homem de bata branca estava ao lado da minha cama, a ajustar o soro.
"Olá, Clara. Sou o Dr. Miguel. Você está no Hospital de Santa Maria. Inalou muito fumo, mas vai ficar bem."
A minha mão foi instintivamente para a minha barriga. Estava vazia. Plana.
O pânico subiu pela minha garganta, frio e amargo.
"O meu bebé," sussurrei, a voz a falhar. "Onde está o meu bebé?"
O Dr. Miguel olhou para mim, os seus olhos cheios de uma compaixão que me partiu o coração.
"Clara, devido ao stress e à falta de oxigénio, tivemos de fazer uma cesariana de emergência. O seu filho... ele nasceu muito fraco. Fizemos tudo o que podíamos, mas os pulmões dele não resistiram."
As palavras dele pairaram no ar, mas a minha mente recusava-se a aceitá-las.
Não.
O meu filho. O nosso filho.
Não chorei. Não gritei. Senti apenas um vazio imenso a abrir-se dentro de mim, um buraco negro que engolia toda a luz e todo o som.
A porta do quarto abriu-se e o Diogo entrou. Atrás dele, agarrada ao seu braço, estava a Sofia. Tinha os olhos vermelhos, mas não parecia ter estado num incêndio. Parecia perfeitamente bem.
"Clara! Graças a Deus que estás bem! Fiquei tão preocupado!"
O Diogo correu para a minha cama, mas eu encolhi-me.
Ele não reparou. A sua preocupação era um espetáculo para uma audiência de um. Ele próprio.
"A Sofia ficou em estado de choque, coitada. Tive de a levar às urgências também."
Olhei para a Sofia. Ela baixou o olhar, parecendo culpada. Mas não havia culpa nos seus olhos, apenas uma satisfação mal disfarçada.
"O nosso filho morreu, Diogo."
As palavras saíram da minha boca, frias e sem emoção.
Ele parou. O sorriso falso desapareceu do seu rosto.
"O quê? Como assim? O que é que o médico disse?"
"Ele disse que o nosso filho morreu."
O Diogo olhou para o Dr. Miguel, depois para mim, a sua cara a contorcer-se numa máscara de confusão e raiva.
"Isso... isso não pode ser."
Olhei para ele, para o homem com quem me casei, o pai do meu filho morto. E não senti nada. Apenas o vazio.
"Quero o divórcio, Diogo."
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