
Rejeição: O Preço da Inocência
Capítulo 2
Aos doze anos, o mundo de Maria Eduarda desabou, o caixão de sua mãe descia lentamente para a terra fria e o cheiro de flores e terra molhada preenchia o ar, um cheiro que ela jamais esqueceria.
Ela ficou parada, pequena e perdida em meio ao preto das roupas dos adultos, sem ter para onde ir.
Foi quando sentiu uma mão grande e quente em seu ombro.
Pedro, o melhor amigo de sua mãe, agachou-se na sua frente, seus olhos gentis encontrando os dela, inchados de tanto chorar.
"Duda, não se preocupe" , ele disse com a voz calma, uma voz que prometia segurança. "Eu vou cuidar de você, a partir de agora, pode me chamar de Tio Pedro."
Naquele momento, em meio à dor avassaladora, aquelas palavras foram sua única boia de salvação.
Ela se agarrou a ele, e ele a levou para sua casa, um lugar grande e bonito que se tornou seu novo lar.
Pedro a cercou de cuidados, ele era a figura paterna que ela nunca teve e a única família que lhe restara, mas com o passar dos anos, algo naquela relação começou a parecer diferente.
Havia um cuidado excessivo, um controle velado em seus gestos, um jeito de olhar que a deixava confusa.
Ele a proibia de sair com amigos, questionava suas roupas e parecia ter ciúmes de qualquer garoto que se aproximasse.
Na sua cabeça de adolescente, ela confundiu essa possessividade com amor.
Ela começou a sentir seu coração acelerar sempre que ele estava por perto, suas mãos suavam, e um calor subia por seu rosto.
Aos dezoito anos, no dia de sua formatura do ensino médio, Duda decidiu que não podia mais guardar aquele sentimento.
Ela o encontrou na sala de estar, lendo um livro sob a luz amarela do abajur, ele parecia tão bonito, tão inalcançável.
Ela respirou fundo, o diploma em suas mãos tremendo um pouco.
"Tio Pedro?"
Ele levantou os olhos do livro, um sorriso suave no rosto.
"Sim, Duda? Aconteceu alguma coisa?"
"Eu... eu preciso te dizer uma coisa" , ela gaguejou, sentindo o rosto queimar. "Eu acho que... eu te amo, mas não como um tio."
O silêncio que se seguiu foi pesado, denso.
O sorriso de Pedro desapareceu, seu rosto se transformou em uma máscara de frieza que ela nunca tinha visto antes.
Ele fechou o livro lentamente, o som ecoando na sala silenciosa.
Seus olhos, antes tão calorosos, agora a olhavam com uma distância cortante.
"Duda, sou apenas seu Tio Pedro, e nada mais."
A frase, dita em um tom baixo e firme, a atingiu em cheio.
Foi uma humilhação profunda, uma rejeição que esmagou seu coração de menina.
Ela sentiu as lágrimas quentes brotarem, mas as segurou, a vergonha era maior que a dor.
Ela apenas assentiu, virou as costas e correu para seu quarto, o som de seu próprio soluço abafado no travesseiro.
Naquela noite, ela tomou uma decisão, precisava fugir, precisava ir para o mais longe possível daquela casa, daquele homem.
Na manhã seguinte, com os olhos ainda inchados, ela preencheu os formulários de inscrição para as universidades, escolhendo deliberadamente a mais distante de todas, em outro estado, do outro lado do país.
Era sua única chance de recomeçar, de tentar esquecer o homem que ela chamava de Tio Pedro.
Os anos na faculdade foram uma lufada de ar fresco, Duda mergulhou nos estudos e na dança, sua verdadeira paixão.
Ela fez novos amigos, saiu para festas e até teve alguns namorados, mas nada sério.
No fundo, a sombra de Pedro ainda a assombrava.
Ela tentava se convencer de que o tinha superado, de que a paixão adolescente tinha ficado para trás.
Mas então, no dia de sua formatura da faculdade, ele reapareceu.
Ela o viu na multidão, alto, imponente, o mesmo charme de sempre, ele a observava com uma intensidade que a deixou desconfortável.
Depois da cerimônia, ele a abordou.
"Duda, você está linda" , ele disse, a voz soando exatamente como ela se lembrava.
"O que você está fazendo aqui, Pedro?" , ela perguntou, tentando manter a voz firme.
"Vim te ver, senti sua falta" , ele respondeu, como se fosse a coisa mais natural do mundo. "Está na hora de voltar para casa."
A palavra "casa" a fez estremecer.
"Eu não vou voltar" , ela disse, a determinação crescendo dentro dela. "Eu construí minha vida aqui."
A expressão dele escureceu, a possessividade que ela conhecia tão bem brilhando em seus olhos.
"Você não tem escolha, Duda, seu lugar é comigo."
Duda sentiu um calafrio, mas a jovem assustada de anos atrás não existia mais.
Ela o encarou, a mágoa e a raiva dando-lhe uma força que não sabia que tinha.
"Sabe, Pedro, eu aprendi uma coisa nesses anos" , ela disse, a voz cortante. "Eu sou apenas a Duda, e nada mais."
Ela usou as palavras dele contra ele, a frase que a humilhou por tanto tempo, e viu um lampejo de surpresa e raiva no rosto dele.
Ela se virou e foi embora, deixando-o parado no meio da multidão, sentindo pela primeira vez que talvez, apenas talvez, ela pudesse ser livre.
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