
Rejeição: O Preço da Inocência
Capítulo 3
A liberdade, no entanto, tinha um preço, e Duda o descobriu rapidamente.
Seu maior sonho era conseguir uma bolsa de estudos para uma prestigiada academia de dança no exterior, era sua chance de se tornar uma profissional, de transformar sua paixão em carreira.
Ela passou em todas as audições, seu talento era inegável, mas a bolsa cobria apenas as mensalidades, ela ainda precisaria de uma quantia significativa para o visto, a passagem e os custos de vida iniciais.
Era um valor que ela, recém-formada e trabalhando em um café de meio período, não tinha como conseguir.
Ela tentou de tudo, pegou mais turnos no trabalho, vendeu algumas coisas, mas o tempo estava se esgotando e o valor ainda era muito alto.
Depois de semanas de angústia, engolindo seu orgulho, ela decidiu que só havia uma pessoa que poderia ajudá-la.
Com o coração na mão, ela ligou para Pedro.
A voz dele do outro lado da linha era fria, distante.
"O que você quer, Duda?"
Ela explicou a situação, a voz tremendo um pouco enquanto detalhava a oportunidade da bolsa de estudos, a quantia que precisava, a urgência.
Houve uma pausa do outro lado.
Então, ela ouviu uma risada baixa, uma risada de escárnio.
"Ah" , disse ele, a voz carregada de um veneno sutil. "Então é isso, estudar no exterior? Para ir encontrar algum namoradinho novo? É por isso que você precisa do meu dinheiro?"
A acusação a atingiu como um soco.
"Não! Não é isso!" , ela protestou, a voz subindo uma oitava. "É pela dança, é o meu sonho! Você sabe o quanto isso é importante para mim!"
"Sei?" , ele disse, o tom cheio de um ciúme amargo que ela não entendia. "O que eu sei é que você fugiu e agora só me procura por dinheiro, parece que sua independência tem um preço, não é?"
As palavras dele eram cruéis, injustas.
Ela sentiu a raiva e a humilhação queimando em seu peito, mas antes que pudesse responder, ouviu uma voz feminina ao fundo, perto dele.
"Pedro, amor, com quem você está falando?"
A ligação ficou muda.
Duda ficou segurando o telefone, o som da linha morta ecoando em seu ouvido, o coração partido em mil pedaços mais uma vez.
Mais tarde naquela noite, a tortura continuou.
Ela estava rolando sem rumo pelas redes sociais quando viu, a foto a fez sentir como se o chão tivesse desaparecido sob seus pés.
Era uma postagem no perfil de Pedro.
Ele estava abraçado a uma mulher linda, Isabela, com um sorriso radiante no rosto.
A legenda dizia: "Comemorando o futuro com o amor da minha vida."
Eles estavam em um restaurante caro, uma taça de champanhe na mão dele, um anel de diamante brilhando no dedo dela.
Duda sentiu o ar faltar, era como se estivesse se afogando.
O homem que a rejeitou, que a acusou, que a humilhou, estava noivo.
Ela caiu na cama, o celular escorregando de sua mão, e as lágrimas que ela segurou durante a ligação finalmente vieram, um dilúvio de dor e desespero.
Enquanto soluçava, sua mente a traiu, levando-a de volta no tempo.
Ela se lembrou de quando era pequena e caiu de bicicleta, ralando o joelho.
Pedro a pegou no colo, limpou o machucado com um cuidado infinito e a carregou para casa nas costas.
Lembrou-se das noites em que tinha pesadelos e corria para o quarto dele, ele a deixava dormir em sua cama, segurando sua mão até que ela adormecesse novamente.
Lembrou-se dele ensinando-a a dirigir, a paciência em sua voz, o sorriso orgulhoso quando ela finalmente conseguiu.
Ele a mimava, a protegia, lhe dava tudo o que ela queria.
Ele era seu porto seguro, seu herói.
A linha entre o cuidado paternal e outra coisa sempre foi tênue, e ele a cruzava constantemente.
Ela se lembrou de um dia em particular, algumas semanas antes de sua confissão desastrosa.
Um colega de classe a convidou para o baile.
Quando ela contou a Pedro, animada, o rosto dele se fechou.
"Você não vai" , ele disse, o tom final.
"Mas por quê? Todo mundo vai!" , ela argumentou.
"Eu disse que não, Duda, esse assunto está encerrado."
Naquela noite, ele a levou para jantar em seu restaurante favorito, comprou o vestido mais caro da vitrine que ela tinha admirado dias antes e a tratou como uma princesa.
No caminho de volta, ele parou o carro e olhou para ela.
"Você não precisa de mais ninguém, Duda" , ele disse, a voz baixa e intensa. "Eu já tenho você."
Na sua inocência, ela interpretou mal aquelas palavras.
Seu coração disparou, a esperança florescendo em seu peito.
Ela achou que aquilo era uma declaração.
Ela achou que ele finalmente estava admitindo que sentia o mesmo.
A alegria era tanta que ela mal conseguia contê-la.
Foi essa falsa esperança, essa ilusão cuidadosamente construída por ele, que a levou a se declarar.
E a queda foi brutal.
Depois de sua confissão, a máscara dele caiu completamente.
"Você é só uma criança" , ele disse, o desprezo em sua voz a ferindo profundamente. "Acha mesmo que eu me interessaria por você? Você é um fardo, Duda, uma responsabilidade que eu carreguei por pena da sua mãe, não confunda as coisas."
"Você está sendo um peso morto, uma distração, e essa sua paixãozinha é ridícula, um devaneio sem o menor cabimento."
Cada palavra era calculada para machucar, para destruí-la.
"Essa sua fantasia é doentia, Duda, pare de ser ridícula e cresça."
Ele a fez sentir pequena, suja, errada.
Ele a fez duvidar de sua própria sanidade, de seus próprios sentimentos.
Ele a quebrou.
E agora, vendo aquela foto, ela entendeu.
Ele nunca a quis, ele só não queria que mais ninguém a tivesse.
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