
Rainha da Luxúria
Capítulo 2
Eu percebia os calos em meus dedos roçando através o volante escorregadio, a cartilagem muito dormente pela falta de circulação do sangue que sequer o assobio frio do assopro adentrando pelas quatro janelas entreabertas fora capaz de ajudar.
Meus olhos fixaram a água chegando ainda os meus joelhos, e, mais uma vez, levantei a cabeça com cuidado — tendo medo determinada concussão com o provável acidente —, e procurei enxergar o lado de fora. Ainda se encontrava obscuro, mas eu juraria que os números no painel marcavam 6:35 da manhã anteriormente que se apagasse totalmente.
O atraso pelo nascimento do sol parecia só mais uma de minhas muitas e infinitas preocupações. Tinha ainda aquela principal: Como e por quê encontrava-me dentro de um carro praticamente totalmente submerso?
O espelho retrovisor expôs uma imagem que não me aparentou ser familiar. Um rosto parcialmente arredondado de cor pálida, lábios cheios e olhos de pálpebras caídas, cercando grandes esferas de íris na cor castanho.
Meus compridos cabelos de um preto intenso incitavam silhuetas ao entorno dos meus ombros — silhuetas que eu juraria estarem se movendo e crescendo como um telespectador atípico para enxergar adiante — incitando-me instantes de pânico abrupto, em que eu me dirigia somente para encontrar o vazio, depois, voltava o meu olhar para os meus pés congelando pela água fria e continuava examinando a dormência dos meus dedos.
Como se contestasse a um chamado distante, meus ouvidos soaram com um zumbido. Por fim, fui capaz de mover as minhas mãos, levando-as ainda a minha cabeça. Meus dedos embrenharam-se em meus cabelos, tocando, reconhecendo, e um vinco se formou em minha testa assim que observei aquela imagem no espelho. Determinada coisa não aparentava estar certa com aquele corpo. Algo não aparentava estar certo comigo.
Expirando o ar em mínimas polegadas, tentei puxar uma das pernas. Água respingou e ressoou em meus ouvidos, mais alto do que eu aguardava que soaria mínimas doses de gotículas. Outra vez aquela diligência me fez girar a cabeça para trás, buscando uma ameaça.
Eu estou segura, eu repetia à medida em que puxava a outra perna. Minhas calças pesavam e grudavam na minha pele, mas isso não chegava perto da coisa mais inquietante para mim. Quem exatamente eu sou? Questionei em um sussurro seco, buscando pela resposta em cada suporte ou pequena alcova do carro.
Considerei que se encontrava-me em um carro que fosse meu, teria algum documento ou certificado, e praticamente gritei de alívio assim que peguei o quebra-sol e uma carteira caiu em meu colo.
Peguei o primeiro documento com foto, e lá encontrava-se a mesma garota que me fitava no espelho. Eu abaixei e levantei o meu olhar para ter convicção, e eu tinha. Meu nome, pelo o que dizia o documento, parecia Kaitlyn Fox, nascida em San Francisco, Califórnia, alguns meses para completar dezenove anos.
Com o cenho ainda enrugado, larguei o documento no banco do passageiro e voltei o meu olhar para o retrovisor, buscando enxergar o lado de fora. Fingindo não ver a estranha frieza na maneira que me observava, fiz um segundo autoexame a procura de possíveis ferimentos.
Encontrava-me intacta, com exceção de uma pequena dor abdominal, mas totalmente sã e salva de um acidente que jogou o meu carro em um lago, ou não importava qual coisa parecida.
Meus dedos ainda congelados reclamaram assim que abri a porta do carro e pulei na água, ensopando inteiramente o material do Jeans que a princípio não se encontrava úmido e molhando consideravelmente as pontas dos cabelos que iam ainda a cintura.
Anteriormente de chegar à margem do riacho que produzia mínimas ondas por correr suavemente ao meu entorno, imaginei se não teria sido uma boa ideia averiguar os bancos de trás de maneira minuciosa.
Quem sabe o que eu poderia ter achado ao menos em busca de um agasalho, pois ali fora, com o assopro da calada madrugada gelada e com roupas molhadas... Aparentou ser insano usar somente uma camisa e calças.
Eu estremecia tanto assim que me coloquei de pé, que o ruído estalava em meus ouvidos, assustando-me o tempo inteiramente. Cerrei os dentes, percebendo um leve desconforto no maxilar, e dobrei os braços ao meu entorno, cercando-me da maneira que me cabia à medida em que girava no ainda lugar, realizando um reconhecimento tático.
Não fui capaz de dizer como parte de mim ainda se detinha muito receosa e ridiculamente calma em uma situação desesperadora, mas eu me mantive respirando lentamente, controlando cada impulso que me implorava para correr e gritar. Olhei para o carro ainda estacado na água, e tracei uma linha ainda o alto, onde encontrei uma pequena ponte.
Não parecia de se espantar que eu houvesse caído de lá. Não importava qual pessoa com um pouco de álcool em seu sangue teria perdido o senso em uma ponte sem muretas. Eu não admitia a terrível verdade de que não me encontrava bêbada.
Pelo contrário. Minha sobriedade parecia maior ainda para alguém que acabara de sofrer um acidente. Eu ainda procurei encontrar um meio para escalar ainda a ponte, mas ela parecia protegida por terra seca e solo instável.
Escalar não se encontrava na minha lista de prioridades, e aparentava estar mais difícil do que se vê em filmes, então girei em meus calcanhares e me aventurei pela trilha de terra, cujo chão de pedras soltas e plantas rasteiras se expandia ainda uma abertura para a floresta silenciosa adiante.
Era sem sentido. Eu sabia disso. Entrar sozinha em uma floresta, logo após um acidente, não é algo muito inteligente de ser feito. Acrescente ainda a treva muito referente à noite e ao terror, longe de um amanhecer iminente, e o título de burrice tem um novo dono.
Meus passos pareciam propositalmente altos. Imaginava que essa seria uma maneira de espantar não importava qual animal à espreita. E aparentou ser funcional por um tempo. Galhos farfalhavam ao longe, criaturas sumindo de meu caminho.
As traiçoeiras plantas rasteiras me mantinham tropeçando de tempos em tempos, e isso me descuidava dos galhos mais altos, onde espinhos aguardavam para beijar o meu rosto em uma passagem dolorosa. Minhas bochechas ardiam assim que algo me fez girar a cabeça repentinamente para a esquerda.
Eu imaginei ter ouvido um ruído, uma canção, e, então, silêncio. Foi rápida o bastante para que eu percebesse a sua importância. Venha para mim, parecera dizer. Pisquei várias vezes, querendo decifrar o som, ainda após não o escutar mais. Parecia como uma voz jovial e velha, o chamado de um amante e uma mãe, rápido e lento. Sombrio.
Minhas pernas moveram-se por conta própria e eu me apanhei correndo pela trilha, abafando as plantas rasteiras com os meus tênis carregados pela água. A floresta nunca aparentava ter um fim, e encontrava-me praticamente me rendendo ao cansaço assim que outro som me fez parar.
Este não parecia uma canção, e não se aparentava com um chamado. O chão estremecia à medida em que o som se aproximava. Cada vez mais perto, ameaçador, horrível. Uma imagem desagradável correu em minha cabeça. Presas, patas e a maldade pairavam sobre uma criatura cujo rosto eu parecia impossibilitada de enxergar.
Corra, corra, venha para mim.
Não necessitei ouvir um segundo comando, disparei a correr por entre as arvores mais próximas do que deveriam, e me embrenhei em cada passagem de rochas bloqueando o caminho. Galhos estouravam atrás de mim, esmagados por algo mais carregado do que eu poderia lidar, maior do que eu imaginava.
O próprio solo aparentou se mover sob meus pés, lançando-me adiante com cambaleios. As arvores uniam-se ainda mais à medida em que eu passava, como se a criatura em meu encalço houvesse despertado a floresta. Como se as próprias arvores enegrecidas pela noite estivessem querendo me proteger.
Deslizei em uma parte úmida no solo e me apoiei em uma arvore, pressionando uma das mãos em meu estomago. Minha testa arranhou-se através a casca do tronco, e arrepios percorreram a minha pele com o som, ainda muito alto e próximo que eu podia dizer que o animal encontrava-se exatamente a alguns passos de me pegar.
Engoli a queimação em minha garganta, e tropecei outra vez, girando em volta. Aparentava que encontrava-me correndo em círculos, presa no ainda lugar. Não ousei esperar que a criatura aparecesse para me guiar um caminho, parti adiante, suspirando uma aleluia assim que o caminho se abrira para mais uma fenda nas rochas. Eu imaginava que atravessando-a encontraria uma rota de fuga. Eu tinha convicção que só precisava atravessar. E eu fiz.
Gelo deslizou em minhas veias, incitando-me a soltar um grito pelo choque em meu corpo calorento pela corrida. Cabelos e pedaços da minha roupa se moveram pela lufada de ar que me acertou de imediato, e um segundo depois, não tinha obscuro ou não importava qualquer floresta.
Encontrava-me em uma colina, olhando para o que aparentou ser um extenso rio que se expandia ao horizonte, banhando o sol poente em um tom profundamente obscuro de marrom-avermelhado, deslizando entre uma ravina rochosa.
O desfiladeiro não aparentava ter um começo e sequer um fim, serpenteando entre as rochas abaixo do intenso tapete em tom de verde-claro das vegetações em sua encosta. Meu peito se encheu de alivio, mas a minha cabeça gritou através as inconveniências.
Aquilo aparentava estar malditamente errado. Parecia lindo, profano, e sombrio... Como uma armadilha para quem quer que ousasse pular daquele penhasco, provocando em uma queda livre para as pedras impiedosas abaixo. Admito ter considerado a queda, a julgar pela sequência de sons que me encontraram no instante seguinte.
Eu não dei mais do que três passos sobre a grama verde e fresca para escutar um grito gutural e olhar atrás, onde a paisagem verde e brilhante contorcia-se ao entorno de uma pata enorme — maior do que as minhas duas mãos juntas — e garras tentavam me rasgar. O animal tinha, de algum modo, encontrado-me naquele lugar.
Então eu corri com toda a minha força restante, percebendo minhas coxas arderem pela velocidade. O chão estremeceu outra vez e eu cheguei ao final do penhasco, onde me encontrei encurralada, com duas possibilidades de morte girando sobre a minha cabeça.
E o peso dessa iminência aparentou ser verdadeiramente sério, porque me senti pesada e abalada, senti que meu corpo entrava em um colapso que jamais senti em toda a minha vida e me apanhei buscando por uma oração, buscando nas memórias por uma prece e não tinha nada.
Desespero me varreu, muito rápido que não senti meus joelhos cederem, e nem o gramado pinicar os meus dedos das mãos. O animal se aproximava; eu sentia. Não tinha coragem de olhar. Na verdade, parte de mim se negava a reconhecê-lo.
Fiquei de costas, ajoelhada, apoiando minhas mãos na grama verde, em busca daquela voz, daquele canto que tinha me levado ali. Em busca do que quer que tenha me feito sobreviver a um acidente de carro sem qualquer sequela, do que quer que tenha despertado a floresta ao meu favor, do que quer que me fazia sentir pesada e fria, como se algo em meus ombros estivesse lutando para se libertar e me defender.
Salve-me. Salve-me.
O rugido da criatura foi solto junto com uma baforada em minha nuca, e meu corpo arrefeceu assim que a primeira daquelas garras alcançou minhas costas num corte certeiro. Mas apesar da dor, apesar do grito que soltei, minha mente tornou a implorar.
Preciso de você. Preciso de você.
Meu tronco foi deslocado com tanta violência que o grito em minha garganta permaneceu preso, resfolegado pela visão da imensa criatura diante de mim. E eu compreendi o motivo de ter evitado tanto olhar... De ter evitado que meu medo desse poder a sua maldade intrínseca.
Era uma criatura horrenda, alta e de corpo obscuro que acabava em garras e patas. Tinha três cabeças sobre o pescoço escamoso — uma humana, outra de gato e a última de uma serpente.
As três cabeças ciciaram para mim, e as garras que me cativaram cravaram-se mais fundo em torno das minhas costelas, rangendo ossos e sangue, me arrastando com ele para longe do penhasco, mesmo que eu gritasse e arranhasse a grama do chão em uma falha tentativa de me manter ali. Gritei e chorei. Chorei e amaldiçoei aquela criatura. E me mantive chorando à medida em que implorava:
Salve-me, príncipe dos sete infernos. Salve-me.
Fechei os olhos assim que um sorriso deformou a cabeça humana, assim que senti a dor e o choque de estar sendo esviscerada não importava qual direito de defesa. E implorei. Implorei para o ar, para a água abaixo do penhasco, para o gramado verde que se manchava com o meu sangue rubro. Implorei ao fundo da minha alma, então algo mudou.
Primeiro eu senti um odor diferente, como a chama de uma vela acesa, senti o cheiro de fogo — não enxofre. Fogo puro. E vermelho crepitou em minha visão deturpada pela criatura diante de mim, e por um instante imaginei que meu sangue tinha se derramado tanto que uma parede encontrava-se sendo formada com ele.
Mas então a criatura também se virou para olhar sobre o ombro, e eu tive convicção de que aquele vermelho que esquentava com labaredas e tremeluzia não parecia sangue. Parecia uma chance de viver.
E foi por minha vida que decidi me mover, rolando por baixo da criatura, ainda com sangue e ossos gemendo. Ela de pronto se voltou para mim, determinada a finalizar logo com aquilo, mas o chão entre nós se partiu em um pequeno tremor de terra, anteriormente que, um segundo depois, um homem aparecesse diante da rachadura, diante de mim, trajando uma armadura de aço negro. Ele sequer falou uma palavra, sequer aparentou reconhecer a criatura.
O homem de modo banal desembainhou sua espada, a lâmina de um preto muito intenso que o mundo aparentou escurecer ao entorno. E, muito fácil quanto aparentou ser, ele cortou a criatura em duas, partindo-a ao meio com um canto do aço através o ar.
Inspirei, percebendo um odor terrível vindo da criatura fumegante. Ela encontrava-se pegando fogo, com o que quer que houvesse naquela espada. Encontrava-se queimando a criatura que permaneceu viva ainda com o corte fatal.
Meu estômago se revirou e doeu em reconhecimento, porque eu também me encontrava viva com um corte profundo em minha barriga, com sangue escorrendo e ossos doendo. Mas encontrava-me viva. E tudo aquilo aparentou ser errado e perturbador.
O homem diante de mim aguardou ainda que a criatura queimasse, ainda que suas cinzas não fossem mais visíveis conforme o assopro a levou dali, e mesmo que não tivesse se passado mais do que alguns segundos, ele aparentou ser profundamente abalado ao se virar para me olhar.
Meu salvador não parecia um Deus, mas sua aparência não parecia nenhum pouco difícil de se babar. Cabelos castanhos na altura dos ombros voaram para o seu rosto assim que um assopro sombrio nos acertou, uma barba cheia e escura escondendo parcialmente as feições angulosas e extremamente belas.
E ali, de pé com a espada suja de sangue, percebi o quão letal parecia a sua presença. Olhos de um castanho muito obscuro que poderia ser preto me observaram, e eu notei como com a barba cheia aquilo combinava perfeitamente com o maxilar pronunciado e os lábios rosados e belos.
Ainda sob a armadura eu podia ter convicção da massa muscular e da força escondida ali dentro, considerando também a grande estatura do homem.
Agora de frente para mim, eu pude ver que a sua armadura não parecia de um inteiramente preto. Tinha um vermelho obscuro e profundo serpenteando inteiramente aquele aço negro na parte frontal, em um formato de uma imensa cobra que cuspia fogo abaixo de sua língua bifurcada centralizada no peito da armadura.
Aguardei por tudo o que viesse a seguir, uma nova possibilidade de morrer, um novo ataque. Tudo. Menos por aquela força letal se colocando sobre um dos joelhos, conforme sua cabeça se abaixava em uma reverência muito profunda, que o mundo ao nosso entorno aparentou prestar atenção, conforme ele falou:
— Bem vinda de volta, majestade.
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