
Rainha da Luxúria
Capítulo 3
— Do que foi que você me chamou? — questionei, ocupada demais querendo não gemer da dor em meus ferimentos abertos para tentar soar menos agressiva.
O homem levantou de seus joelhos, e outra vez senti aquele poder letal ao entorno, daquela vez me perturbando, deixando minha mente enuviada. Quem sabe estivesse sofrendo de um choque com tanto sangue escorrendo entre as mãos que eu trazia ao abdômen, ou quem sabe realmente fosse por causa dele. Que de determinada forma aquela sensação de perigo crescente em meu sangue fosse causada pela presença dele.
Quem sabe ele tenha notado isto, pois se esforçou para sorrir, se esforçou para parecer agradável e pouco ameaçador. Dentes perfeitamente brancos surgiram entre os belos lábios, e me apanhei praticamente abrindo um sorriso também por puro instinto ou obedecendo a um comando que ele sequer necessitou verbalizar.
Acabei parando no meio do ato com um arregalar de olhos, e percebi que realmente tinha poder exalando daquele homem. Poder bastante para me convencer de que ele não parecia perigoso, e isso aparentou despertar cada um dos meus sentidos.
— Majestade — repetiu lentamente, mesmo que seus olhos tenham corrido rapidamente pelo meu corpo, semicerrando-se ao perceber o meu estômago ferido. — Por que não está se curando?
Levei um tempo para entender.
— Por que eu deveria estar me curando?
O homem piscou, inspirou o cheiro — meu cheiro —, arregalando momentaneamente os olhos. Fiquei em alerta no instante em que ele tornou a se ajoelhar, nivelando nossa altura. Me mantive sentada no chão, as pernas esticadas e os braços diante da barriga, ainda com meus joelhos tremendo e uma sensação absurda de urgência me pedindo para ficar de pé primeiro que inteiramente aquele poder me seduzisse de vez.
Era isso então, percebi.
Encontrava-me sendo seduzida de determinada maneira muito imediata. Pelas palavras, o rosto bonito, e aquela falsa sensação de que ele não me machucaria. No fundo, eu realmente imaginava em inteiramente aquele teatro. Ele encontrava-se se contendo, fosse para não me assustar ou por achar divertido brincar com suas vítimas, eu ainda não sabia.
Eu não gostei do jeito como ele se aproximou, me tocando sem pedir não importava qual permissão para tal. Mas eu não pude evitar que ele puxasse a bainha da minha camisa e revelasse os sulcos de garras que abriam a pele com dobrinhas salientes em minha barriga.
Ele xingou e eu jurei ter sentido a minha perna estremecer em um novo tremor de terra, ou quem sabe tenha estremecido porque ele encontrava-se perigosamente próximo e meu corpo perigosamente esticado abaixo dele. Definitivamente parecia algo nele que me deixava verdadeiramente desconfortável.
— Se você for algum tipo de médico, pode continuar me tocando... — grunhi, querendo soar ameaçadora, mas falhei. — Se não for, sugiro que pare. — Determinada coisa encontrava-se me deixando leve demais, sonolenta demais.
— Muito arrogante, como da última vez em que nos vimos — ele falou, e um brilho fascinante coloriu seus olhos obscuros, mas que rapidamente sumiu conforme o homem se levantou e me esticou a mão. — Vamos logo. Muitos estão esperando por você.
Observei a mão e lancei um olhar debochado para o homem, me perguntando se ele realmente aguardava que eu fosse conseguir me levantar. Assim que ele somente aguardou, com a larga mão a alguns centímetros do meu rosto, eu bati no seu punho e esbravejei:
— E como diabos você espera que eu vá para não importava qual lugar encontrar alguém depois de ter sofrido um acidente, e ter sido atacada por um bicho horroroso? Eu sequer sei se você existe de verdade ou se isso não é uma alucinação por conta do acidente. — Seu rosto não mostrou nenhum sinal de confusão, então acrescentei: — Eu estou sangrando, criatura!
— E não deveria estar — falou ele de maneira ríspida, como se fosse óbvio. — Use a sua cura, e vamos mesmo que anteriormente que mais um Aatxe apareça. Esse seu sangue humano está atiçando e convertendo ainda o meu poder. Imagine o que não pode fazer com monstros muito desesperados em prová-lo.
Tudo bem. Nada mais fazia sentido algum, por isso, me esforcei para respirar e não gritar.
— Moço... quer dizer... senhor... — comecei tropeçando nas palavras, conforme ele me encarou e aquele desconforto ameaçou me abalar outra vez. Tinha algo a ver com o olhar dele, percebi, aqueles olhos obscuros que aparentava estarem exigindo uma verdade suprema. — Eu não faço ideia do que está acontecendo. Eu sofri um acidente na estrada logo atrás da floresta, encontrei uma fenda em uma rocha e atravessei, então acabei parando aqui com aquela criatura atrás de mim. Eu não sei quem eu sou, não sei como cheguei a sofrer aquele acidente, e juro por Deu... Juro por De... Merda. Juro que não faço ideia de quem você e os outros são. E estou sangrando e preciso de um médico porque não tenho como me curar sozinha, se é o que você e os outros que me esperam sabem fazer. E por mais estranho que pareça a minha calma, eu juro por... Juro que não estou calma e estou a um passo de chorar e gritar, principalmente porque este ferimento, — indiquei minha barriga. — Dói como o inferno.
O homem esfregou um ponto entre as sobrancelhas, parecendo conter determinada dor.
— Então você conseguiu retornar, mas não consegue se lembrar do ponto em que parou.
Pisquei, querendo decifrar as entrelinhas, entender se poderia ser uma pergunta. Busquei em algum canto da minha mente, em algum canto daquela alma em pedaços que o tinha conjurado ainda ali, implorando a um príncipe dos infernos que me salvasse. Mesmo que eu percebesse como chamá-lo, não podia dizer o motivo. Não podia me lembrar como sequer o conhecia. E dor — uma dor sentimental e anciã — perpassou aqueles olhos negros.
Me esforcei para me levantar e ignorar o arrepio em minha nuca ao notar aqueles olhos negros movendo-se para acompanhar, me esforcei para que aquele tremor abaixo de nós não me sobrepujasse e que ele não percebesse que eu sabia, mas não entendia por que tudo aquilo encontrava-se acontecendo.
Tudo porque eu verdadeiramente não me lembrava. Não percebia não importava qual pressentimento de que aquilo algum dia tinha sido a minha realidade. De que monstros como o Aatxe fizessem parte de não importava qual mundo que eu habitasse. E esta conclusão foi o bastante para que eu escolhesse meter o fora.
— Certo, isso está ficando cada vez mais estranho. — Respirei fundo para recuperar o senso, e aquela sensação esquisita de formigamento no corpo sumiu. Acenei com a mão suja de sangue anteriormente de começar a me afastar para o lado oposto do homem. — Quer saber? Chega. Prazer conhecer você, mas eu estou saindo fora.
Não dei mais do que três passos através da grama verdinha ainda escutar o homem seguindo em meu encalço. Inteiramente aquele aço da armadura estalando conforme ele caminhava atrás de mim. Eu tinha convicção que teria pesadelos com aquele som. E com aquele cheiro terrível da criatura morta que ainda pairava no ar.
— Não posso deixar que volte para o mundo humano, majestade.
Eu me virei, dando de cara — literalmente de cara — com a armadura que ele usava. Tive de dar um passo para trás, xingando à medida em que massageava o nariz dolorido, para poder encarar o estranho.
Ainda com um passo dado, ele encontrava-se perto demais, e meu corpo inteiro permaneceu perturbado. Será que ele podia sentir meus pensamentos me levando para vislumbres do corpo que tinha embaixo daquela armadura? Xinguei outra vez, amaldiçoando o pensamento. O que diabos encontrava-se acontecendo ali?
— Você quer ainda me fazer acreditar que eu possuo algum tipo de reino com bichos daquele tipo rondando livremente pelo mundo?
— Não importava qual tipo de reino — ele gesticulou com os ombros. — E você é, sem dúvida determinada, a rainha do nosso mundo.
Eu gargalhei, ainda sem humor algum.
— Bela piada, parceiro. Agora já chega. Quero voltar. — Bati de leve no peito da sua armadura, querendo soar amigável, e meu corpo inteiro estremeceu com o breve contato. Bufei, dando a volta para continuar seguindo para onde eu tinha a convicção de que tinha sido o local onde o portal se abriu.
— Ele está fechado agora.
— Então abra! — gritei.
— Não posso — ele gritou de volta. — Foi você quem abriu, usando seus poderes.
Eu não virei, sequer considerei o que ele tinha dito sobre poderes, mundos diferentes ou monstros sedentos por sangue humano, ainda que estivesse buscando pelo o que eu sabia se tratar de um portal. ainda após jurar de pés juntos que não fazia ideia de onde vinha toda aquela consciência sobrenatural.
Somente me mantive seguindo em frente, mas logo percebi que a paisagem não mudava. A floresta escura não aparentava estar. Aquele instinto selvagem não me fazia querer atravessar parte determinada.
E tragicamente notei o quão idiota parecia continuar andando assim que me vi arquejando por uma tontura repentina, e abaixei o olhar para a minha barriga, observando o sangue desenhar um rastro na minha camisa. Meus joelhos tremeram e minha boca permaneceu seca. parecia isso. Eu não sabia como contornar aquela situação.
— Eu não consigo me lembrar de nada. — Fui sincera. — Parece que a minha vida somente começou há minutos atrás, naquele acidente de carro. Eu não entendo como você chegou ainda aqui, e não entendo como podemos nos conhecer.
O homem cruzou os braços.
— Considere que eu não posso mentir para você e isso já é um bom começo.
— Como isso pode ser real? — questionei, engolindo em seco. — Como pode me convencer de que isso não é parte do acidente de carro? Que não vou acordar em uma ambulância com um sonho estranho depois de ter sido sedada? Como você pode ser real?
A postura do homem mudou, e eu senti aquele poder recuar, senti um alívio no ar. Como se ainda o tempo estivesse se incomodando com aquela força sobre si. Ele respirou fundo, e incialmente considerei que estivesse tomando tempo, mas logo percebi que se tratava de uma maneira para conter aquela coisa sobrenatural que emanava de si, como se precisasse de muito esforço para sumir com aquilo.
— Se nada disto é real, então por que não consegue se lembrar da sua vida na terra? Do seu nome, da sua família, ou do motivo para ter se acidentado?
— O acidente me fez bater a cabeça. Devo estar em choque com a pancada — gaguejei, aturdida. — Mas vou me lembrar logo. Só preciso de um tempo.
— Não precisa de tempo — ele falou, dando um passo. — Precisa admitir que não é inteiramente dia que uma humana comum é atacada por um monstro e salva por outro pior ainda. Se fizer isso, se considerar o que estou querendo dizer... Vai perceber que pode haver um bloqueio em sua cabeça para ser muito cética com algo muito claro. — As mechas escuras do cabelo dele foram sopradas através o seu rosto, e eu percebi que, apesar da brisa suave nos tocando de tempos em tempos, sequer o sol tinha a audácia de refletir no aço de sua armadura preta. — Você não é, e nunca foi, uma humana comum. Tenha em mente que eu jamais me ajoelharia diante de ninguém além da minha rainha.
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