
Prometida ao Irmão Errado
Capítulo 2
Cora
No fim, eu já não parecia mais eu.
As roupas simples que eu usava tinham desaparecido como se nunca tivessem existido. Meu tênis velho, minha calça jeans desbotada e o moletom gasto ficaram para trás junto com a garota que entrou naquela mansão horas atrás.
Agora, eu estava diante de um espelho enorme usando um vestido rodado rosa bebê que parecia saído de um conto de fadas.
Delicado.
Perfeito.
Ridiculamente caro.
A saia volumosa parava acima dos joelhos e marcava minha cintura de uma forma suave, feminina... quase inocente. Meu cabelo estava solto em ondas impecáveis e minha maquiagem escondia completamente as olheiras de noites mal dormidas no hospital.
Eu parecia uma menininha rica.
Uma garota que nunca precisou contar moedas para comprar pão.
Uma garota que nunca viu a mãe chorar escondido no banheiro porque não tinha dinheiro para pagar contas.
Mas aquilo não era verdade.
Eu fui jogada naquela vida por um único motivo:
Salvar minha mãe.
- Uau... - Kami assobiou atrás de mim. - Toda essa beleza estava escondida naqueles trapos velhos?
Revirei os olhos imediatamente.
- Obrigada pela delicadeza.
Ela riu.
Judith apareceu ao lado dela analisando meu reflexo no espelho.
- Pois é, irmã. Atrasamos mais uma vez.
Abri a boca indignada.
- Helloou? Eu ainda estou aqui, sabia? Não precisam me humilhar na minha frente.
Kami caiu na gargalhada.
- Desculpa, Cora. - Judith disse tentando parecer séria, mas claramente segurando o riso. - É a força do hábito.
Bufei cruzando os braços.
- Vocês são insuportáveis.
- E você dramática. - Kami rebateu. - Vai se acostumar.
Ela se aproximou ajustando uma mecha do meu cabelo.
- Você vai se dar bem aqui.
A forma como ela disse aquilo me fez rir sem humor.
Se dar bem.
Como alguém se dava bem sendo vendida em troca de uma cirurgia?
- Vamos logo. - Kami continuou. - Em dez minutos começa o jantar de noivado.
Meu coração tropeçou.
Noivado.
Meu.
Noivado.
Com um homem que eu nunca vi.
- Só os íntimos. - Judith acrescentou calmamente.
- Íntimos? - murmurei nervosa.
- Sim.
Mal sabia eu o significado da palavra íntimos para aquela gente.
---
Duas funcionárias entraram no quarto trazendo mais caixas.
Mais roupas.
Mais sapatos.
Mais joias.
Eu estava começando a achar que aquelas pessoas tinham algum problema psicológico com excesso de luxo.
- Não acredito... - murmurei vendo outro vestido.
- Esse é o oficial do jantar. - Judith explicou.
Quando abriram a caixa, quase fiquei cega.
O vestido branco era absurdamente lindo.
Rodado.
Elegante.
Cheio de detalhes delicados brilhando discretamente sob a luz do quarto.
Parecia caro o suficiente para pagar metade das dívidas do hospital.
Talvez mais.
- Isso deve custar o valor de um carro.
Kami deu de ombros.
- Provavelmente custa mais.
Meu Deus.
As duas praticamente me arrastaram para outra sessão de cabelo, maquiagem e ajustes enquanto eu reclamava baixinho.
Depois vieram os sapatos.
Saltos brancos lindíssimos de alguma marca francesa impossível de pronunciar.
- Eu vou quebrar o pescoço nisso aqui.
- Não vai não. - Kami respondeu. - Mulheres ricas aprendem a sofrer em silêncio.
- Isso definitivamente não é normal.
Judith sorriu.
- Você vai sobreviver.
Talvez.
Ou talvez eu tivesse um colapso antes do jantar começar.
Quando finalmente terminaram, eu me encarei no espelho outra vez.
E não consegui me reconhecer.
A garota refletida ali parecia pertencer àquele mundo.
Bonita.
Elegante.
Quase refinada.
Mas eu sabia a verdade.
Tudo aquilo era apenas embalagem.
Por dentro eu ainda era a garota apavorada do hospital.
A filha desesperada tentando salvar a mãe.
- Está pronta? - Judith perguntou suavemente.
Não.
Nem um pouco.
Mas assenti mesmo assim.
---
Descemos as escadas da mansão e meu coração começou a acelerar conforme vozes e música preenchiam o ambiente.
Eu imaginava algo pequeno.
Uma mesa elegante.
Talvez meia dúzia de pessoas importantes.
Algo íntimo.
Mas no segundo em que atravessei as portas do salão principal...
Eu parei.
Completamente.
Meu cérebro simplesmente travou.
- Meu Deus... - murmurei.
O salão estava lotado.
LOTADO.
Lustres gigantes iluminavam centenas de pessoas elegantemente vestidas. Homens de ternos caros conversavam segurando taças de champanhe enquanto mulheres cobertas de joias circulavam pelo ambiente como personagens de filmes antigos.
Música clássica ecoava ao fundo.
Garçons passavam com bandejas douradas.
Flores brancas decoravam tudo.
Aquilo parecia um evento da realeza.
- Isso não é um jantar íntimo! - sussurrei desesperada olhando ao redor. - Tem umas cem pessoas aqui!
Kami começou a rir imediatamente.
- Cento e vinte e três, na verdade.
Arregalei os olhos.
- CENTO E VINTE E TRÊS?!
Judith segurou minha mão discretamente.
- Relaxa.
- Relaxa?! Tem mais gente aqui do que no meu bairro inteiro!
As duas gargalharam.
- Cora... - Kami tentou falar sem rir. - Isso é um jantar íntimo para a alta sociedade.
- Vocês vivem em outra dimensão.
- Tecnicamente... sim.
Meu estômago revirava enquanto vários olhares se voltavam para mim.
As pessoas cochichavam.
Observavam.
Analisavam.
Como se tentassem descobrir quem eu era.
E talvez fosse exatamente isso.
Quem era a garota simples que apareceu do nada e ficou noiva de um De Luca?
- Estou assustando? - perguntei baixo.
Judith sorriu.
- Um pouco.
- Ótimo. Vou vomitar.
Kami segurou meu braço antes que eu surtasse completamente.
- Ei. Respira. Eles são só ricos, não alienígenas.
- Tem diferença?
Ela riu.
- Às vezes não.
Antes que eu respondesse, o salão inteiro ficou um pouco mais agitado.
Algumas mulheres começaram a ajeitar postura.
Homens cumprimentaram alguém ao longe.
E então Judith sorriu discretamente.
- Otto chegou.
Meu coração acelerou instantaneamente.
Meu noivo.
Meu futuro marido.
Meu Deus.
Olhei automaticamente para entrada do salão.
E vi ele.
Otto De Luca era... lindo.
Infelizmente lindo.
Alto.
Elegante.
Cabelos claros perfeitamente arrumados.
Olhos azuis absurdamente marcantes.
O terno preto parecia ter sido feito exatamente para ele.
E o pior?
Ele sorria de forma gentil.
Calma.
Quase acolhedora.
Nada nele parecia arrogante ou cruel.
Aquilo me confundiu completamente.
Porque eu queria odiá-lo.
Queria olhar para ele e sentir raiva.
Mas Otto parecia... bom.
Ele caminhou em nossa direção enquanto várias pessoas o cumprimentavam pelo caminho.
Quando nossos olhares finalmente se encontraram, ele diminuiu os passos.
E então sorriu.
Diretamente para mim.
Meu coração esperou pelas famosas borboletas.
Pela eletricidade.
Pelo impacto.
Por qualquer coisa.
Mas...
Nada aconteceu.
Absolutamente nada.
Ele era lindo.
Muito lindo.
Mas meu corpo permaneceu imóvel.
Sem calor.
Sem arrepio.
Sem caos.
Aquilo me deixou estranhamente culpada.
Porque aquele homem seria meu marido.
- Então essa é a Cora? - a voz dele era suave.
Otto parou na minha frente.
Perto demais.
Bonito demais.
Educado demais.
Pegou minha mão delicadamente e beijou meus dedos.
- Prazer finalmente conhecer você.
Eu pisquei algumas vezes tentando voltar para realidade.
- O prazer é meu.
Mentira.
O prazer definitivamente não era meu.
Ele sorriu de novo.
E eu percebi o quanto seria fácil para qualquer garota se apaixonar por Otto De Luca.
- Você está linda.
- Obrigada.
Kami apareceu atrás dele imediatamente.
- Viu? Eu falei que ela era bonita.
Otto riu baixo.
- Você disse bonita. Não disse deslumbrante.
Revirei os olhos internamente.
Rico também flertava rápido assim?
Judith parecia satisfeita observando a interação.
Como se tudo estivesse saindo exatamente como planejado.
- Espero que não esteja assustando a Cora. - Otto comentou.
- Tarde demais. - respondi antes de pensar.
Ele riu.
E aquilo me pegou desprevenida.
Porque não foi uma risada debochada.
Foi sincera.
Quente.
Humana.
- Prometo que os De Luca parecem mais perigosos do que realmente são.
Kami tossiu alto tentando esconder a risada.
Otto estreitou os olhos para ela.
- Não começa.
- Eu não falei nada.
- Seu rosto falou.
Os dois começaram a discutir de forma leve enquanto Judith me observava discretamente.
- Está melhor? - ela perguntou baixinho.
Olhei novamente para Otto.
Bonito.
Gentil.
Educado.
O homem perfeito no papel.
Mas ainda assim...
Meu coração continuava quieto.
E por algum motivo estranho...
Aquilo me assustava mais do que deveria.
{...}
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