
Prometida ao Irmão Errado
Capítulo 3
Cora
Eu não fazia ideia de como ainda estava de pé.
Sério.
Aqueles saltos eram instrumentos de tortura disfarçados de sapato de luxo. Meus dedos doíam tanto que eu já não conseguia sentir metade do pé direito, enquanto o esquerdo parecia implorar misericórdia a cada passo que eu dava naquele salão gigante.
E ainda tinha gente sorrindo.
Conversando.
Dançando.
Como se ficar horas em cima de um salto agulha fosse algo natural.
Ricos eram perturbados.
Definitivamente perturbados.
Eu estava parada ao lado de Otto enquanto mais um casal desconhecido nos parabenizava pelo "lindo futuro juntos" quando senti minhas pernas vacilarem discretamente.
Otto percebeu na mesma hora.
- Ei. - sua voz saiu baixa e gentil perto do meu ouvido. - Você quer se retirar?
Quase chorei de gratidão.
- Por favor...
Ele sorriu de lado.
Não um sorriso arrogante.
Um sorriso compreensivo.
Como se entendesse exatamente o tamanho do caos que aquela noite estava sendo para mim.
- Podemos fugir.
Franzi a testa.
- Fugir?
- Uhum. - ele pegou duas taças de champanhe de uma bandeja que passava. - Eu fico com você no seu quarto até tudo isso acabar e depois colocamos a culpa no fato de estarmos nos conhecendo melhor.
Aquilo me fez rir baixinho pela primeira vez desde o início da festa.
- Você parece experiente nisso.
- Em fugir de eventos da minha mãe? Bastante.
Sorri sem perceber.
- Obrigada.
Foi a única coisa que consegui dizer.
Porque eu realmente estava agradecida.
Otto poderia simplesmente me deixar ali sorrindo para estranhos até meus pés caírem do corpo, mas em vez disso estava tentando me salvar daquela tortura social.
Ele me ofereceu o braço elegantemente.
- Vamos antes que Alma perceba.
Segurei seu braço tentando parecer natural enquanto atravessávamos o salão discretamente.
Ou pelo menos tão discretamente quanto possível.
Ainda sentia olhares em mim.
Pessoas cochichando.
Mulheres me analisando da cabeça aos pés.
Mas dessa vez... eu não ligava tanto.
Tudo o que eu queria era tirar aqueles saltos.
Subimos as escadas enormes da mansão enquanto a música ficava cada vez mais distante.
O silêncio do segundo andar parecia outro universo comparado ao caos elegante lá embaixo.
- Você está melhor? - Otto perguntou.
- Vou responder depois que arrancar esses sapatos dos meus pés.
Ele riu baixo.
Meu Deus.
Otto ria com facilidade.
Era estranho.
Eu esperava alguém frio.
Distante.
Arrogante.
Mas ele parecia... normal.
Rico.
Absurdamente bonito.
Mas normal.
Quando chegamos ao quarto que Dona Alma havia separado para mim, quase suspirei de alívio.
Era enorme.
Muito maior que a casa onde morei minha vida inteira.
As luzes suaves deixavam tudo aconchegante demais para um lugar tão luxuoso.
Otto soltou meu braço.
- Vou esperar aqui.
Assenti rapidamente e praticamente corri para o closet.
Assim que a porta fechou atrás de mim, tirei os saltos num movimento desesperado.
- Ai, meu Deus... - gemi aliviada sentando no pequeno sofá do closet.
Meus pés estavam vermelhos.
Machucados.
Quase assassinei Kami mentalmente por dizer que aquilo "nem era tão alto".
Bufei tirando o vestido cuidadosamente logo depois.
Minhas mãos pararam por alguns segundos no tecido branco caro.
Aquilo tudo parecia tão distante da minha realidade.
Como se eu estivesse interpretando alguém.
Uma versão falsa de mim mesma.
Escolhi um pijama longo de cetim claro que tinham deixado no closet e o vesti rapidamente.
Calça comprida.
Blusa de mangas longas.
Confortável.
Humano.
Eu nunca pensei que sentiria tanta felicidade por usar pijama.
Prendi o cabelo num coque bagunçado antes de voltar para o quarto.
Otto estava sentado na ponta da cama mexendo no celular, mas levantou os olhos imediatamente quando me viu.
E então sorriu.
- Muito melhor.
- Você não faz ideia.
Ele olhou para meus pés descalços.
- Sobreviveu?
- Por pouco.
Aquilo arrancou outra risada dele.
Caminhei até a cama e sentei do outro lado mantendo certa distância.
O silêncio entre nós não era desconfortável.
O que me surpreendeu.
Na verdade... parecia leve.
Estranhamente leve.
Otto soltou o celular de lado.
- Então... oficialmente somos noivos.
Meu estômago revirou um pouco.
- É estranho ouvir isso.
- Pra mim também.
Ergui os olhos rapidamente.
- É?
Ele assentiu calmamente.
- Minha mãe decidiu tudo muito rápido.
Aquilo me deixou surpresa.
- Você não sabia?
- Sabia que ela queria me casar. - respondeu soltando o ar lentamente. - Mas não sabia quem seria.
- E isso não te incomoda?
Otto ficou alguns segundos em silêncio antes de responder.
- Eu cresci nesse mundo, Cora. Depois de um tempo você entende que algumas coisas simplesmente... acontecem.
- Isso é triste.
Ele deu um sorriso pequeno.
- Um pouco.
Observei seu rosto por alguns segundos.
Otto realmente era lindo.
Perigosamente lindo.
Mas ainda assim...
Nada.
Nenhum frio na barriga.
Nenhuma faísca.
Nenhuma loucura.
E aquilo me fazia sentir uma pessoa horrível.
Porque ele estava sendo gentil comigo desde o momento em que nos conhecemos.
- Você está pensando demais. - ele comentou de repente.
Pisquei surpresa.
- Como sabe?
- Você faz essa carinha.
- Que carinha?
Ele imitou minha expressão séria e perdida.
Acabei rindo.
- Ridículo.
- Acertei.
Balancei a cabeça negativamente enquanto sorria sem perceber.
Meu Deus.
Eu estava confortável.
Confortável com o homem que deveria ser meu futuro marido.
Talvez aquilo fosse bom.
Talvez facilidade fosse melhor do que paixão.
Paixão destruía pessoas.
Conforto não.
- Posso te perguntar uma coisa? - Otto disse.
- Acho que sim.
- Você odeia muito essa ideia?
Meu coração apertou.
Porque a pergunta dele foi sincera.
Sem ego.
Sem arrogância.
Ele realmente queria saber.
Baixei os olhos para minhas mãos.
- Eu não odeio você.
- Mas...
Suspirei.
- Mas eu odeio o motivo de estar aqui.
O silêncio caiu entre nós.
Otto não pareceu ofendido.
Só... compreensivo.
- Sua mãe vai ficar bem. - ele disse baixo.
Aquilo quase me destruiu.
Porque fazia horas que eu estava fingindo força.
Horas fingindo que não estava morrendo de medo por dentro.
Minha mãe estava numa cirurgia enquanto eu brincava de princesa rica em uma mansão.
Meus olhos arderam imediatamente.
Droga.
Otto percebeu na hora.
- Ei... - sua voz suavizou ainda mais.
Virei o rosto rapidamente tentando me recompor.
- Desculpa.
- Não se desculpa.
Mas era tarde.
A primeira lágrima caiu.
Depois outra.
E outra.
Levei as mãos ao rosto completamente envergonhada.
- Eu não consigo parar de pensar nela... - minha voz falhou. - E se acontecer alguma coisa? E se eu tiver vendido minha vida inteira e no final ela ainda...
- Cora.
Otto se aproximou devagar.
Sem invadir meu espaço.
Sem exageros.
Apenas sentando mais perto.
- Minha mãe move hospitais inteiros se quiser. Sua mãe está recebendo o melhor tratamento possível.
Fechei os olhos tentando respirar.
- Eu estou com medo.
- Eu sei.
A forma como ele disse aquilo...
Calma.
Gentil.
Quase me desmontou completamente.
Otto pegou uma caixa de lenços da mesa ao lado e me entregou.
Acabei rindo no meio do choro.
- Que romântico.
Ele sorriu.
- Sou um cavalheiro moderno.
Limpei o rosto respirando fundo.
- Você é sempre assim?
- Assim como?
- Bonzinho.
Otto gargalhou baixo.
- Kami definitivamente diria que não.
- Então ela mente?
- Frequentemente.
Sorri de novo.
E ali, naquele momento, eu percebi algo importante:
Otto seria meu amigo antes de qualquer outra coisa.
A tensão que eu imaginava não existia.
Não havia aquele desespero de proximidade.
Nem desejo.
Nem nervosismo.
Só... paz.
Era quase como conversar com alguém que eu conhecia há anos.
- Quer saber um segredo? - Otto perguntou de repente.
- Depende do segredo.
Ele se aproximou conspiratório.
- Eu odeio essas festas tanto quanto você.
Arregalei os olhos.
- Mentira.
- Juro.
- Mas você parece tão confortável.
- Treinamento de infância.
Ri baixinho.
- Então você é um farsante profissional.
- Com diploma.
Ficamos conversando por horas depois disso.
Sobre coisas simples.
Minha escola.
Os lugares onde trabalhei.
As viagens dele.
Os jantares absurdos da alta sociedade.
As histórias malucas de Kami.
As tentativas de Judith em controlar o caos daquela família.
E quanto mais conversávamos...
Mais eu tinha certeza:
Otto seria um ótimo amigo.
Talvez até o melhor que eu já tive.
Mas não parecia o homem da minha vida.
E aquilo deveria me preocupar mais do que preocupava.
{...}
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